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A greve dos caminhoneiros é uma aula prática de economia

Paralização do País mostra que não existem soluções simplórias num mercado complexo como o do abastecimento de petróleo

O que está acontecendo agora é uma aula de economia. O congelamento no preço da gasolina na boca da refinaria tinha deixado a Petrobras à beira da falência – a empresa não gerava caixa para rolar suas dívidas, e tinha perdido o acesso ao mercado de crédito. Teve de pedir socorro à China para evitar calotes em troca uns bons milhões de barris abaixo do valor de mercado.

A solução era óbvia: deixar o preço da gasolina (e do diesel) na refinaria flutuar diariamente de acordo com os preços internacionais. “É assim com o feijão, por que não seria com os derivados de petróleo?”, perguntou outro dia o presidente da Petro, Pedro Parente. A expectativa de que a medida viesse, e a chegada efetiva dela, em 2016, fizeram com que as ações da petroleira subissem 400%, de R$ 5 para R$ 25. A Petrobras voltou a contar com crédito barato, a dívida baixou, e ficou tudo certo.

Mas faltou combinar com os russos (e com os árabes, e com o Trump, e com os caminhoneiros). Os estoques internacionais de petróleo baixaram. A OPEP não aumentou a produção. Trump deu uma bandada no Irã (o que diminui mais ainda a oferta de óleo, aumentando o preço).

A Petrobras, por uma questão de coerência, manteve os reajustes diários, quase sempre para cima, acompanhando a subida vertiginosa do barril na gringa.

E agora fica claro que a decisão mais óbvia não era tão simples. A conta ficou alta demais para uma parte fundamental da clientela – o transporte rodoviário de mercadorias. Os caminhoneiros entraram em greve, e o país parou – quase literalmente. O governo, então, pressionou a Petrobras. E voltou o controle de preços. A credibilidade na gestão Parente ruiu, e as ações da empresa caem em ritmo de crash de bolsa – sinalizando que o acesso da Petrobras ao crédito barato, que tinha salvado a companhia, deve secar.

Abastecimento de petróleo não é um problema trivial. Os EUA proibiram a exportação de petróleo americano entre 1975 e 2016 justamente para evitar a influência de preços internacionais sobre o abastecimento. E estamos falando de governos mais amigos do mercado do que a média americana – dois mandatos de Reagan e três da família Bush.

Esta seria a solução para o Brasil? Não dá para saber. Houvesse competição no mercado nacional de petróleo, a disputa por mercado poderia levar a preços razoáveis. Por outro lado, precisaríamos de uma medida protecionista, como a dos EUA, para evitar desabastecimento. Mesmo assim, trata-se de uma discussão filosófica, já que levaria uma geração até que a Petrobras perdesse seu monopólio.

No fim, nem a cartilha liberal nem a da esquerda trazem a solução completa. O caso de agora joga na cara de todos o fato de estarmos metidos num mundo bem mais complexo que o dos debates pueris dos acadêmicos bebedores de Toddynho, os que acham que a economia é algo tão simples e maniqueísta quanto um episódio do He-Man. Não tem Esqueleto na vida real, meu irmão. O grande inimigo a ser vencido é a nossa prepotência.

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  1. Roberto Anjos

    O que influencia no preço final é o imposto, mais de 40%

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  2. Marie Claire Ciloni

    Na minha opinião, texto muito tendencioso e de baixa qualidade informativa. Fico triste de ver este tipo de texto na Super Interessante. Não foi o congelamento do preço da gasolina que deixou a Petrobras à beira da falência, se é que ela esteve à beira da falência. Baixa do petróleo, endividamento por estar num momento de investimento (para botar o pré-sal em pleno desenvolvimento), dólar alto, corrupção (e contratos desvantajosos feitos com as empreiteiras privadas, por meio desta prática) reputação muito prejudicada pela Lava-Jato e pela intensa exploração midiática em cima desta operação e esta questão do endividamento no abastecimento, tratada no texto como causa única da queda no valor da empresa.
    O texto sequer menciona o contexto político, as decisões sobre impostos tomadas nesta semana e finaliza sua exposição de ideias com uma agressão genérica, gratuita e desnecessária “debates pueris dos acadêmicos bebedouros de Toddynho”.
    Fico triste quando a Super Interessante opta por este tipo de abordagem.

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  3. Marie Claire Ciloni: ” texto muito tendencioso e de baixa qualidade informativa”? Oi, tendencioso pra quem não tem visão ampla e opinião formada, apenas aquelas decoradas de cartilhas… pra mim apenas somou em conhecimento… já foi dito no texto que o assunto é complexo, você trouxe informações válidas e que não funcionam nesse momento, discussão inútil…. Está parecendo um Senador (não me recordo o nome), perguntado pela manhã na CBN, se hoje haverá votação no Senado sobre aquele projeto, campanha atual dos caminhoneiros. Ele falou, falou, filosofou igual você e não respondeu a pergunta… Textão…. Fica um replicando o outro, nação papagaio viu.

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  4. Tiago Benetti

    Até quando teremos jornalistas tebtando dar aula de economia?

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  5. André de Souza

    A questão da alta dos preços dos combustíveis e a solução para a crise que gerou, provocando uma greve geral de caminhoneiros Brasil à fora é, realmente, um problema complexo, que demanda uma solução técnica que não será fácil. Certamente, qualquer que seja a solução acordada, haverá consequências econômicas para o nosso país. Fruto óbvio da ingerência de longa data dos nossos governantes, que simplesmente ignoraram a também óbvia necessidade de que outros modais de transportes em um país de dimensões continentais como o Brasil já deveriam ter sido implementados há décadas, tanto para o transporte de cargas como de pessoas. Esta situação gerou uma certa forma de monopólio no mercado de escoamento da produção agrícola e industrial, bem como no transporte de passageiros. Como consequência, um país inteiro, de uma hora pra outra, simplesmente se tornou refém da falta de combustível fóssil! Creio que uma questão similar vem sendo gestada no âmbito da produção de energia. Assim como somos reféns do modal rodoviário para nos locomovermos, somos reféns, também, das hidroelétricas, no que se refere à produção de energia elétrica. Tanto isto é verdade que, o que acontece quando nos deparamos com uma crise hídrica por aqui? Pagamos mais caro na tarifa de energia, pois, a única alternativa para as hidroelétricas são as termoelétricas, cujo custo da produção de energia é muito mais alto. Como consequência, da mesma forma que os custos de uma alta nos preços dos combustíveis acaba sendo arcado pela sociedade, os custos de uma crise energética também. A inércia do governo, que resiste em investir em outras matrizes energéticas, muitas vezes mais baratas e com impactos ambientais mínimos, não nos dá alternativas senão pagar os custos. Portanto, a solução de problemas desta monta certamente não virá de atitudes imediatistas, com viés populista. Ela virá de uma política que privilegie tomadas de decisão respaldadas por critérios técnicos, demandando planejamento e investimentos para solucionar problemas de curto e longo prazo.

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  6. gladson santos

    muito boa a aula companheiro, quer dizer que penhoraram a produção da petro para pagar a dívida, e agora estamos sem petróleo, e ninguém levou nada por fora, é conversando que se entende.

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  7. Vagner Rodrigo Soares

    A petrobras vendendo a R$1,50 para os bolivianos e R$5,00 para o brasileiro tmbm é essencial para a economia ou é intriga da oposição? Ou vende pra todos a $2 ou o brasil continua nas fezes do governo

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