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O perigo dos economistas que tentam reinventar a roda

Às portas da crise de 2008, a inflação do dólar estava em 5,5% – idêntica à inflação do real nos últimos 12 meses.

Esses 5,5% eram um pico histórico. Para combater a elevação do índice, que tinha começado no final dos anos 90, o Fed (BC dos EUA) vinha aumentando a taxa de juros paulatinamente – juros mais altos diminuem o consumo, a quantidade de moeda em circulação baixa, e os preços caem junto.

Mas não adiantava, porque o que criava inflação era algo fora do controle do Fed: uma bolha sem precedentes nos preços dos imóveis. O preço das casas subia, então os bancos recompravam casas financiadas por eles mesmos para vender depois, na esperança de que os preços subissem mais. Essas recompras inflavam a demanda. Então os preços de fato subiam, e os bancos compravam mais ainda. Bolha, que enchia a praça de dinheiro novo, bombando a inflação, e que estourou em 2008, numa corrente de falências bancárias.

Nas ruas, o que sobrou foi uma população endividada – tendo de pagar US$ 500 mil pelo resto da vida por imóveis que, em condições normais de pressão, valiam US$ 200 mil. Essas dívidas circulavam na forma de títulos de investimento por todo o sistema bancário do mundo desenvolvido. Veio a inadimplência, naturalmente, e os títulos viraram lixo. Como boa parte dos bancos mundo afora colocava o próprio dinheiro nesses títulos, a quebradeira foi global.

O mundo só não entrou numa nova Grande Depressão, igual a dos anos 30, porque os governos foram rápidos: além de imprimir toneladas de dinheiro para dar aos bancos a fundo perdido, baixaram a taxa de juros para zero (às vezes abaixo de zero), de modo a estimular o consumo, e manter os empregos de quem produz bens e serviços (todo mundo, já que até o carimbador do cartório produz um “serviço”).

Juro zero, porém, não faz a mágica do dia para a noite. Já se vão quase dez anos de juro quase negativo, e as taxas de crescimento seguem tímidas no mundo desenvolvido (fenômeno que tem elegido líderes populistas – a começar por dois dos países mais afetados pela crise de 2008 – EUA e Reino Unido).

Além de eleger populistas, o crescimento pífio mantém a inflação baixa mesmo com juro zero.

Alguns economistas, porém, acham que não. Que a inflação está baixa POR CAUSA do juro zero. Foi o que escreveu André Lara Rezende, num artigo que vem repercutindo desde janeiro.

Ao dizer que a quantidade de moeda no mercado não causa inflação, André tenta provar a quadratura do círculo. Sim, a quantidade de moeda em circulação nos países desenvolvidos aumentou dezenas de vezes, sem efeito na inflação. Mas o que manteve a inflação baixa foi outro fator: a ressaca da maior bolha da história – uma ressaca persistente, ainda sem data para acabar.

O perigo desse tipo de análise é considerar que juros são só um empecilho para o crescimento, e mais nada. Logo, têm de cair para perto de zero e pronto. Bom, o Brasil teve uma experiência recente com queda forçada de juros, no governo Dilma 1. A taxa real em 2013 caiu para 2% (7% de Selic menos 5% de inflação).

Depois de 20 meses, veio o resultado: inflação de dois dígitos.

Do começo de 2016 para cá, a recessão está puxando a inflação para baixo, igual aconteceu no mundo desenvolvido. E o momento, naturalmente, é de cortes nos juros. Juros que podem até tender a zero num futuro próximo, e sem afetar a inflação.

Quando isso acontecer, mais economistas vão dizer que inflação e quantidade de moeda circulando na economia (a coisa que o juro baixo aumenta) são dois fatores sem relação alguma.

Bom, como eu defendi aqui, a relação entre quantidade de moeda em circulação e inflação é a mesma de quantidade de vodka em circulação no seu corpo e o tamanho da ressaca.

Espero, então, que esses economistas não apliquem em suas vidas sociais a lógica que imaginam funcionar para a economia, porque, se sim, seus fígados estão pela hora da morte.

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