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Bruno Garattoni Vencedor de 12 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Rússia divulga vídeo da maior explosão nuclear de todos os tempos

Por Bruno Garattoni - Atualizado em 26 ago 2020, 16h21 - Publicado em 26 ago 2020, 16h17

Detonação da bomba RDS-220, em outubro de 1961, teve 50 megatons de força – o equivalente a 3.300 vezes a bomba de Hiroshima; documentário confidencial, produzido para autoridades militares da URSS, é revelado pela primeira vez

“As agulhas dos instrumentos do Instituto Sismológico de Uppsala, na Suécia, chacoalharam no dia 30 de outubro de 1961. Momentos depois, outros aparelhos ao redor do mundo também detectaram o que parecia ser um terremoto de 5 graus na escala Richter. Mas o tremor nada tinha de natural. Era uma onda de choque que deu três voltas no planeta – e resultado da maior explosão nuclear de todos os tempos. A União Soviética havia acabado de detonar a mais potente arma já produzida pelo homem: a bomba nuclear RDS-220. A força da Bomba Tsar, de aproximadamente 50 megatons, equivale a 50 milhões de toneladas de dinamite, ou a 3.300 bombas de Hiroshima. Sozinha, ela é dez vezes mais potente do que todos os explosivos da Segunda Guerra Mundial – somados. O cogumelo nuclear chegou a 64 quilômetros de altura, seis vezes a altitude em que voam os aviões comerciais, e sete vezes o tamanho do Monte Everest. Atingiu a mesosfera, a camada da atmosfera onde os meteoritos entram em combustão.” 

Assim começa a reportagem “A Bomba Tsar”, que o jornalista Maurício Moraes e eu escrevemos para a SUPER em 2015. Ela conta em detalhes a história da hiperbomba (apelidada de “tsar” em referência ao tzar Ivã 4º, também conhecido como Ivã, o Terrível, em referência a seu temperamento instável e explosivo), que foi desenvolvida em apenas quatro meses, colocou medo nos próprios criadores, quase derrubou o avião que a lançou – e foi um blefe geopolítico da URSS, pois não teria serventia prática numa eventual guerra. Na reportagem, você pode conhecer os motivos disso e entender a magnitude de uma explosão de 50 megatons (saber quais efeitos ela teria, por exemplo, sobre a cidade de São Paulo). 

Durante a Guerra Fria, os soviéticos fizeram questão de que o mundo inteiro, em especial os EUA, ficasse sabendo da bomba Tsar. Ela era um instrumento de dissuasão, afinal. Agora, 60 anos depois, a estatal nuclear russa Rosatom publicou no YouTube um documentário confidencial, produzido na época para as autoridades militares soviéticas, que mostra em detalhes a detonação da bomba Tsar. Ele está em russo, mas é possível ativar legendas automáticas em inglês e português (clique no ícone “Detalhes”). 

O vídeo, de 40 minutos, começa mostrando a montagem e o transporte da Bomba Tsar num trem, em cenas que impressionam pela simplicidade – não parece que se está diante do maior artefato nuclear já construído pelo homem. O trem chega a seu destino, um aeroporto militar, e a bomba é descarregada usando um enorme guindaste. Ela então é desmontada e inspecionada por uma equipe de sete cientistas – eles mesmos reaparafusam a bomba antes de liberá-la para montagem no avião, um bombardeiro Tupolev TU-95.   

A decolagem do avião é monitorada por uma estação de controle com dezenas de oficiais, onde muitos dos equipamentos ainda são valvulados – algo surpreendente para 1961, quando o transistor já era relativamente comum. O documentário segue acompanhando a missão até o momento do acionamento da bomba, que beira o indescritível. Um registro histórico, até agora secreto, da maior explosão conhecida. E o momento em que a humanidade chegou mais perto daquele trecho do Bhagavad Gita, um livro sagrado hindu, citado pelo físico J. Robert Oppenheimer, considerado o pai da bomba atômica americana: “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos”. 

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