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Qualquer vidinha serve

O homem não se cansa de procurar vida fora da Terra. Nem precisa ser inteligente - pode ser uma plantinha, uma ameba qualquer. No sistema solar, as maiores esperanças se voltam para Marte e para as luas de Júpiter e Saturno

Carlos Chernij

Para muitos que acreditavam em homenzinhos verdes, o dia 15 de julho de 1965 foi uma data bastante triste. Foi quando a sonda americana Mariner 4 se tornou a primeira máquina terrestre a passar bem perto de Marte, uma curta jornada de 26 minutos que rendeu 22 fotos. As imagens foram uma decepção após a outra: mostravam um grande deserto cheio de pedras e crateras, muito parecido com a nossa Lua, e sem nenhum sinal de vida. Os americanos não desistiram, mas as sondas enviadas depois disso serviram para confirmar uma realidade: achar vida fora da Terra não ia ser nada fácil.

E quando os cientistas falam em “vida”, eles são pouco exigentes. Nada de civilizações avançadas ou alienígenas como os de Guerra nas Estrelas ou de Jornada nas Estrelas. Se encontrarem alguma prova real de que uma ameba qualquer, ou uma simples célula viva, existe ou já existiu em algum lugar fora da Terra, eles vão estourar garrafas de champanhe. Afinal, seria a confirmação de que, se a vida conseguiu vingar em outro lugar fora do nosso planeta, ela deve ter surgido – ou ainda vai surgir – em muitos outros lugares. Teríamos a certeza de que não estamos sozinhos no Universo – apesar de boa parte de nós não achar que amebas alienígenas sejam companhias empolgantes.

O QUE É VIDA?

Um grande problema é conseguir separar o que é vivo do que é apenas uma simples pedra. Pode parecer bobagem, mas, levando-se em conta que a descoberta vai acabar sendo feita por uma máquina, definir o que é vida e como se “mede” isso faz toda a diferença. É bem possível que na escola algum professor lhe tenha ensinado que “ser vivo é aquilo que nasce, cresce, se reproduz e morre”. Não deixa de ser verdade, mas os pesquisadores atualmente preferem algo mais ou menos como: “vida é um sistema químico auto-sustentável, capaz de se reproduzir e evoluir”.

Essas definições nos dão algumas pistas sobre quais as condições mínimas para um lugar poder abrigar vida – ou, pelo menos, a vida como a conhecemos aqui na Terra. A primeira delas é possuir os ingredientes básicos. Carbono, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio estão entre os mais importantes. Até aí, tudo bem, pois todos esses elementos químicos existem em vários lugares do Universo. O problema são os outros pré-requisitos. Segundo as teorias científicas, provavelmente a vida na Terra começou com um grande sopão desses elementos nos oceanos primitivos. Eles foram se combinando em moléculas maiores, os aminoácidos, que depois foram se combinando entre si e, de alguma maneira, se tornaram capazes de se reproduzir e evoluir. E desse processo saem os outros dois pré-requisitos: água e energia.

Água em estado líquido é considerado o fator decisivo para a possibilidade de vida em outros planetas. Todos os seres conhecidos atualmente dependem de água para realizar as reações químicas que os mantêm vivos. Talvez a água não seja imprescindível, mas as formas de vida que surgissem seriam muito diferentes das que conhecemos (leia quadro na próxima página).

E não basta ser H20. É preciso que seja água em estado líquido, senão as reações não têm como ocorrer. É aí que entra a questão da energia. Em geral, ela aparece na forma de calor, seja vinda como radiação (luz do Sol, por exemplo), seja do interior do planeta. Mesmo que um planeta tenha água, ele precisa ter energia na medida certa. Se for pouca, o planeta vai ser frio demais e a água vai estar congelada. Se for muita, só vai haver vapor. Em ambos os casos, a vida não teria como se desenvolver.

PLANETA VERMELHO

As sondas enviadas a Marte nos últimos anos nos deram algumas informações animadoras. O satélite Mars Global Surveyor fez mapas detalhados, mostrando que realmente há gelo, tanto de gás carbônico quanto de água, nos pólos de Marte. Os dados dos jipes robóticos Sojourner, Spirit e Opportunity indicam que já houve água correndo pela superfície marciana. A partir daí, as opiniões se dividem.

Análises de solo mostraram que há pouco carbono. A atmosfera de gás carbônico é extremamente fina e não é capaz de proteger o planeta dos raios ultravioleta, que destroem as moléculas orgânicas. As temperaturas podem cair fácil para 100 graus Celsius negativos. Por isso, os cientistas mais pessimistas acreditam que seja muito difícil haver vida em Marte. Já os otimistas levantam outras hipóteses. Talvez, no subsolo, existam lugares mais quentes e protegidos capazes de abrigar bactérias. Os pólos, onde está a água em forma de gelo, também não foram visitados ainda e podem esconder surpresas.

Mas em uma coisa todos concordam: é muito provável que Marte tenha abrigado vida no passado. Os estudos mostram que o planeta já teve uma atmosfera mais densa e que as temperaturas já foram mais altas. “Se isso for verdade, Marte foi um lugar tão propício quanto a Terra para o surgimento da vida”, diz o cientista David Morrison, do Instituto de Astrobiologia da Nasa.

EUROPA E TITÃ

Quer dizer que estamos sozinhos no sistema solar? Talvez não. E a principal aposta recai sobre um planeta bem menos óbvio. Na verdade, uma lua: Europa, um dos satélites de Júpiter, é considerado o lugar mais provável para encontrar vida primitiva. Água há de sobra. O problema é que, como a distância em relação ao Sol é muito grande, fica tudo congelado a 170 graus negativos. Mas a sonda Galileu, que passou perto de Europa na década de 90, mostrou uma coisa surpreendente. Embaixo dos oceanos congelados foi detectada água líquida. “Como a energia da luz do Sol não chega embaixo desse gelo, as formas de vida seriam muito simples, como os micróbios que encontramos em grandes profundidades na Terra”, diz Morrison.

O terceiro – e último, até onde se sabe – lugar próximo que talvez possa formar vida é Titã, uma das luas de Saturno. É o único local no sistema solar, além da Terra, que tem uma atmosfera densa. Ela é muito semelhante à atmosfera primitiva do nosso planeta, o que deixa muitos cientistas animados. Só tem um problema: a temperatura da superfície é de 180 graus negativos.

Fora Marte, Europa e Titã, não há muita esperança de achar vida no sistema solar. Mas os cientistas não pretendem abandonar a busca. “Não há nada de conhecido que prove que a vida é um fenômeno que só poderia ocorrer na Terra”, diz Morrison.

Homens de areia

O silício pode permitir a existência de outras formas de vida

Praticamente tudo no nosso corpo contém carbono como “esqueleto”, incluindo o DNA. Por isso, a maioria dos cientistas acredita que a vida seria impossível sem ele. Mas há um outro elemento que poderia talvez servir: o silício, presente na areia e usado na fabricação de chips de computador.

Os dois têm propriedades bastante semelhantes, e alguns pesquisadores acreditam que o silício poderia servir de base para algum tipo de vida totalmente diferente da que conhecemos na Terra. E o mais fascinante é que esse tipo de organismo precisaria de outra substância diferente da água para servir de solvente em seu metabolismo. Só que o silício apresenta suas limitações. Enquanto as cadeias mais longas que ele consegue formar têm cinco ou seis átomos, o carbono consegue fazer isso com dezenas de milhares. Por isso, qualquer forma de vida que eventualmente possa ser formada por silício seria muito mais simples do que as que conhecemos hoje.

Num “exercício de imaginação”, o astrobiólogo Ben Clark, da Nasa, afirma que um dia talvez seja possível a existência de computadores vivos. Em vez de reações químicas, eles usariam chips e dispositivos mecânicos e eletrônicos para desempenhar suas funções orgânicas, a exemplo das máquinas conscientes de filmes como Exterminador do Futuro. “Essas formas de vida poderiam nos ajudar em várias coisas, como em pesquisas médicas e em novas maneiras de explorar o Universo”, diz Clark, otimista.