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Por que os seres humanos gostam tanto de ficar de porre?

Pergunte aos primatas

Um macaco guariba sobe 10 metros em uma palmeira para um banquete de pequenos frutos. Correndo o risco de queda ou de se cortar em espinhos, ele pula entre os galhos como se fosse um jovem embriagado. E, de fato, pode ser esse o caso. O pesquisador americano Dustin Stephens, que viu essa cena numa floresta panamenha, analisou as sobras da refeição do guariba e acredita que, sim, o bicho estava mesmo de porre. Somando o álcool presente nas frutinhas, ele teria consumido o equivalente humano a 7 latas de cerveja. A história deu força a uma teoria mais antiga, a “hipótese do macaco bêbado”, do seu colega Robert Dudley, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ela diz que a atração pelo álcool conferiu a nossos ancestrais, 40 milhões de anos atrás, uma vantagem na competição por frutas maduras, base da dieta dos primatas desde aquela época até hoje. O calor e a umidade dos trópicos, onde os humanos evoluíram, causam uma fermentação na casca e na polpa. Os açúcares são convertidos em várias formas de álcool, sendo que a mais comum é o etanol – presente em todas as bebidas alcoólicas. O vapor se dispersa no vento e é um ótimo sinal de que a fruta está madura. Para nossos ancestrais, seguir o cheiro de etanol ajudaria a encontrar frutos mais nutritivos. A seleção natural teria então favorecido os primatas com gosto pelo álcool – um traço que teria permanecido mesmo quando os humanos mudaram de dieta.

A teoria, no entanto, não está comprovada: a tendência ao alcoolismo pode ter evoluído por algum outro motivo ou até mesmo por acaso. Mas, segundo Dudley e Stephens, a prova está nos nossos genes. Temos várias enzimas feitas só para digerir o etanol, que dificilmente existiriam caso não representassem uma vantagem evolutiva. Eles dizem que, em pequenas quantidades, o álcool pode ser benéfico. Ele só teria se tornado um problema a partir da Idade Média, quando começamos a produzir destilados com alto teor alcoólico. O alcoolismo seria, assim, uma doença de excesso nutricional, causada pela disparidade de oferta de alimento entre os ambientes pré-histórico e contemporâneo – assim como a obesidade, fruto do encontro entre nossa voracidade por comida e a abundância de calorias hoje à disposição. Mas para os macacos, o álcool era apenas sinal de uma boa refeição.