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Jesus foi mesmo um refugiado?

O assunto esquentou depois do Roda Viva de ontem, 31/07. Bernardo Mello Franco, colunista do O Globo, perguntou ao entrevistado, Jair Bolsonaro, se o deputado sabia que “Jesus tinha sido um refugiado” – dado que o candidato é ao mesmo tempo cristão e contra qualquer política que permita o assentamento de refugiados no Brasil.

Mas e aí? A afirmação de Bernardo faz sentido? Vamos lá. Existem histórias de Cristo. Uma é a mitológica. Outra é a histórica, que busca estudar quem de fato foi Jesus de Nazaré, eliminando qualquer narrativa sobrenatural – não existe outra forma de estudar história; se a mitologia entrasse na conta, teríamos de acreditar que existiam dragões na Europa medieval.

Bom, o episódio em que Jesus aparece como “refugiado” faz parte da mitologia cristã. Ela consta em apenas um dos quatro Evangelhos, o de Mateus. E diz o seguinte: os três reis magos visitam Herodes, rei da Judeia, e perguntam onde estaria o Messias, que acabara de nascer. Ao saber que o Filho de Deus em pessoa tinha nascido em seus domínios, Herodes se sentiu ameaçado. Como não sabia quem era o Messias, ordenou a morte de todos os recém-nascidos, para garantir.

Em meio ao massacre, José e Maria fugiram para o Egito. E por lá ficaram. Só retornariam para os domínios judaicos depois da morte de Herodes – o evangelho não especifica quanto tempo eles teriam passado na nação vizinha.

A lógica de quem usa essa narrativa é clara: se o Egito tivesse barrado a entrada de José e Maria, Jesus estaria morto. Logo, não faz sentido ser cristão e, ao mesmo tempo, contra a ideia de abraçar refugiados estrangeiros.

A intenção, enfim, é boa. Por outro lado, ela mistura o alho da geopolítica com o bugalho de uma narrativa completamente mitológica, cercada de tanto elementos sobrenaturais quanto um episódio de Game of Thrones – a começar pela ideia de que Herodes, um personagem que realmente existiu, teria mandado matar todos os recém-nascidos dos seus domínios após ouvir três astrólogos (os “reis magos” – elementos místicos que, tal como a fuga para o Egito, também aparecem só no Evangelho de Mateus).

O consenso entre os estudiosos da Bíblia é que a fuga para o Egito está no Evangelho de Mateus para aproximar a história de Jesus com a do herói máximo do judaísmo, Moisés – lembre-se: o cristianismo nasceu não como uma religião independente, mas como uma dissidência do judaísmo. Moisés tinha vindo do Egito. O evangelista, então, achou por bem criar uma história em que Jesus também tinha vindo do Egito.

Outra narrativa evangélica tem um propósito parecido: a do nascimento em Belém. O Evangelho de Marcos, o mais antigo, escrito cerca de 30 anos após a morte de Jesus, começa com Cristo já adulto. Não diz nada sobre seu nascimento, muito menos fuga para o Egito. Fala apenas que o Messias veio de Nazaré, um vilarejo na Galileia. Mateus e Lucas, escritos décadas depois do de Marcos, incluem as narrativas da natividade em Belém. O consenso aí é que se trata de uma tentativa de aproximar o mito de Jesus do segundo maior herói judaico, o rei Davi – que, de acordo com as escrituras hebraicas, nasceu em Belém.

Sobre o Jesus histórico, pouco se sabe. O que os historiadores interessados fazem é interpretar os evangelhos sob a navalha de Occam – ou seja, dando mais crédito para as histórias menos sobrenaturais, mais antigas, e menos glamourosas. Sob esse critério, temos que Jesus nasceu em Nazaré, a 170 km de Belém, e passou a fase adulta nos arredores do Mar da Galileia – pertinho de sua cidade natal. E morreu crucificado em Jerusalém (vizinha de Belém), por atentar contra a ordem pública durante as celebrações do Pessach, a Páscoa original, judaica.

Em suma: o Jesus histórico nunca foi um refugiado, até onde sabemos. O Jesus mitológico, por outro lado, foi uma espécie de refugiado. Mesmo assim, o ato de mesclar histórias religiosas com geopolítica é um flete perigoso com o obscurantismo. Quando apelamos para mitos, afinal, podemos justificar qualquer coisa – seja algo intrinsecamente bom, como o acolhimento de refugiados, seja uma barbaridade, como tantas as que a humanidade cometeu em nome dos mitos que criou.  

 

 

 

 

    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

  

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  1. André de Souza

    E, exatamente neste momento, estamos assistindo a uma destas barbaridades, fruto da mistura absurda e nada científica entre mito e história: a declaração autocrática e unilateral da hegemonia cultural judaica sobre Israel, colocando os palestinos – um povo que vive na região há, pelo menos, tanto tempo quanto os judeus – e toda a sua cultura na condição de párias. Aliás, a própria formação do estado de Israel, convenhamos, é o resultado desta anomalia. Afinal, a “legitimidade” para a declaração da instalação de um estado judaico em terras palestinas vem do “fato” pseudohistórico de que Javé (?) teria prometido aquelas terras ao “Povo Escolhido”, segundo as Escrituras. Francamente, a Bíblia (um livro que não tem compromisso algum com a história) tem tanta legitimidade para declarar que o estado de Israel é uma herança deixada exclusivamente aos judeus quanto as teses arianas de Hitler têm para declarar que a supremacia germânica deveria prevalecer na Europa.

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  2. Ministério Apostólico #MG

    Cara você tem um currículo bonzinho, e pode entender bem na sua área, mas história do cristianimo, você não sabe de nada. É questão de fé para se entender a bíblia. Tem algo chamado de profécia na bíblia, e é exatamente o que as prefécia dizem, segundo o livro de Isaías. (E, congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo.
    E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta:
    E tu, Belém, terra de Judá,De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá;porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel.

    Mateus 2:4-6). É questão de fé. Respeite isso. Segundo o Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, a população brasileira cristã é de (79%), sendo que cerca de de 42,3 milhões são de protestantes, o que representava 22,2% da população brasileira. Estão incluso ricos, pobres, brancos, afro descendentes, cultos e leigos.

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  3. André de Souza

    Uma coisa é “História do cristianismo”; outra, bem diferente, é “História segundo o cristianismo”! Ou seja, História segundo Bíblia”. As narrativas bíblicas não são uma referência histórica. Isto é fato aceito por qualquer historiador sério, comprometido com a verdade científica a que se propõe a História. As narrativas bíblicas sobre a vida de Jesus são “fatos sociológicos”, como diria Emile Durkheim, portanto fazem parte de uma determinada tradição. Porém, não são fatos históricos, pois, não há comprovação científica de que ocorreram tal como são narrados nas “Escrituras”. E, exatamente por não poderem ser comprovados historicamente, dependem única e exclusivamente da “fé” para serem aceitos como verdade. Simples assim!

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