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Bruno Garattoni Vencedor de 12 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Criptomoeda do Facebook é uma mão na roda – e um pesadelo também

Por Bruno Garattoni - Atualizado em 19 jun 2019, 23h04 - Publicado em 19 jun 2019, 16h25

Ninguém confia no Facebook, e há motivos de sobra para isso: ele coletou informações sem avisar, fez seus usuários de cobaias e virou o centro de polêmicas e conspirações envolvendo as eleições de vários países. Então a criptomoeda do Facebook, que irá se chamar libra, certamente vai enfrentar enorme resistência quando for lançada, em 2020. E, ao mesmo tempo, ela tem tudo para dar certo – mas não como se imagina.

O bitcoin é uma criação tecnológica notável e útil em diversas situações. Mas, convenhamos, não foi isso que o transformou em febre. Ele virou mania porque é volátil, ou seja, seu valor pode subir ou descer muito (o que deixou algumas pessoas ricas e todo mundo sonhando em se dar bem), e porque pode ser minerado – a possibilidade de criar valor “do nada”, usando apenas o poder de processamento do próprio computador, capturou a imaginação das massas (ainda que, na prática, minerar bitcoin tenha se tornado difícil e pouco ou nada lucrativo).  

A criptomoeda do Facebook é diferente. Ela se baseia num blockchain, como o bitcoin, mas não será livremente minerável. Só os membros da Libra Association, um consórcio que está por trás da moeda do Facebook (e inclui Visa, Mastercard, PayPal, Uber, Lyft e 23 outras empresas) poderão fazer isso. A outra grande diferença em relação ao bitcoin é que a libra não será volátil: é uma stablecoin, projetada para ter cotação estável. Seu valor será defendido pelos membros da Libra Association, que vão depositar dinheiro de verdade, num fundo central, para lastrear a moeda. Ela até poderá oscilar, mas não tanto quanto o bitcoin. Pelo menos a promessa é essa.

Em suma: a libra não possui nenhuma das características que fizeram a fama do bitcoin (e da maioria das outras criptomoedas). Mesmo assim, e apesar da desconfiança com o Facebook, ela deve dar certo. Porque sua função, na verdade, será a mais simples possível: servir como instrumento de valor. Daqui a um ou dois anos, quando você pedir pizza, tiver que chamar um encanador ou for comprar outra coisa qualquer, de um corte de cabelo ao café na padaria, poderá pagar diretamente pelo WhatsApp – que pertence ao Facebook, e vai incorporar a libra.

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Isso pode parecer meio bobo, supérfluo, mas muda diretamente a rotina de todo mundo. Pagar as coisas pelo celular tende a se tornar uma norma social – como, na China, já é. Se isso acontecer por meio da libra, o Facebook será tão poderoso quanto um banco central global. Se a criptomoeda de Mark Zuckerberg virar um padrão, as pessoas serão obrigadas a usá-la. E ele terá mais um elemento para vigiar, ainda mais de perto, a vida de todo mundo.  

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