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Temos este direito?

A fronteira tênue entre ciência e crueldade na rotina dos laboratórios esquenta no mundo todo o debate sobre a vivisecção.

Rodrigo Vergara

Os alunos que ingressaram este ano no curso de medicina da Universidade de São Paulo (USP) verão menos sangue que seus veteranos durante a estada na faculdade. Pela primeira vez, a universidade vai abolir o sacrifício de cães em aulas sobre “o efeito de drogas na função cardiorrespiratória”. Nessa disciplina, os estudantes testemunham os efeitos de várias substâncias sobre os batimentos cardíacos e a freqüência respiratória. Agora, em vez de verem essas reações no tórax aberto de um animal anestesiado, que depois será morto, os alunos aprenderão com uma simulação em computador. Mudança semelhante ocorreu há um ano nas aulas de técnica cirúrgica na USP. Em vez de treinar sutura em coelhos, que depois eram sacrificados, os alunos passaram a “costurar” cães e gatos mortos naturalmente. As duas mudanças, ao que tudo indica, são definitivas.

Elas fazem parte de um movimento mundial de combate ao uso de animais em laboratórios, não só no ensino, mas também na pesquisa biomédica e para testar artigos de limpeza e cosméticos.

As mudanças são incontáveis e quase diárias mundo afora: de fabricantes de cosméticos que anunciam que não vão mais testar seus produtos em coelhos a governos que aprovam leis mais restritivas aos testes. No final do ano passado, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países desenvolvidos, anunciou sua intenção de abolir o DL50, um teste de toxicidade em que 20 ratos recebem doses crescentes da substância testada até dez deles morrerem. A decisão significa que produtos testados com o DL50 serão barrados nesses países. Em tempo: as alternativas para o DL50 usam, no máximo, nove animais. Ou seja: o sacrifício animal diminui, mas continua existindo.

Segundo Alan Goldberg, diretor do Centro de Alternativas para Testes em Animais da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, tido como uma autoridade no assunto, “desde 1976 o uso de animais usados em pesquisa biomédica caiu 15% no mundo todo”. Ainda assim, estima-se que a ciência sacrifique 40 milhões de animais no mundo por ano.

Para muita gente, no entanto, a redução está longe de resolver a questão. O problema é: podemos utilizar os animais para pesquisa? Os grupos de proteção dos direitos dos animais vêem na pesquisa com cobaias, conhecida como vivissecção – que significa “cortar vivo” –, dois enormes calcanhares-de-aquiles: o primeiro é que os testes seriam inúteis. Depois, mesmo que eles fossem úteis ou, mais que isso, vitais, ainda assim não teríamos o direito de fazê-los.

O principal argumento antivivissecção, que prega sua absoluta inutilidade, está expresso nas palavras do médico inglês Robert Sharpe, autor de Science on Trial (Ciência em julgamento, inédito no Brasil): “Homens e animais têm organismos e reações bioquímicas diferentes. Se um estudo com hamsters achar a cura do câncer, ela servirá só para curar o câncer em hamsters”. O efeito carcinogênico do cigarro é um caso clássico. Embora amplamente atestada por estudos epidemiológicos, a ligação entre câncer e tabaco seguiu sob suspeita por vários anos porque a doença não pôde ser reproduzida em animais. Por muito tempo, a indústria tabagista aproveitou o fato para negar o teor tóxico do seu produto.

“O uso de animais em laboratório é um recurso retórico. Usando diferentes espécies em projetos diferentes, os pesquisadores podem encontrar evidências que sustentam qualquer teoria”, diz Neal Barnard, presidente do Comitê Médico por uma Medicina Responsável, dos Estados Unidos. “No caso do cigarro, tanto as provas de que o tabaco é cancerígeno quanto as que asseguram sua inocência usaram animais como base.”

A crítica à suposta inutilidade dos testes em animais se estende às pesquisas de novas drogas. Apesar do enorme número de cobaias sacrificadas para testar a eficácia e os efeitos colaterais de novas substâncias, 95% dos fármacos aprovados em animais acabam descartados nos testes em voluntários humanos e não chegam ao mercado. Uma revisão realizada pelo governo americano nas drogas lançadas entre 1976 e 1985 revelou que 51,5% delas ofereciam riscos não previstos nos testes.

Vale também o raciocínio inverso: ao testar substâncias em animais, os cientistas poderiam descartar drogas promissoras para humanos só porque elas causaram mal a ratos ou porcos. A aspirina, por exemplo, causa deformidades nas crias de roedores, cães, gatos e macacos, embora para nós seja segura. Já a penicilina é fatal para o porquinho-da-índia.

A tese que valida a vivissecção surgiu no século XIX, quando o médico francês Claude Bernard começou a teorizar sobre a lógica científica do uso de cobaias. Ele defendia que todo conhecimento obtido em animais era válido para humanos. Hoje, poucos cientistas, mesmo os que se utilizam de vivissecção, sustentariam sua tese nua e crua. Mas a maioria crê que as diferenças entre humanos e não-humanos são superáveis. “Animais e homens são mais semelhantes que diferentes”, diz Marco Aurélio Amorim, coordenador da comissão de ética no uso de animais em laboratório da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Maria Helena Catelli de Carvalho, professora do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, concorda: “O projeto genoma mostrou que somos muito parecidos com ratos e camundongos”. E Alan Goldberg, do Johns Hopkins, completa: “Diferimos nos detalhes, mas somos parecidos o suficiente com animais para permitir paralelos.

Tomemos o caso da insulina, responsável por controlar o nível de açúcar no sangue. Ela cumpre essa função em várias espécies, além do homem”. Goldberg continua: “Em um animal, a insulina pode ser levemente diferente da insulina humana, mas é a mesma substância e tem as mesmas propriedades”.

O segundo round dessa disputa, ainda sobre a utilidade da vivissecção, diz respeito às conquistas da pesquisa biomédica, como vacinas e antibióticos. De acordo com a organização americana Fundação para a Pesquisa Médica, a evolução da expectativa de vida, que saltou de 47 anos, em 1900, para 75 anos, em 1985, nos Estados Unidos, deve-se a pesquisas com animais. Ou seja, os milhões de animais sacrificados salvaram milhões de vidas humanas. “O médico inglês William Harvey não teria feito suas famosas descobertas sobre a circulação do sangue em 1628 se não fosse por suas experiências com cervos ”, escreve Deborah Rudacille em seu livro The Scalpel and the Butterfly (O bisturi e a borboleta, inédito no Brasil), sobre a história da vivissecção. E novas descobertas ocorrem a cada dia. Em Boston, vítimas de derrame recuperaram-se graças a injeções de células de feto de porco.

Os antivivisseccionistas acham esses resultados insuficientes para justificar o sacrifício de milhões de animais. Primeiro, eles duvidam do papel de vacinas, antibióticos e hipertensivos na evolução da saúde humana. Além disso, sustentam que a medicina tem muito menos bala na agulha para combater as doenças do que seus propagandistas querem fazer crer. Ou seja: os benefícios humanos, se existem, não compensam os custos animais.

Estudos realizados na Europa e nos Estados Unidos indicam que 90% dos fatores que determinariam a longevidade de uma pessoa devem-se ao estilo de vida, ao meio ambiente e à hereditariedade. Só 10% dependeriam da assistência médica (leia mais sobre isso em “A medicina doente”, capa da edição de maio da SUPER). Mas órgãos do governo americano que financiam pesquisas gastam em estudos com animais – ou seja, voltadas para o modelo biomédico – o dobro do que despendem em pesquisas em humanos.

Nessa guerra de argumentos, os antivivisseccionistas marcaram pontos importantes. Com publicidade agressiva, divulgaram imagens dos bichos estripados e atingiram a comunidade científica. Pesquisa realizada nos Estados Unidos por Scott Plous, da Wesleyan University, Connecticut, revelou que psicólogos graduados nos anos 90 têm metade da disposição em apoiar pesquisa com animais do que os titulados nos anos 70. Empresas com nomes associados à crueldade aboliram o teste de animais, temendo boicote dos consumidores. Muitas delas, após porem fim ao uso de cobaias, aproveitaram o fato como arma de marketing e adotaram um selo em seus produtos indicando que aboliram a vivissecção.

A mudança no mundo da ciência e das empresas acabou forjando um novo modelo para testes, hoje prevalente, que reconhece o sofrimento dos animais e se propõe a substituí-los por técnicas alternativas. Mas há ressalvas. Nos casos em que o bicho for considerado imprescindível, o máximo de alinhamento ético por parte dos cientistas é reduzir ao mínimo possível o sofrimento e a quantidade de cobaias.

Na esteira do novo modelo experimental, os métodos alternativos multiplicaram-se. Há hoje desde pele artificial a simulações de computador (leia quadro com exemplos nesta página). As ONGs que defendem o direito dos animais à vida sustentam que esses métodos podem substituir rigorosamente todos os testes com bichos.

A vitória dos ativistas, curiosamente, acabou resultando em ganhos de precisão e eficácia para a ciência. A redução do estresse e a padronização das condições do cativeiro reduziram o número de mortes de cobaias. E pesquisas recentes revelaram que barulho, manuseio, higiene e superlotação nos biotérios influenciam diretamente os resultados. “As cobras do Butantã passaram a produzir sete vezes mais veneno e a viver oito anos, em vez de um, depois que a coleta de veneno passou a ser feita com as serpentes anestesiadas”, diz Roberto Sogayar, do Instituto de Biociências da Unesp, em Botucatu, e ex-presidente da Comissão de Ética e Legislação do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal.

Muitos pesquisadores discordam frontalmente. “Os testes in vitro são úteis, mas continuam pobres perto da acurácia que há nos testes em organismos vivos”, diz a professora Zuleica Bruno Fortes, do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. “Além disso, certas substâncias só podem ser estudadas em um organismo vivo. Quando o animal morre, elas desaparecem. São procedimentos para os quais a vivissecção é imprescindível.” Sheila Moura, da Sociedade Fala Bicho, acredita que essa resistência esconde um dogma. “Muitos cientistas reconhecem que existem substitutos para os animais, mas ainda assim usam as cobaias por medo de que seu estudo seja questionado por não usar o método tradicional. Essa mentalidade precisa mudar.”

O segundo grande argumento antivivissecção é que não interessa se o uso de animais ajuda ou não a ciência: nós simplesmente não temos o direito de sacrificá-los. “A questão é moral. Se há um dilema em usar animais, então temos de buscar alternativas. Mas, se os usamos sob o argumento de que não há alternativas, então nunca vamos encontrá-las”, diz Rita Leal Paixão, professora do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal Fluminense, pesquisadora de ética aplicada e bioética da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Alguns exemplos corroboram suas palavras. Na Inglaterra, a proibição de usar animais para praticar microcirurgia levou à adoção de técnicas que usam placenta humana. Para o filósofo australiano Peter Singer, autor de Animal Liberation (Liberação dos animais, inédito no Brasil), um clássico sobre o assunto, há, sim, um problema ético em usar qualquer ser capaz de sentir dor.

A classificação dos seres em humanos e não-humanos, para Singer, configura “especismo”, uma discriminação que equivaleria ao racismo. “Há animais cujas vidas, por quaisquer critérios, são mais valiosos que as vidas de alguns seres humanos. Um chimpanzé ou um porco tem um grau mais alto de autoconsciência e uma maior capacidade de relações significativas do que uma criança com uma doença mental séria”, diz Singer. Ou seja: quem admite cortar um macaco em nome da ciência teria que admitir também cortar uma criança com paralisia cerebral, por exemplo. “Um dia, a experimentação animal será considerada tão absurda como hoje nos é a idéia do holocausto, da escravidão, da inquisição”, diz Sheila Moura, da Sociedade Fala Bicho. É ver para crer.

 

rvergara@abril.com.br

 

Para saber mais

Na livraria:

The Scalpel and the Butterfly, Deborah Rudacille, FSG, 2000

Animal Liberation, Peter Singer, Avon Books, 1999

A Verdadeira Face da Experimentação Animal, Sergio Greif e Thales Tréz, Sociedade Fala Bicho, 2000

 

Na internet

http://www.navs.org

http://www.fbresearch.org

Apagão para testes com animais

Por Irvênia L. S. Prada

Conta-se que Pasteur teria pretendido testar suas vacinas em presidiários brasileiros. Se verídico o fato, qual o empecilho? A ética! A consideração de valores.

E quanto aos animais? É inegável que a sua utilização, na ciência, a partir da segunda metade do século XIX, possibilitou grandes avanços. Mas a que preço!

Nossa consciência reverbera a pergunta se, mesmo na contingência de buscar alívio para as dores ou cura para as doenças humanas, é válido o sacrifício de milhares de vidas de animais e os sofrimentos a que são submetidos.

Deve-se ao triunvirato Magendie, Claude Bernard e Pasteur a idéia de que a experimentação com animais é imprescindível. Entretanto, eficientes métodos substitutivos ao seu uso são agora conhecidos (cultura de células e de tecidos, modelos matemáticos, simuladores etc.), com a vantagem do descarte da prática da tortura, para alívio da nossa responsabilidade perante a vida.

A alforria desses pobres seres é uma opção mais condizente com a dignidade que pretendemos merecer, como seres humanos. Eu também já estive inserida nesse contexto que induz todos a serem “frios”. Hoje não quero mais assistir passivamente ao triste espetáculo em que macacos, cães, gatos, cobaias, ratos e camundongos são inoculados com toda sorte de vírus e bactérias, sofrem trepanações, intoxicações experimentais, queimaduras, tomam choques, têm suas medulas e cérebros seccionados e são submetidos a todas as formas de estresse e de deformidades.

A questão não é científica, é ética.

Há coisas que são admissíveis. Há outras que não são.

“Apagão” nas pesquisas com animais? Que venha!

Será a oportunidade de acenderem-se as luzes de muitas consciências!

 

Irvênia L. S. Prada foi professora da Faculdade de Veterinária da USP

A volta à obscuridade

Por Roberto Sogayar

Os animais trouxeram um grande avanço à biomedicina. No século XX, 75% dos prêmios Nobel de medicina foram obtidos usando-se animais. Essa metodologia científica permitiu inclusive a criação de métodos alternativos. Mas daí a abolir o uso de animais vai uma grande diferença. Vejamos o cenário de um mundo sem animais na ciência.

Primeiro exemplo: vacinas. Nesse caso, seriam abolidas as vacinas que já são utilizadas, pois para testar cada lote de vacina recorre-se a animais. Em 1985, quando o Rotary International lançou a campanha Polioplus, para erradicar a doença no mundo, houve mais de três milhões de novos casos de pólio. No ano passado, foram menos de 1 000 casos. Imaginem isso de volta. Talvez no futuro descubram vacinas que não usem animais, mas, até lá, muita morte ocorrerá. Hoje, os cosméticos já não são testados em animais em muitos países, o que é um grande avanço.

Segundo exemplo: pesquisa. Muitos ramos de pesquisa usam métodos alternativos. Mas esses experimentos servem para a observação parcial de um fenômeno. Quando é preciso verificar o efeito no todo, é indispensável o animal. Pode-se testar in vitro o efeito de uma droga sobre uma célula, mas, quando essa droga é injetada no organismo, será transformada, no fígado, em outro composto, que pode ser nocivo. Temos o direito de ministrar uma droga à população sem controle prévio?

Terceiro exemplo: ensino. É o campo com o maior potencial para substituição do animal.

Conclusão: o animal foi introduzido na experimentação para testar hipóteses. Não somos contra sua substituição, desde que seja possível seguir aumentando o conhecimento com o rigor do método científico, pois, sem este, voltaríamos ao tempo da obscuridade, das epidemias.

 

Roberto Sogayar é médico, professor da Unesp e pesquisa ética médica

As experiências feitas com animais

Como são e para que servem as pesquisas biomédicas feitas com animais vivos

TIPO – Toxicidade

COMO É – Cobaias recebem doses variadas de um composto até que um percentual delas morra

OBJETIVO – Determinar o efeito tóxico do químico na saúde e na mortalidade naquela espécie.

ALTERNATIVAS – Culturas in vitro de bactérias, leveduras, células, tecidos e órgãos humanos.

 

TIPO – Toxicidade reprodutiva

COMO É – Animais são submetidos a radiação, químicos ou condições ambientais diversas

OBJETIVO – Determinar efeitos dessas condições na fertilidade e na fecundidade

ALTERNATIVAS – Culturas de tecidos envolvidos na reprodução Toxicidade no desenvolvimento

 

TIPO – Toxidade no desenvolvimento.

COMO É – Fêmeas grávidas são submetidas a tratamentos diversos

OBJETIVO – Avaliar os efeitos de compostos no embrião, no feto e no recém-nascido

ALTERNATIVAS – Culturas de células, embriões humanos em via de serem descartados e placenta.

 

TIPO – Irritação ocular e de pele.

COMO É – Cientistas pingam químicos no olho ou na pele da cobaia, ao longo de vários dias.

OBJETIVO – Medir a capacidade de um químico de inflamar ou irritar os olhos ou a pele

ALTERNATIVAS – Córneas de animais mortos, culturas de células da córnea ou da pele.

 

TIPO – Toxicocinético.

COMO É – Cientistas forçam o animal a ingerir uma substância química

OBJETIVO – Avaliar como a substância é absorvida, distribuída, metabolizada e excretada.

ALTERNATIVAS – Modelos matemáticos acompanhados de testes in vitro

 

TIPO – Comportamentais

COMO É – O cientista aplica uma substância no animal e observa seu comportamento.

OBJETIVO – Monitorar os efeitos de um composto no comportamento em várias situações

ALTERNATIVAS – Estudos epidemiológicos e clínicos em humanos.