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20% dos americanos dizem que não irão tomar a vacina contra covid-19

Apenas 49% afirmaram que certamente vão se vacinar, e 31% ainda não decidiram. Movimentos anti-vacinas preocupam autoridades de saúde, já que por volta de 70% da população precisa estar imunizada para por fim a epidemia.

Por Bruno Carbinatto - 1 jul 2020, 19h00

Há meses, cientistas de vários lugares do mundo vêm correndo contra o tempo para tentar desenvolver uma vacina em tempo recorde que consiga por um fim definitivo à pandemia de covid-19. Enquanto isso, muitos cidadãos aguardam ansiosamente o dia em que, possivelmente, a vida possa voltar ao normal graças à imunização. Mas nem todos compartilham do sentimento, segundo novos dados.

Uma pesquisa divulgada em junho pela agência de notícias Associated Press em colaboração com a Universidade de Chicago mostrou que 20% dos americanos já decidiram que não vão tomar a vacina contra a covid-19 quando ela ficar pronta. Tão surpreendente quanto é o número de pessoas que afirmou ainda não saber se tomarão ou não a imunização: 31%. Somente metade dos entrevistados afirmou que definitivamente se vacinará.

Os resultados também mostraram que pessoas mais velhas e que tiveram familiares ou conhecidos infectados pelo vírus estão mais dispostas a tomar a vacina, enquanto pessoas negras se mostravam mais hesitantes em afirmar isso – algo considerado preocupante, já que a etnia é a que mais morre proporcionalmente no país e corresponde a quase um quarto de todos os óbitos.

Outras pesquisas mostram números semelhantes. Um levantamento feito pela agência Morning Consult mostrou que 14% dos adultos americanos entrevistados afirmaram que definitivamente não tomarão a vacina, enquanto 22% ainda não decidiu. Em outra pesquisa, feita em abril, 23% disseram que não se imunizariam. E o fenômeno não parece ser exclusivo dos Estados Unidos: na França, 26% dos pesquisados responderam a mesma coisa.

Estima-se que 70% de uma população deva estar imunizada para que se crie uma “imunidade de rebanho” que coloque fim definitivo à epidemia naquela região, já que o vírus não encontra mais pessoas suscetíveis para se transmitir e acaba sumindo. Por isso mesmo os números divulgados preocuparam autoridades de saúde e pesquisadores americanos. Em uma recente conferência no Senado do país, o diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos afirmou que o órgão está preparando um esforço para “aumentar a confiança nas vacinas”, mas não deu mais detalhes.

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O fenômeno pode ser explicado, pelo menos em parte, pelo crescimento recente dos movimentos anti-vacinas no país. Apesar de não ser nada novo (o movimento ganhou bastante força no final do século passado, quando um estudo mal feito associou, erroneamente, vacinas e autismo em criança), o ceticismo na imunização vem crescendo ano após ano em território americano – de 2001 pra 2020, esse índice de confiança caiu 10%. Na França, que também mostrou resultados preocupantes sobre a vacina da covid-19, um terço dos habitantes acredita que vacinas em geral não são seguras, segundo dados de 2019.

Impulsionados por teorias da conspiração e fake news divulgadas principalmente pela internet, esses movimentos duvidam da eficácia e da segurança da imunização e protestam contra leis de vacinação obrigatória em estados americanos. O resultado disso é óbvio: com a queda da cobertura vacinal, surtos de doenças preveníveis como sarampo voltaram a pipocar pelos EUA e por outros países desenvolvidos. Em 2019, antes mesmo da pandemia, a Organização Mundial da Saúde chegou a classificar a hesitação em se tomar vacinas como uma das dez maiores ameaças a saúde global. Agora, o novo inimigo desses grupos conspiratórios é a covid-19.

Segundo uma equipe de cientistas americanos que monitora grupos anti-vacinas em redes sociais, as mentiras sobre o coronavírus começaram logo nos primeiros meses da pandemia. Alguns chegavam a afirmar que o vírus não existia ou que os dados sobre casos e mortes eram exagerados. Logo começaram a atacar também medidas de isolamento social ou de prevenção, como o uso obrigatório de máscaras em alguns estados americanos. Em maio, um vídeo conspiratório que simulava o formato de um documentário bateu a marca de 7 milhões de visualizações. Chamado “Plandemic”, o vídeo questionava os dados sobre a covid-19 e afirmava que uma vacina contra a doença poderia causa ra morte de milhões de pessoas pelo mundo. Mais tarde, o YouTube retirou o vídeo do ar por espalhar desinformação.

Mas especialistas afirmam que nem tudo está perdido. Apesar de pessoas extremamente conspiratórias de fato existirem e causarem barulho na internet, a maioria da população não é antivacina convicta, e muitos só precisam de mais informação. Na pesquisa feita pela AP, por exemplo, 7 em 10 pessoas que responderam que não vão tomar vacina disseram que se preocupam com questões de segurança ligadas à rapidez da produção da vacina. “Eu não sou antivacina”, disse Melanie Dries à agência de notícias ao justificar sua resposta negativa. “Mas tomar uma vacina feita em apenas um ou dois anos me faz temer que ela não tenha sido amplamente testada”.

É por isso mesmo que associações, especialistas e outros agentes estão se organizando para montar estratégias de comunicação em redes sociais e no dia a dia para convencer a população geral de que sim, se uma vacina contra a covid-19 for aprovada, ela será segura. Um grupo de 40 especialistas da Universidade da Cidade de Nova Iorque e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres montou um comitê para assessorar iniciativas que visam esse objetivo. Organizações não governamentais americanas como a The Public Good Projects e a The National HPV Vaccination Roundtable já começaram seus projetos de conscientização da população, e outras devem seguir o mesmo caminho.

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