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Aprenda a hackear uma cidade

O pesquisador holandês Martijn de Waal fala sobre como podemos mudar as cidades usando tecnologia

Imagine caminhar por uma cidade onde as calçadas vão se acendendo à medida que as pisamos, revelando informações sobre os prédios que as margeiam. Você decide se sentar para tomar um café. Faz o pedido diretamente pelo celular e, no cardápio online, estão inclusas dicas de livros e revistas que você pode baixar para degustar no fim da tarde. Não parece muito distante, certo? E é um caminho sem volta: nós já checamos a previsão do tempo e o horário em que o ônibus vai passar antes de sair de casa. Nossos celulares mediam nossas relações. É através deles que marcamos encontros, fotografamos onde vamos, memorizamos o que vemos.

A vida urbana não acontece mais, exclusivamente, na cidade; ela acontece também virtualmente. Entender essa relação entre a tecnologia, cidades e pessoas é a proposta do pesquisador holandês Martijn de Waal, fundador do projeto The Mobile City e autor do livro The City as Interface. Batemos um papo durante o workshop “A Cidade Hackeável”, no festival Red Bull Basement, em São Paulo.

Como a experiência de hacking pode ser aplicada nas cidades?

Hacking é um termo da computação, que significa usar algo para além de sua função prevista. São Paulo, por exemplo: é uma cidade projetada para carros. Então, se quisermos hackeá-la e torná-la mais atraente para ciclistas, como podemos usar as mídias digitais para isso? Um jeito de convidar as pessoas a usarem suas bicicletas é mostrar que elas vão perder menos tempo no trânsito – podemos, então, fazer um aplicativo que calcule quanto tempo vai demorar para essas pessoas se deslocarem de um ponto A a um ponto B e comparar o quanto demoraria de carro. Você poderia montar um mapa para bicicletas, e esse mapa seria muito diferente do mapa normal, já que São Paulo é uma cidade montanhosa. De carro, você pode subir o morro, mas, de bicicleta, você pode preferir dar a volta, e esse mapa traçaria uma rota mais adequada. Também dá para criar uma plataforma em que os ciclistas postam fotos de áreas problemáticas. Com esse acervo, podemos pressionar e dizer: “vamos mudar isso”. É isso que tentamos fazer: usar novas mídias e tecnologias para hackear a cidade, mostrar alternativas e dar poder de transformação às pessoas.

Em seu livro, você começa dizendo que o Bill Gates o inspirou…

Sim, mas de um jeito negativo, porque ele disse que, no futuro, não precisaremos marcar manutenção para nossos carros. O carro vai saber quando está com defeito, vai avisar para o mecânico, que vai marcar um horário, e vai aparecer na nossa agenda. Sabe, um desses cenários em que a tecnologia faz tudo por você. Ele disse que é a magia do software que faz tudo isso. O que me intrigou foi a palavra “magia”. Eu não acredito em mágica. Os softwares fazem o que as pessoas escrevem no código. Para desenvolver essas tecnologias inteligentes, é preciso visualizar a cidade como um produto. Quase sempre, coloca-se todo o foco em deixar as cidades mais eficientes. Mas uma das coisas excitantes da cidade são as ineficiências, os confrontos, os espaços públicos, os diferentes tipos de pessoas. Os softwares foram feitos para regular tudo isso. O que eu estou tentando dizer é que nós não devemos pensar na tecnologia como algo neutro. Essa ferramenta pode ajudar, mas ela também molda o mundo de um jeito particular. E de que jeito nós queremos que a tecnologia molde a cidade? Essa é uma discussão enorme, que não é muito feita. Nós só pensamos em deixar a cidade mais eficiente.

Você diz que a tecnologia também pode ser problemática quando se perde a noção do coletivo. Como podemos minimizar esse efeito negativo?   

O que os aplicativos fazem muito bem é encontrar coisas que interessam você. Em vez de andar pela cidade, basta usar seu smartphone para achar um restaurante. Isso é útil, você pode até descobrir lugares que nunca teria imaginado. O risco é que nós acabemos numa bolha, em que tudo à nossa volta está sendo filtrado pelo software, e nós só enxergamos aquilo que se adequa aos nossos interesses. Acabamos perdendo a diversidade da cidade. Os filtros facilitam a vida, mas eles devem ser acompanhados por mecanismos de conexão entre pessoas diversas. Uma alternativa é usar uma plataforma para trabalhar interesses comuns. O ciclismo, por exemplo, pode atrair pessoas com backgrounds diferentes, que têm gostos de músicas diferentes, e mesmo assim elas se encontram para pedalar.

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