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Terra à vista

A descoberta do primeiro planeta fora do sistema solarum mundo distante, que orbita uma estrela da categoria dos pulsares nas cercanias do centro da galáxiareacende a expectativa, tão cara à humanidade, de encontrar vida em outros mundos e pôr fim à sua solidão no Cosmo.

Flávio Dieguez

Senhoras e senhores, interrompemos nosso programa musical para transmitir um boletim extraordinário da Rádio Intercontinental. Informa o professor Farrel, do Observatório de Mount Jennings, em Chicago, que diversas explosões de gás incandescente ocorreram na superfície do planeta Marte.” Assim começou nos Estados Unidos, numa tranqüila noite de 1938, dia das bruxas (31 de outubro), um dos mais sensacionais programas de rádio já criados, em que o diretor Orson Welles simulou a invasão da Terra por conquistadores marcianos. Em poucos minutos, novos boletins fictícios-habilmente inseridos na programação normal — convenceram cerca de 6 milhões de ouvintes, em todo o país, que as alegadas explosões eram do motor de foguetes partindo para a guerra de conquista.Estima-se que 1 milhão de pessoas ficaram seriamente assustadas e muitos milhares entraram em completo pânico, gritando nas ruas, rezando ou procurando selar as casas contra os gases das armas invasoras. Um marco na arte do suspense, o programa de Welles não fez mais que explorar a grande expectativa que as pessoas alimentam de encontrar vida em outros mundos. 

Trata se de um sentimento milenar, que na Antiguidade o sábio Metrodorus, da ilha grega de Chios, expressou por meio de convincente comparação. “Parece impossível que numa grande lavoura cresça apenas uma touceira de trigo, e num Universo infinito exista apenas um mundo habitado.”O entusiasmo com a idéia, portanto, só poderia ter crescido quando um grupo de astrônomos ingleses anunciou, há alguns meses, a descoberta do primeiro planeta fora do sistema solar. Ele dificilmente abriga formas vivas, raciocinam os cientistas. Nem há certeza de que tal planeta realmente exista. Mesmo assim, a notícia merece toda a atenção que despertou, inclusive porque pode haver outros mundos em suas vizinhanças. Dez vezes mais pesado que a Terra, ele se encontra num dos mais improváveis lugares da galáxia, pois gira à volta de uma exótica estrela, uma vez e meia mais pesada que o Sol, mas 35 000 vezes menor. Isso significa que sua densidade é o que se chama um despropósito — tão alta que no interior do astro nem os átomos sobrevivem, e a matéria, por isso, está reduzida a duríssimos fragmentos do núcleo atômico, os nêutrons.

Daí vem o nome estrela de nêutrons, pelo qual é conhecido esse tipo de corpo celeste. E este, até onde se sabe, não pode ter um planeta por companheiro, por um simples motivo: para ter assumido a forma atual, a estrela deve ter passado, há cerca de 1 milhão de anos, por uma terrível explosão. O choque esmagou-lhe o cerne e mandou para o espaço, com violência apocalíptica, algo entre 75% e mais de 99% de suas camadas externas. Destino semelhante teriam os destroços dos planetas porventura existentes. Perplexidade é o termo que melhor descreve a reação dos cientistas. “Não consigo imaginar como o atual sistema chegou a se formar”, resume o astrofísico Roger Taylor, da Universidade de Sussex, Inglaterra. Mas o próprio Taylor é quem aponta uma revolucionária saída: alterar a teoria que explica a origem das estrelas de nêutrons e repensar as idéias vigentes sobre a formação dos planetas. Uma sugestão é que os planetas se formam com muito mais facilidade e são muito mais comuns do que se poderia pensar. Essa conclusão decorre do simples fato de se encontrar um deles em condições tão adversas.

Há duas possibilidades, analisa o astrônomo David Black, do Instituto Lunar e Planetário, em Houston, Estados Unidos. A primeira: o planeta já existia antes da explosão, quando a estrela-mãe ainda tinha dezenas de vezes mais massa que o Sol (ela pode ter sido de 6 a 60 vezes mais pesada). Nesse caso, o planeta sobreviveria apenas se a estrela explodisse em câmara lenta. Isto é, se em vez de se despedaçar num único lance, ela passasse por uma série de pequenas explosões, mecanismo nunca imaginado anteriormente. “Se esse processo funcionar, será uma revolução teórica”, diz Black. A segunda hipótese prevê que o planeta se formou a partir dos restos mortais da estrela-mãe, reagrupados em torno da estrela de nêutrons por ação da gravidade. É assim que se explica a origem do sistema solar, pois o Sol e seus planetas quase certamente foram fabricados com matéria-prima ejetada da barriga de outras estrelas. A diferença crucial é que não se esperava a pronta recuperação da matéria-prima pela própria estrela que a ejetou, especialmente por uma estrela de nêutrons.Enfim, sempre existe a possibilidade de que a descoberta não se confirme, embora existam diversos fatores em seu favor. 

O mais forte deles é que se trata de uma conclusão amadurecida ao longo de quase quatro anos por uma equipe de três astrônomos da Universidade de Manchester, Inglaterra. Chefiada por Andrew Lyne, a equipe dedicava-se ao estudo de um grupo de quarenta estrelas da categoria dos pulsares. Como todas as outras estrelas, entre muitas outras formas de radiação, os pulsares emitem ondas de rádio, mas não de maneira continua. Seus sinais são intermitentes, como uma lanterna que se liga e desliga sucessivas vezes (o nome pulsar não é, necessariamente, sinônimo de estrela de nêutrons, mas acredita-se que são o mesmo tipo de astro).Logo no início do trabalho, os ingleses perceberam que uma estranha arritmia perturbava o sinal de um dos pulsares, fazendo-o piscar mais rapidamente, em certos períodos, e mais devagar, em outros. Embora a variação fosse muito pequena—de apenas 8 milésimos de segundo—, ela contrariava a incrível regularidade apresentada por centenas de pulsares conhecidos.Assim, depois de eliminar inúmeras outras possibilidades menos radicais, a equipe foi praticamente forçada a aceitar a idéia final: a de que um planeta estava sacudindo a estrela, por meio da atração gravitacional, e alterando seus pulsos de rádio. Lyne afirma que está analisando outras oscilações nos pulsos, um pouco mais fracas, possivelmente causadas pelos puxões gravitacionais de outros planetas.

A ousadia dessa proposta não impediu que ela fosse bem recebida pela comunidade científica. Pelo menos dois cientistas—David Helfand e Thomas Hamilton, da Universidade Columbia, Estados Unidos—apresentaram uma explicação alternativa. Eles crêem que uma possível nuvem de gases eletrificados, interposta entre a estrela e a Terra, poderia distorcer os sinais da maneira que se observa.

Mas é provável que, daqui para a frente, inúmeros outros cientistas integrem-se na difícil tarefa de comprovar ou não a existência de um planeta junto ao PSR 1829-10. A resposta definitiva, é claro, interessa de maneira especial àqueles que acreditam na possibilidade de vida em outros mundos. O novo planeta, por si só, não oferece grandes esperanças, pois o tempo de 1 milhão de anos, decorrido desde o seu nascimento, é muito curto para que alguma forma viva se desenvolvesse. Além disso, ele se encontra num local particularmente violento da galáxia, bem perto do seu coração. Nada disso reduz o entusiasmo, pois quanto maior for o número de planetas no Universo, tanto maior será a chance de haver vida fora da Terra e mais fácil sua busca.

 

 

 

 

Para saber mais:

Existem outros sistemas planetários?

(SUPER número 0, ano 1)

 

 

 

 

Ficha do planeta

Situada na direção da Constelação de Sagitário, a estrela PSR 1829-10 tem 20 quilômetros de raio e 1,4 vezes mais massa que o Sol, valor característico dos astros do seu tipo, os pulsares. Sua distância da Terra é de aproximadamente 30 000 anos luz (os ano luz mede cerca de 10 trilhões de quilômetros). O planeta recém-anunciado, dez vezes mais pesado que a Terra, gira a volta do pulsar a 100 milhões de quilômetros, dois terços da distância entre a Terra e o Sol e a mesma distância de Vênus ao Sol.

 

 

 

 

Balé orbital

O acaso levou os cientistas a deduzir que existe um planeta ligado pela ação da gravidade ao pulsar PSR 1829-10. Embora tenha um brilho muito fraco, esse pulsar emite, a cada segundo, três sinais bem claros de rádio. O intervalo entre os sinais deveria ser constante, mas não é. Durante seis meses, ele fica 8 milésimos de segundo mais curto. O motivo é que o planeta, enquanto gira, puxa o pulsar para perto e para longe da Terra – a distância é mínima, mas o suficiente para explicar a pequena diferença no tempo que o sinal leva para chegar à Terra.

 

 

 

 

Caçadores de mundos

Coletar dados para compreender melhor o sistema solar—por isso se procuram planetas em outras estrelas, diz o astrônomo americano David Black. “Esta é uma das prioridades da década. Queremos saber, por exemplo, que tipo de estrelas contêm planetas”, Mas antes disso deve-se assegurar que eles existem e há poucas evidências. Além do planeta récem anunciado, ainda por confirmar, há sinais de que um pequeno objeto circunda a estrela HD114762, de tipo solar, e imagina-se que um anel de poeira junto à estrela Vega, na Constelação de Lira, pode ser a matéria-prima de planetas prestes a formar-se.