Morte: A um passo do fim do tunel

Muita gente que esteve inconsciente e à beira da morte tem lembranças desse momento, o mais impressionante são os pontos em comum nos diferentes relatos, como a sensação de paz enquanto se atravessa um túnel

por Maurício Oliveira

Ao final de uma cirurgia de emergência para estancar um sangramento cerebral que a deixou à beira da morte, há três anos, a atriz Sharon Stone relatou aos médicos e enfermeiras as sensações perturbadoras que lembrava do período de inconsciência. Disse ter atravessado rapidamente uma espécie de túnel e mergulhado em uma forte luz branca que transmitia uma sensação de paz e serenidade. Contou também que pressentiu a companhia de seus parentes e amigos mortos, prontos para recebê-la do “outro lado”. De repente, contudo, ela fez o caminho de volta e acordou.

O testemunho da estrela de Instinto Selvagem coincide com o de muitas outras pessoas que passaram pelas chamadas Experiências de Quase-Morte (EQMs), um assunto que tem sido investigado com seriedade pela comunidade científica. O que mais impressiona é a similaridade das descrições sobre o que acontece com quem chega muito perto da fronteira. A sensação de paz e contentamento, a impressão de que se está saindo do corpo, a passagem em alta velocidade por um túnel escuro, o vislumbre de uma luz brilhante e, finalmente, o mergulho nessa luz são as cinco etapas “clássicas” de uma EQM, segundo os estudiosos do assunto. Foi exatamente o que se passou com Sharon Stone, que afirma jamais ter se interessado pelo tema até então.

Os relatos de EQMs incluem outras sensações, como um zumbido forte ou então uma música celestial, diferente de tudo o que os instrumentos que conhecemos são capazes de produzir. Aquele “cineminha” com os melhores momentos da vida é outra ocorrência freqüente. Também é comum encontrar quem diz ter visto a si próprio deitado na mesa de cirurgia ou em meio às ferragens de um carro e ouvido os comentários das pessoas ao redor.

Esse tipo de visão é sempre “aérea”, como se a pessoa se descolasse do corpo e flutuasse no ar. Ao deparar com a intensa luz brilhante, há quem diz ter identificado vultos de anjos ou de pessoas queridas que já morreram – algumas pessoas dizem ter até conversado com elas.

Não são raros os casos de quem relata encontros com celebridades. Elvis Presley é o campeão de aparições nessas circunstâncias. Vê-lo é tão comum que um pesquisador do assunto, Raymond Moody, escreveu um livro inteiro com histórias de encontros com o rei do rock durante EQMs. Em outro livro, Transformados pela Luz (Record/Nova Era, 1997), o médico Melvin Morse registrou o depoimento de uma professora que afirma ter encontrado Elvis, a quem havia visto de perto quando criança. “Ele saiu de um lugar com intensa luz, aproximou-se, pegou minha mão e disse: ‘Oi, lembra-se de mim?’”, descreveu a professora.

Não é uma experiência tão incomum quanto parece. A Associação Internacional para Estudos de Quase-Morte (Iands, sua sigla em inglês) estima que 13 milhões dos americanos vivos se lembram de ter passado por algo do gênero, o que corresponderia a 4,5% da população do país. Projetando o mesmo percentual para a população mundial, seriam 270 milhões de pessoas. O propósito da associação é oferecer apoio a quem passa por uma EQM. “Pode ter certeza de que você não está sozinho nem louco, porque milhões de pessoas passam pela mesma situação”, afirma o editorial do site da associação (www.iands.org).

Enquanto muita gente considera as EQMs provas de que há vida depois da morte, a ciência busca explicações racionais para o fenômeno. A mais preguiçosa é a de que tudo não passa de imaginação. E por que os depoimentos seriam tão parecidos uns com os outros? De tanto ouvir falar sobre esse tipo de experiência – freqüentemente retratada no cinema, por exemplo –, as pessoas seriam influenciadas a sentir algo parecido em situações semelhantes. É o princípio da contaminação, o mesmo que levaria as pessoas a se imaginarem em outras vidas durante sessões de regressão, por exemplo.

Ensaio para a morte?

Há pesquisadores, no entanto, que escapam das respostas fáceis e preferem partir do princípio de que as pessoas realmente vivenciam o que descrevem. Para esses, uma hipótese é de que tudo faça parte da programação do cérebro para enfrentar o momento da morte, tornando-o menos difícil e doloroso. A sensação de paz, por exemplo, seria resultado da liberação excessiva de endomorfinas diante de uma situação de muito estresse.

O mais importante estudo feito até hoje sobre EQMs estendeu-se por 13 anos, até a divulgação, em 2001, na prestigiosa revista médica britânica The Lancet. Pesquisadores liderados pelo cardiologista holandês Pim van Lommel entrevistaram 344 pacientes de dez diferentes hospitais da Holanda que, “ressuscitados” após paradas cardíacas, haviam passado por EQMs. Todos tinham em comum o fato de, por alguns minutos – quatro, em média –, terem sido considerados clinicamente mortos. A primeira entrevista foi feita logo que os pacientes recobraram os sentidos – 18% deles disseram ter alguma memória do período de inconsciência e 12% relataram ter passado claramente por pelo menos um dos estágios clássicos de uma EQM.

O acompanhamento dos pacientes revelou que sobreviver a uma EQM leva a pessoa a mudar radicalmente o comportamento e a forma de encarar a vida. Os entrevistados dizem não ter mais medo da morte e passaram a valorizar as pequenas coisas do cotidiano. Demonstram, também, maior preocupação com os outros e o interesse em desenvolver a espiritualidade. No caso de Sharon Stone, a EQM a levou de volta ao cinema, do qual havia se afastado por um tempo por se sentir desmotivada. Exuberante aos 46 anos, a atriz fez recentemente grande sucesso como a vilã do filme Mulher-Gato.

Ao cruzarem as informações em busca de dados adicionais sobre as EQMs, os pesquisadores holandeses chegaram a uma constatação aterradora: metade dos pacientes que relataram a experiência morreu (de verdade) ao longo do mês seguinte ao episódio, percentual que, no outro grupo, não chegou a 10%. Uma explicação científica é de que as EQMs seriam um sinal de que o cérebro não conseguiu sair ileso da ameaça de morte – ou seja, ele se “considerou” morto e acabou levando consigo o resto do corpo. Já a explicação preferida por quem acredita em vida após a morte é que essas pessoas estiveram de fato do outro lado e foram trazidas de volta por recursos criados pelo homem, como o uso de desfribiladores. Com o destino já selado, elas simplesmente aguardaram o próximo bonde.

 

Mais uma chance

Vários nomes famosos de Hollywood afirmam ter passado por uma experiência de quase-morte

A atriz Jane Seymour, par romântico de Christopher Reeves no filme Em Algum Lugar do Passado, quase morreu aos 36 anos, durante uma crise alérgica provocada por uma injeção de penicilina. “Deixei meu corpo e pude ver a mim mesma na cama, com as pessoas ao redor tentando me ressuscitar. Era como se eu estivesse flutuando. A única coisa que conseguia pensar é que eu não queria morrer, não estava pronta para deixar meus filhos”, descreveu a atriz.

O ator Donald Sutherland teve sua EQM em 1979, quando contraiu meningite. “ Eu estava flutuando sobre meu corpo, cercado por uma luz azul-clara. Comecei a percorrer um longo túnel, longe da cama... Mas de repente estava de volta ao meu corpo. Os médicos me contaram depois que eu realmente estive morto por algum tempo”, disse Sutherland.

Elizabeth Taylor contou sua experiência no talk show de Larry King. Em 1959, durante os cinco minutos em que foi considerada morta em uma mesa de cirurgia, ela teria se encontrado como espírito de Michael Todd, seu terceiro marido, morto em um acidente de avião no ano anterior. No breve encontro, ele teria lhe dito para voltar e cumprir a missão que lhe restava. Com receio de não ser levada a sério, Elizabeth não tocou no assunto durante décadas, até se envolver na luta contra a Aids e decidir usar a história para confortar pacientes terminais.

 

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