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O fim do livro de papel

Estamos a um passo do livro eletrônico perfeito. O que o iPad tem de ruim, o Kindle tem de bom. E vice-versa. Agora é juntar os pontos positivos dos dois num produto só. E, quando isso acontecer, o livro impresso acaba

Alexandre Versignassi

Só 122 livros. Era o que a Universidade de Cambridge tinha em 1427. Eram manuscritos lindos, que valiam cada um o preço de uma casa. Isso foi 3 décadas antes de a Bíblia de Gutenberg chegar às ruas. Depois dela, os livros deixaram de ser obras artesanais exclusivas de milionários e viraram o que viraram. Graças a uma novidade: a prensa de tipos móveis, que era capaz de fazer milhares de cópias no tempo que um monge levava para terminar um manuscrito.

Foi uma revolução sem igual na história e blá, blá, blá. Só que uma revolução que já acabou. Há 10 anos, pelo menos. Quando a internet começou a crescer para valer, ficou claro que ela passaria uma borracha na história do papel impresso e começaria outra. Óbvio: os 7 milhões de volumes que a Universidade de Cambridge mantém hoje nos 150 quilômetros de prateleiras de suas várias bibliotecas caberiam em 4 discos rígidos de 500 gigabytes. Só 4. Sem falar que ninguém precisaria ir até Cambridge para ler os livros.

Mas aconteceu justamente o que ninguém esperava: nada. A internet nunca arranhou o prestígio nem as vendas dos livros. Muito pelo contrário. O 2o negócio online que mais deu certo (depois do Google) é uma livraria, a Amazon. Se um extraterrestre pousasse na Terra hoje, acharia que nada disso faz sentido. Por que o livro não morreu? Como uma plataforma que, se comparada à internet, é tão arcaica quanto folhas de pergaminho ou tá-buas de argila continua fime?

Você sabe por que. Ler um livro inteiro no computador é insuportável. A melhor tecnologia para uma leitura profunda e demorada continua sendo tinta preta em papel branco. Tudo embalado num pacote portátil e fácil de manusear. Igual à Bíblia de Gutenberg. Isso sem falar em outro ingrediente: quem gosta de ler sente um afeto físico pelos livros. Curte tocar neles, sentir o fluxo das páginas, exibir a estante cheia. Uma relação de fetiche. Amor até.

Mas esse amor só dura porque ainda não apareceu nada melhor que um livro para a atividade de ler um livro. Se aparecer…

Se aparecer, não: quando aparecer. Depois do cd, que já morreu, e do dvd, que está respirando com a ajuda de aparelhos, o livro impresso é o próximo da lista.

Há 3 anos apareceu o primeiro livro eletrônico realmente viável: o Kindle, da Amazon. Você compra um aparelho e aí pode baixar qualquer livro de um catálogo de 20 mil títulos (quase todos em inglês). Com a vantagem de que pode fazer isso de qualquer lugar, pela rede 3G. E de que cabem 1 500 obras no bichinho de 400 gramas. Assim, de cara, ele até parece estranho, com sua tela monocromática e pequena (6 polegadas). Mas a primeira vez com ele você nunca esquece. E você corre o risco de se apaixonar. O segredo desse poder de sedução é a tela do Kindle. Por causa do seguinte: ler por horas num lcd comum não é diferente de ficar olhando para lâmpada. Uma hora seus olhos pedem arrego. Mas com o Kindle não. Ele não emite luz. A tela é feita de tinta de verdade – preta para as letras, branca para o fundo. E a leitura flui como se a tela fosse de papel. Ou quase: a tinta eletrônica demora para se reposicionar quando você vira a página. E virar a página é eufemismo, na verdade. Ao contrário de um livro comum, elas não são sensíveis ao toque. Tem que apertar botão. Chato. Por essas, o Kindle nunca foi uma ameaça à venda de livros comuns. Mas, em janeiro, veio o iPad, da Apple. Com uma proposta ambiciosa: aposentar o Kindle e virar iPod dos livros eletrônicos. À primeira vista, ele cumpre a promessa. Tudo o que Kindle tem de péssimo esse iPhone de Itu tem de ótimo: tela enorme, colorida, páginas que você vira com os dedos, sem botão, como se estivesse com um livro normal. Mas não. Não dá para chamar o Steve Jobs de Gutenberg 2.0. O iPad tem uma falha de nascença: a tela é de lcd. Não dá para ler um romance inteiro ali. Seus olhos vão implorar para que você largue o iPad e tente um livro de verdade, daqueles do Gutenberg 1.0 mesmo. Fim de papo.

E começo de conversa séria: dezenas de empresas estão trabalhando justamente para unir o que os dois têm de bom. A Philips, por exemplo, desenvolve um protótipo, o Liquavista, com tela de tinta. Mas colorida. Outra, a Pixel Qi, está fazendo um livro eletrônico com um lcd sensível ao toque. Mas que não emite luz (!). A E- Ink, que faz a tela do Kindle, também quebra a cabeça. E sempre tem a Apple… Ou seja: uma hora o livro eletrônico ideal chega. E, quando isso acontecer, sua estante de livros vai virar algo tão anacrônico quanto aquela caixa de sapato cheia de fitas cassete. Aquela mesma, que você tinha guardada. E que acabou sumindo.