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Som manipulado para ter a sensação de “ao vivo”: Em busca da orquestra doméstica

Transformando sons em manipuláveis sinais eletrônicos, a tecnologia digital leva aos aparelhos domésticos o melhor som que um estúdio pode gravar. A sensação envolvente da música ao vivo, porém, depende das não tão domadas ondas sonoras saídas das caixas acústicas.

Fátima Cardoso e Luiz Américo Camargo

Desde que Thomas Edison inventou o fonógrafo, a tecnologia do som tentou reproduzir com aparelhos a mesma música que se ouvia ao vivo. Nunca conseguiu. A sensação de som envolvente proporcionada por uma orquestra num teatro dificilmente pode ser imitada. A barreira não está na eletrônica — assim que a música é colocada em computadores e passa a ser tratada na linguagem digital, os recursos para atingir o som puro são quase ilimitados, a ponto de se terem programas para restaurar trechos estragados de gravações antigas. Estúdios de preparação de fitas para fabricação de CDs são capazes de criar efeitos ou corrigir defeitos, tudo eletronicamente.

O grande problema do som doméstico hoje começa na hora em que a música deixa os fios e sai pelas caixas acústicas. quando passa da eletrônica para o indomável fenômeno da propagação das ondas sonoras pelo ar. “O momento crítico é quando o sinal digital vira analógico, até se converter em energia sonora emitida pelas caixas”, define Fábio Oguri, diretor da Tecnovídeo, uma empresa paulista espe-cializada em áudio e vídeo.

Antes de uma fábrica de CDs receber a fita master, o original que vai gerar a matriz para a produção dos discos, é feita a pré-masterização, quando a música recebe vários aperfeiçoamentos eletrônicos. No estúdio da Microservice, no Rio de Janeiro, é possível diminuir chiados de gravações antigas, realçar graves ou agudos de gravações novas, criar ambientes que as músicas não tinham originalmente. Na mesa de mixagem digital, qualquer música pode ser melhorada, pois em cada trecho se podem corrigir o volume e a freqüência (graves, médios e agudos), dando uniformidade à gravação.

Muito desse trabalho é feito segundo o ouvido de quem edita, mas há meios precisos de visualizar a qualidade de uma gravação sonora. Os chamados equalizadores paramétricos dividem as freqüências audíveis pelo ouvido humano (entre 20 e 20 000 hertz) em 8 grandes grupos. Outro aparelho, o spectrum analyser, mostra as freqüências em forma de gráfico. O técnico da mixagem pode então ver se algumas freqüências estão com volume muito mais alto do que outras — o que pode significar, no ouvido, agudos estridentes ou graves cavernosos — e baixá-las.

A mesa digital tem recursos que mudam algumas características das músicas pela variação da reverberação, ou seja, a repetição do sinal original como um eco. Escolhe-se o modo “igreja”, por exemplo, e a mesa vai reproduzir o sinal original algumas vezes, dando a impressão de que aquela música foi mesmo gravada numa igreja, com todas as reverberações típicas daquele local. O mesmo efeito pode criar ambiência em gravações antigas, feitas com menos recursos técnicos do que hoje.

Num disco de 78 rotações, cheio de chiado, um aparelho analógico, o filtro dinâmico, entra em ação para diminuir o irritante barulho. Quando o volume da música diminui, ficando muito evidente o chiado, o filtro abaixa o volume das freqüências agudas, justamente a região onde está o ruído. Há nos Estados Unidos, porém, um equipamento que conserta os defeitos dos discos em vinil, apelidados de “cliques” e “pipocas” pelo pessoal do meio — o programa de computador NoNOISE, criado pela empresa americana Sonic Solutions. A música original é digitalizada, colocada no programa e aparece na tela em forma de ondas sonoras. Assim, vê-se claramente onde estão os defeitos, pois quando há um clique o desenho da onda vira uma linha reta. Basta cortar aquele trecho, onde o programa do computador vai restaurar a música por interpolação, ou seja, calcula o que vem antes e depois e recria uma onda parecida.

Entre o fim da edição de uma fita no estúdio e a produção da matriz dos CDs, há muita tecnologia digital a garantir a qualidade do som como nunca houve no mundo analógico. Assim que a fita master fica pronta, gravada digitalmente no formato U-Matic, passa por um computador chamado digital tape analyser, que testa as condições mecânicas e eletrônicas da fita. Se o computador detectar uma falha, ele mesmo corrige. Isso é possível porque, na hora de gravar, a cada 16 bits (pedaços de informação), 2 são gravados em outro lugar da fita, num processo conhecido como redundância. Se houver problema num trecho, o computador sabe onde colocou a redundância, e vai buscá-la para consertar aquela parte. O toca-discos a laser doméstico também tem esse recurso.

A era das gravações digitais resolveu grande parte dos problemas de registro sonoro, pois re-produzem fielmente o melhor som que os estúdios podem gravar. A questão, agora, é como aproveitar esse potencial. Entra nesse jogo, além dos toca-discos a laser, todo o aparato que viabiliza a reprodução: amplificadores, caixas acústicas e até o espaço destinado à audição.

Com equipamento estéreo já é possível conseguir um som de altíssima qualidade. A criação da imagem acústica, ou seja, a capacidade de simular a espacialidade de uma apresentação ao vivo, é perfeitamente viável com os canais direito e esquerdo. Se, ao tocar um disco de música popular, o ouvinte se posicionar corretamente entre as caixas, terá a impressão de que alguns instrumentos estão à esquerda, outros à direita e a voz no meio. Essa separação é feita na mixagem do disco, e proporciona a sensação de que se está defronte ao palco.

Porém, uma audição ao vivo acontece em condições que extrapolam a música vinda das caixas acústicas. No concerto de uma orquestra, o som que chega aos nossos ouvidos não parte em linha reta dos músicos: é a somatória das ondas sonoras que vêm dos instrumentos e das ondas refletidas nas paredes e no teto. A simulação de envolvimento, que faz com que o ouvinte se sinta numa platéia, só foi viável com a invenção do sistema Surround.

Desenvolvido pela empresa americana Dolby, o Surround usa duas caixas frontais, como no estéreo, mais duas caixas de efeito atrás, e foi criado originalmente para o cinema. Com o video- cassete e o videolaser, foi parar nas salas domésticas. “Já que a integração áudio/vídeo é a tendência de hoje, ela deve ser usufruída ao máximo”, opina Josias Cordeiro Junior, há quinze anos projetista de áudio e vídeo em São Paulo. “Metade da emoção de se ver um filme vem do som”, diz .

O Surround gerou uma variante mais avançada, o Pro Logic, com uma quinta caixa para o canal central entre as duas da frente. Quando se assiste a um filme ou show num videocassete hi-fi esté-reo ou videolaser, o som é quase tão bom quanto o de uma sala de cinema. Um filme em videolaser teria, no Pro Logic, a seguinte configuração: os diálogos sairiam em primeiro plano, pelo canal central; a música ambiente e os efeitos principais, como explosões, nas caixas frontais; os efeitos secundários, como chuva e passos sobre a folhagem, nas caixas traseiras.

Apesar de ter sido criado para o cinema, o sistema Surround caiu como uma luva na reprodução de música, pois reduz a principal diferença entre o som doméstico e o de um teatro: a ambiência. Isso é criado por meio de um efeito chamado delay (atraso, em inglês), em que o sinal enviado pelo amplificador às caixas de trás chega com alguns milissegundos de atraso em relação ao sinal das caixas frontais. O objetivo é simular as reflexões sonoras da música ao vivo. Como num CD comum, gravado em dois canais, não há os efeitos especiais de um filme, os sons não são diferentes nas quatro caixas. Na verdade, apenas um percentual do sinal emitido para as caixas frontais vai para trás, trazendo a sensação de envolvimento de um concerto.

Mas como o equipamento sabe o que é som de diálogo ou efeito especial, no caso de um filme, ou quanto de música deve ser distribuído para cada caixa? O grande maestro desse coquetel sonoro é o processador de Surround, um chip que controla o endereço do som, a amplificação e a criação dos efeitos acústicos com o recurso do delay. Um vídeo-laser traz já codificado em seus sinais o endereço de cada sinal sonoro. As cinco trilhas (no caso do Pro Logic) estão separadas, uma para cada caixa. O processador de Surround lê e intrepreta essas informações, coordenando o que deve ser enviado para as caixas frontais e o que deve tocar nas caixas de trás.

Depois dessa divisão, o sinal é amplificado e enviado para as caixas. Num aparelho de última geração, capaz de falar a língua do Pro Logic, é como se houvesse três amplificadores separados: um para o canal central, outro para as caixas frontais e um terceiro para as de efeito. Os volumes de cada um podem ser controlados distintamente. Assim, ao ouvir uma ópera, o fã que quiser mais destaque na voz do tenor aumenta o volume do canal central. Prefere ouvir a orquestra? Aumenta então as caixas frontais. Se quiser am-biência, ou os aplausos da platéia, aumenta as caixas de trás.

Esses amplificadores são capazes de criar, digitalmente, as atmosferas de vários ambientes sonoros. Por meio de recursos como o delay e câmaras de eco, é possível escolher, com o toque de botões, se o disco deve soar como se estivesse sendo tocado numa igreja, num estádio, sala de concerto e por aí afora, com as ressonâncias típicas de cada lugar. O ouvinte pode até se dar ao luxo de escolher a posição na platéia de um show. O truque é mudar o tempo do delay nas caixas de efeito do Surround, “sentando” então na primeira fileira, no meio ou na última cadeira. Com maior ou menor atraso nas caixas de efeito, tem-se a impressão de que as ondas refletiram no fundo da sala de concerto e retornaram ao ouvido. É isso que o aparelho tenta recriar — as mudanças de sensação da música conforme a distância a que o ouvinte está do palco. Assistindo-se a um show de rock em videolaser, parece que realmente tem alguém batendo palmas e assobiando na fileira de trás. Uma “mentirinha” digital.

Enquanto tratado digitalmente, no toca-discos a laser, o som está praticamente isento de perdas e distorções perceptíveis. É uma operação “limpa”. A partir do momento em que é convertido em impulsos elétricos, para movimentar os diafragmas dos alto-falantes e produzir as ondas sonoras, o processo vira analógico e perde-se o controle que existia no digital. Agora não há mais computadores nem previsibilidade. “Construir uma caixa acústica é um trabalho empírico, não há como fazer simulações. Os testes são feitos um a um, em cada componente, até o produto final”, explica Flávio Adami, diretor de desenvolvimento de produtos da Loudy, fábrica paulista das caixas na-cionais mais conceituadas do mercado.

Hoje, as caixas extrapolam a noção das três divisões básicas das freqüên-cias escutadas pelos ouvidos humanos — woofer para os sons graves, midrange para os médios, tweeter para os agudos. Já existem caixas de quatro vias, uma das quais destinada a graves profundos, assim como há o subwoofer, uma unidade separada só para as baixas freqüências. O subwoofer apareceu como resposta aos exíguos espaços da vida moderna. É que, para se obter fidelidade sonora em freqüências abaixo de 200 hz, a caixa precisa ter grande volume, espaço difícil em residências minúsculas. A solução é compactar as caixas, colocando só os médios e os agudos, separando os graves. Os mé-dios e agudos devem ficar à frente e na mesma altura das orelhas do ouvinte, pois dão a espacialidade do som.

Os graves, porém, mais do que audíveis, são sensíveis como um impacto. Pelo fato de ser uma onda sonora de grande comprimento, e por não conferir o caráter de espacialidade, o subwoofer pode ficar em qualquer lugar da sala, até embaixo do sofá. Os materiais que compõem as caixas também in-fluem na qualidade. Os cones dos alto-falantes, as peças que vibram em alta velocidade para produzir o som, eram feitos de papel, mas hoje existem modelos americanos feitos de fibra de carbono, já que se busca leveza e resistência. A brasileira Loudy substituiu a madeira da estrutura das caixas pelo aço. “O aço tem maior densidade e menos volume que a madeira, ocupando menos espaço e evitando ressonâncias”, conta Flávio Adami. A empresa também patenteou um sistema de revestimento interno das caixas com mantas de borracha, que amortecem as ressonân-cias das ondas médias e ampliam as baixas freqüências.

Esses equipamentos de alta qualidade tendem a se tornar cada vez mais acessíveis a um número maior de pessoas. “A tônica dos anos 90 será os consumidores investirem em salas domésticas de entretenimento, os chamados home theaters”, afirma Josias Cordeiro Júnior, que faz em seu estúdio projetos de engenharia acústica integrada à arquitetura de interiores. É possível que chegue também aos domínios domésticos o mais novo sistema para reproduzir efeitos e ambiência — o THX, desenvolvido pela produtora americana Lucas Film. O THX usa seis caixas acústicas, e é considerado um dos sistemas do futuro.

Para saber mais:

Rock, um show de tecnologia

(SUPER número 2, ano 5)

O melhor som do seu aparelho

Na sua casa, é possível ouvir um som razoável com qualquer equipamento estéreo, desde que se respeitem algumas regras. A primeira é posicionar-se corretamente diante das caixas, para obter a melhor imagem acústica: o ideal é ficar num dos vértices de um triângulo imaginário formado pelas duas caixas e você. As caixas acústicas não devem ficar no chão, e sim à mesma altura de sua cabeça. Enormes janelas ou portas de vidro na sala de audição provocam reflexões indesejáveis, que podem ser resolvidas com o uso de cortinas. Se o seu amplificador possui entrada para vídeo, não perca a chance de assistir a um filme com um nível bem melhor de som. Procure ter todos os componentes com grau semelhante de qualidade: de nada vale um bom toca-discos a laser sem boas caixas. O padrão de qualidade deve incluir até os cabos de conexão.

Os canais da música eletrônica

A reprodução eletrônica do som doméstico começou com aparelhos de apenas um canal para chegar aos equipamentos modernos, com quatro ou cinco caixas acústicas, capazes de simular na sala quase a mesma ambiência de concertos ao vivo:

* Na segunda década do século, época dos discos 78 rpm, o som era mono, saindo num só canal. Os instrumentos soavam um tanto embolados, sendo impossível, para o ouvinte,imaginar a posição dos músicos em palco ou estúdio.

* A partir da década de 70, com a estereofonia,torna-se possível recriar a sensação de distribuição espacial dos sons, através do sistema de dois canais distintos, na gravação e na reprodução. Com aparelhos transistorizados, surge o conceito de High-Fidelity, ou alta-fidelidade, inaugurando uma nova etapa de qualidade sonora

* Na década de 80, a do CD e videocassete, surgiu o Dolby Surround, com duas caixas à frente, para o sinal principal, e duas caixas de efeito atrás. Num filme, as caixas pequenas tocam efeitos especiais secundários. Na música, proporcionam ambiência

* Uma evolução do Surround é o Pro Logic, com cinco canais, ideal para filmes. Na caixa central vem o canal da voz, nas duas frontais estão a música e os efeitos sonoros principais, e nas duas caixas de trás vêm os efeitos secundários