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Lembra do exoesqueleto da Copa? Ele já recuperou 8 paralíticos

Estudo feito no Brasil, liderado por Miguel Nicolelis, deixou boquiabertos os próprios cientistas Era uma ideia modesta. Os cientistas simplesmente queriam ensinar paraplégicos a controlar um exoesqueleto motorizado – o mesmo modelo usado para dar o chute de abertura na Copa. O resultado foi uma incrível recuperação biológica dos pacientes. O estudo foi o primeiro […]

Por Fabio Marton - Atualizado em 21 dez 2016, 08h50 - Publicado em 17 ago 2016, 22h48

Estudo feito no Brasil, liderado por Miguel Nicolelis, deixou boquiabertos os próprios cientistas

Rafael Sarmento
Rafael Sarmento

Era uma ideia modesta. Os cientistas simplesmente queriam ensinar paraplégicos a controlar um exoesqueleto motorizado – o mesmo modelo usado para dar o chute de abertura na Copa. O resultado foi uma incrível recuperação biológica dos pacientes.

O estudo foi o primeiro resultado publicado pelo Walk Again Project (“Projeto Andar de Novo”), uma ONG internacional de pesquisa médica, envolvendo 100 pesquisadores em 25 países, inclusive o famoso neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.

Tudo começou com uma simulação em realidade virtual, com o Oculus Rift. Os pacientes viam um modelo das próprias pernas e os cientistas pediam para que imaginassem elas se movendo, enquanto sensores registravam sua atividade cerebral. Quando eles conseguiam mexer – e todos aprenderam isso rapidinho – trajes especiais retornavam uma sensação tátil, simulando o movimento.

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Depois disso, passaram para o Lokomat, um robô que simula os movimentos de caminhada com os pacientes pendurados por cintos. Por fim, o exoesqueleto motorizado, cuja ideia era simplesmente carregar a pessoa, sob o comando de seu cérebro.

Em meio a milhares de sessões de treinamento, algo totalmente inesperado aconteceu. Os pacientes começaram a mexer seus próprios músculos, sem máquina nem nada. Voltaram a sentir dor e pressão nas pernas. Chegaram até a recuperar o controle da bexiga e dos intestinos (um sério inconveniente da paraplegia é a incontinência total).

“A gente topou com essa recuperação clínica, algo que é quase como um sonho”, afirma o brasileiro Miguel Nicolelis, o líder da pesquisa, ao jornal britânico The Guardian. Em outra matéria, ele deu exemplos: “neste ponto, um paciente se tornou capaz de produz movimentos voluntários com as pernas, simulando andar enquanto suspenso. Em outro exemplo, o paciente sete foi capaz de andar com muletas e ortoses [suportes] de pernas, sem a ajuda de um terapeuta”.

Qualquer um que tenha um parente ou amigo paraplégico sabe o gigantesco impacto dessa notícia. Por toda a história, dano na medula espinhal era uma sentença para a vida. Nada no mundo podia tirar alguém da cadeira de rodas. A esperança estava voltada para pesquisas com células-tronco, que já apresentaram resultados bastante promissores, mas não em pacientes como os do estudo brasileiro, paraplégicos por até 14 anos. Segundo os cientistas, é a primeira vez em que essa linha de tratamento, a interface entre cérebro e máquina, apresenta qualquer melhoria clínica.

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Nicolelis acredita que as sessões de treinamento conseguiram acordar as poucas conexões neurais que sobreviveram aos acidentes que levaram à paralisia. Ninguém foi capaz de sair andando do hospital, mas eles oficialmente deixaram de ser paralíticos totais para se tornarem paralíticos parciais. E ainda estão em recuperação: ninguém sabe até onde podem chegar essas melhoras. Talvez um dia até consigam bater uma pelada.

Talvez seja hora de esquecer o 7 a 1. A Copa começou com um golaço científico do Brasil, diante do qual futebol é café pequeno. A gente não levou a taça, mas, quem sabe, essa seja a hora de ganhar a medalha. Nicolelis é o verdadeiro craque da Copa.

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