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Aposta sobre Nobel de Física feita há 18 anos se resolve em 2020

E o resultado desanima: não caminhamos muito adiante na tentativa de unificar a teoria quântica de campos e a relatividade geral (a tal "teoria de tudo").

Por Bruno Vaiano Atualizado em 25 set 2020, 18h11 - Publicado em 25 set 2020, 18h08

Físicos adoram apostas. Afinal, fazer previsões confiáveis é a profissão deles: de acordo com a física clássica newtoniana e com a relatividade geral, que também é determinística , se pudéssemos obter dados exatos sobre cada partícula no Universo hoje (e tivéssemos poder computacional suficiente) poderíamos calcular qual seria o estado do cosmos em qualquer ponto no futuro.

Entra em cena a Long Now Foundation (em tradução literal, “Fundação Longo Agora”), criada em 01996 para estimular o pensamento crítico sobre o futuro – e garantir que a Terra, daqui 10 mil anos, seja um lugar melhor do que é hoje. 

Perceba que o ano foi grafado com um zero antes da casa dos milhares. É uma convenção entre os membros da Long Now. Como o mostrador de um relógio digital, que deixa o zero antes do nove porque sabe que logo virá o dez. Um memento mori da passagem inexorável do tempo.  

Para deixar claro o compromisso com o porvir, a Long Now criou, em 02003, o site Long Bets, um oásis de web 1.0 em que você pode fazer apostas sobre acontecimentos que ainda vão demorar um bocado para chegar (é de bom tom que, caso você vença a aposta, doe o dinheiro resultante para alguma instituição que luta por um futuro melhor).

Há algumas apostas interessantes por lá. O físico Freeman Dyson, uma lenda na arena das pesquisas bem fundamentadas sobre vida extraterrestre – a astrobiologia –, apostou US$ 2 mil que o primeiro sinal de micróbio alienígena não será encontrado nem em um planeta, nem em um satélite de um planeta, mas no vácuo do espaço. Dyson morreu sem saber se venceu, os filhos vão arcar com a despesa em caso de derrota.

Este repórter da SUPER está feliz em constatar que, daqui algumas semanas, verá uma das picuinhas se resolver: em 2003, o autor de divulgação científica John Horgan apostou que, até 2020, nenhum Nobel de Física seria entregue a um teórico de cordas ou a qualquer outro físico dedicado a buscar uma “teoria de tudo” – isto é, uma teoria capaz de unificar a teoria quântica de campos e a relatividade geral, que são incompatíveis. O físico Michael Kaku se opôs, e o desafio foi lançado.

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  • O site diz que a aposta já se resolveu a favor de Horgan: a formulação da frase aparentemente não exige que se inclua o Nobel de 2020. Da minha parte, considero o critério estranho, e acho que vale esperar o início de outubro, quando começa a premiação sueca, para ter certeza. De qualquer forma, é altamente improvável que Kaku vença, pois o entusiasmo e a verba dedicados à principal candidata a teoria de tudo – a teoria de cordas – só diminuíram nas últimas décadas.

    O problema capital da física contemporânea é o seguinte: a teoria quântica de campos descreve todo o Universo com base em 17 partículas que interagem por meio de quatro forças fundamentais (o chamado Modelo Padrão). Todo o Universo com uma exceção: o próprio palco em que se apoiam esses campos, que é o tecido do espaço-tempo, descrito pela relatividade geral de Einstein.

    A teoria de cordas é uma estrutura matemática elegante em que as partículas fundamentais deixam de ser puntiformes e se tornam minúsculas cordas. Os padrões vibratórios exibidos por essas cordas dão a elas as características correspondentes a cada partícula do Modelo Padrão.

    A parte promissora é que um desses padrões vibratórios possuí um set de características que corresponderia às esperadas para o gráviton, a partícula hipotética que promoveria a gravidade a uma teoria quântica de campo. A parte pouco promissora é que a teoria de cordas simplesmente não é bem-sucedida em fornecer previsões verificáveis por meio de experimentos. 

    O cômite responsável por conceder o Nobel tem um longo histórico de aguardar a verificação experimental antes de reconhecer um avanço em física teórica. E a verdade é que, embora muitas propostas de teoria de tudo existam e estejam sendo investigadas neste exato momento, elas sofrem todas de uma complexidade matemática difícil de lidar, e só poderiam ser comprovadas com aceledores de partículas que atingem energias muito mais altas que o LHC, o túnel quilométrico localizado na fronteira entre França e Suíça.

    Ou seja: não veremos um Nobel para uma teoria de tudo tão cedo. Triste. Felizmente para nós, porém, outra aposta no Long Bets, realizada em 2008, não se realizou: a de que o LHC ia destruir a Terra até 2018. Pensando em retrospecto, todas as apostas do site parecem um pouco exageradas. Mas quem diria que uma pandemia ia trancar o mundo em casa em 2020, não é mesmo?

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