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Áreas úmidas do Cerrado escondem enorme reserva de carbono milenar, revela estudo

As veredas podem armazenar até oito vezes mais carbono por hectare do que a Floresta Amazônica, segundo uma nova pesquisa liderada por brasileiros.

Por Ana Clara Caielli Barreiro 23 mar 2026, 20h00 •
  • A Floresta Amazônica é famosa por armazenar grandes quantidades de carbono em suas árvores e solo, mas um outro bioma brasileiro parece ser ainda mais eficiente nesta tarefa: o Cerrado.

    Um novo estudo liderado por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), publicado como capa do periódico científico New Phytologist, descobriu que áreas úmidas do bioma armazenam um depósito gigantesco de carbono escondido sob o solo.

    Os pesquisadores mapearam o solo até quatro metros de profundidade em veredas, as zonas úmidas do Cerrado presentes em vales ou nascentes, e em campos úmidos, que ocorrem em áreas amplas de vegetação rasteira.

    O resultado foi surpreendente: essas áreas podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, oito vezes mais do que a biomassa aérea da Floresta Amazônica.

    Trata-se de carbono orgânico acumulado no solo há mais de 20 mil anos – o que explica a grande quantidade encontrada.

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    O processo funciona assim: o solo das áreas úmidas do Cerrado permanece praticamente encharcado durante boa parte do tempo. Esse excesso de água impede a entrada de oxigênio, dificultando a ação de bactérias aeróbias responsáveis por decompor matéria orgânica, como folhas e raízes. Esses compostos, ricos em carbono, acabam se acumulando no solo ao longo de milênios. 

    O resultado é uma enorme reserva natural de carbono. Por si só, ela não representa uma ameaça e, na verdade, tem papel importante para a biodiversidade. Com a matéria orgânica se acumulando e se decompondo lentamente, o solo se torna extremamente rico em nutrientes. O carbono permanece aprisionado pela água, que funciona como uma espécie de escudo natural. Ecossistemas com essas características são conhecidos como turfeiras.

    O problema começa quando a ação humana entra em cena.

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    Áreas úmidas do Cerrado são frequentemente drenadas para uso agrícola. Quando a água do solo diminui, sobra espaço para que o oxigênio penetre no solo. Isso permite a atuação das bactérias aeróbias e acelera a decomposição de toda essa matéria orgânica acumulada. Assim, grandes quantidades de dióxido de carbono são liberadas e, em alguns casos, também metano, outro poderoso gás de efeito estufa.

    Fotografia da Da esquerda para a direita, Paulo Bernardino, Larissa Verona, Guilherme Alencar, Natashi Pilon, Rafael Oliveira durante durante o trabalho de campo na Chapada dos Veadeiros
    (Jornal da UNICAMP/Reprodução)

    “É como se abríssemos uma garrafa com um potencial de carbono que estava ali acumulado por tanto tempo, liberando de maneira muito mais rápida”, explica Larissa Verona, primeira autora do artigo, em entrevista à Agência Bori.

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    Outro impacto da drenagem é a degradação do ecossistema, que pode afetar diretamente os recursos hídricos da região e, portanto, a segurança hídrica do país.

    A descoberta tem relevância global. Até agora, turfeiras eram conhecidas apenas no Hemisfério Norte e em florestas tropicais com muita chuva. O Cerrado, porém, possui um clima bem diferente.

    “O fato de os extremos do cerrado estarem sob um clima mais sazonal e seco faz com que ninguém esperasse a existência desses grandes depósitos abaixo do solo”, conta Rafael Oliveira, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e um dos autores da pesquisa, também à Bori.

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    O estudo levanta um alerta: a degradação desse bioma pode liberar enormes quantidades de carbono na atmosfera, piorando ainda mais o aquecimento global.

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