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Nós fomos a primeira espécie inteligente a habitar a Terra?

E se outra espécie se tornar inteligente no futuro? Ela saberá que nós existimos? Ou nosso rastro geológico será ínfimo demais para ser percebido?

Se o ser humano desaparecesse em um passe de mágica, quanto tempo a natureza levaria para varrer todos os indícios de nossa existência para baixo do tapete? Madeira se decompõe rápido; casas e prédios de alvenaria demoram um pouco mais. Uma garrafa de plástico dura meio milênio, por baixo. Um bocado de tempo em relação à vida de alguém, sem dúvida – mas um piscar de olhos na escala geológica.

Após vários milhares de anos, tudo que o Homo sapiens deixaria para trás em sua rápida passagem pela Terra (afinal, o que são 200 mil anos perto dos 135 milhões em que mandaram os dinossauros?) acabaria concentrado em uma fina camada compactada de solo – só mais um estrato nos paredões de rocha que os geólogos usam para estimar a idade de fósseis e contar a pré-história [veja uma foto]. Esse estrato pra chamar de seu já tem até um nome não-oficial: “antropoceno”, a época do homem.

A composição química de cada faixa de sedimentos é capaz de responder a muitas perguntas sobre a época e o local em que foi formada. Qual era a composição da atmosfera no período? Já existiam plantas na superfície dos continentes? Ocorreu algum fenômeno natural violento, como uma erupção vulcânica? O que leva à próxima curiosidade: se daqui a milhões de anos o estrato geológico que corresponde à época em que existimos for encontrado pelos cientistas de uma civilização inteligente de outra espécie, eles vão deduzir que nós existimos ao analisá-lo?

Se sua reação imediata foi “sim, é óbvio”, repense. Os dinossauros sobreviveram por 700 vezes mais tempo do que nós sobrevivemos até agora, e mesmo assim os paleontólogos passam um belo sufoco para encontrar fósseis decentes e classificá-los: só conhecemos uma parcela ínfima de todos os répteis gigantes que existiram. Quem garante que os Indiana Jones da Terra pós-humana vão dar a sorte de tropeçar em um crânio ou dente de um primo do chimpanzé que pode durar tão pouco?

Os locais em que costumavam existir cidades seriam sítios arqueológicos potenciais – capazes de revelar que uma sociedade industrial já habitou a Terra –, mas só 3% da área total do planeta é urbanizada. As chances de que alguém cave justamente ali? Bem baixas.

Por outro lado, nós sem dúvida vamos deixar um rastro de poluição atmosférica perceptível. Da Revolução Industrial do século 18 até aqui, soltamos meio trilhão de toneladas de carbono na atmosfera queimando combustíveis fósseis. Há outras pistas que sobreviverão em longuíssimo prazo: por causa da agricultura e do desflorestamento, a erosão aumentou e há mais sedimentos sendo depositados nos corpos d’água. O número de mamíferos de grande porte diminuiu em nossa presença, e o de pequenos animais que prosperaram graças a convivência conosco, como ratos, aumentou. Nós usamos metais pesados a rodo e produzimos substâncias químicas sintéticas únicas.

É o suficiente para o Homo sapiens sair da vida entrar para a história de seus sucessores? Ou as formas de vida inteligentes do futuro vão passar despercebidas por nós? É esse o assunto de um artigo científico publicado por Gavin Schmidt, astrobiólogo da Nasa, e Adam Frank, da Universidade de Rochester. Talvez nossa enorme produção de CO2, por exemplo, seja identificada, mas confundida com uma explosão de supervulcão. Ou então, caso o ser humano dê logo um jeito de produzir energia limpa – algo essencial se quiser evitar sua própria extinção –, ele pode diminuir sua própria pegada ecológica no processo e tornar sua fatia no registro geológico ainda mais imperceptível.

As boas perguntas não param: e se uma civilização inteligente e industrializada tiver prosperado e desaparecido rapidamente em algum ponto dos 4,28 bilhões de anos de vida na Terra, muito antes de nós? Nós ainda não fomos capazes de detectar sua existência hipotética, mas seríamos um dia? Ou seus resquícios seriam tão discretos quanto os nossos se tornarão em um futuro muito distante?

“Gavin e eu não encontramos nenhuma evidência de que uma civilização industrial que não seja a nossa tenha existido”, esclareceu Frank em comunicado. “Mas olhando para o passado com outra perspectiva, emerge um novo conjunto de perguntas: Que pegadas geológicas as civilizações deixam? É possível detectá-las depois que elas somem da face de seus planetas? Essas perguntas nos fazem pensar (…) sobre a ascensão e queda de civilizações em escala planetária.”

Um dia (e esse dia não está tão longe assim), poderemos coletar e analisar amostras de solo substanciais de Marte e Vênus. Sabemos que eles já tiveram condições climáticas mais amenas do que as atuais. Que já foram mais propensos a abrigar vida como a conhecemos. Simulações da nossa própria pegada ecológica podem nos ajudar a procurar pelos sinais de vida certos quando chegarmos lá. Afinal, fazer uma boa descoberta, muitas vezes, é mais do que ter as evidências certas em mãos: é olhar para elas de um jeito que ninguém olhou ainda.

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