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Carne produzida em laboratório não é panaceia contra mudanças climáticas

Trocar a carne de boi pela versão sintética reduziria as emissões de metano, mas também provocaria a geração de CO2, diz estudo

Por Guilherme Eler
19 fev 2019, 17h26

A criação do primeiro bife de laboratório, em 2013, empolgou muita gente – dos maiores entusiastas de churrasco aos veganos mais militantes. Usando células-tronco de animais ao invés de cortar um pedaço deles na faca, é possível criar carne e dar a ela um gosto próximo da versão convencional. Tudo, é claro, com uma boa dose de engenharia genética. O processo consiste, basicamente, em coletar células-tronco animais e fazê-las se diferenciar em fibras musculares. As fibras são matéria-prima para criar tecido muscular – a parte do boi que efetivamente comemos. Junte 20 mil dessas fibras e estará pronto um belo hambúrguer sintético.

A carne artificial traz como grande promessa reduzir o impacto ambiental da pecuária. Se fosse possível matar nosso apetite por carne sem precisar confinar tantas vacas, pouparíamos a vida de milhões de animais. Criando menos bichos, diminuiríamos os níveis de metano (CH4), gás eliminado pelo pum das vacas que é 20 vezes mais nocivo, para o aquecimento global, do que o gás carbônico (CO2).

Hoje, os gases de efeito estufa produzidos pelo agronegócio são responsáveis por um quarto do aquecimento global. Boa parte dessa conta cai na dos rebanhos bovinos. Estima-se que manter os atuais 1,5 bilhão de bois e vacas significa emitir tanto CO2 quanto todos os carros do mundo.

A quantidade de metano poupada pela produção de carne em laboratório, porém, pode ser superada a longo prazo pelas emissões de CO2 que resultam do processo. É o que argumenta um artigo científico feito por pesquisadores da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Ainda que a pecuária convencional seja mais prejudicial de imediato, graças à alta emissão de metano, suprir a demanda mundial por carne dentro do laboratório poderia fazer com que a emissão de CO2 não compensasse o esforço.

Em suma: dependendo do tipo de energia utilizada nos laboratórios onde se produz carne sintética – quer ela seja mais ou menos poluente – o ambiente também poderia sofrer muito. Isso acontece porque fontes energéticas de origem fóssil, como o carvão mineral e o gás natural, por exemplo, são muito poluentes. No caso dos Estados Unidos, onde estão a maioria das iniciativas de produção de carne in vitro, 62,9% da energia é gerada por combustíveis fósseis.

O metano tem um impacto no ambiente muito maior que o dióxido de carbono, é verdade. Apesar disso, ele permanece na atmosfera por apenas 12 anos, enquanto o CO2 pode se acumular ao longo de um milênio. “Isso significa que o impacto a longo prazo do metano não é cumulativo [como o do carbono] e pode apresentar diferenças caso as emissões aumentem ou diminuam com o tempo”, explica em comunicado Raymond Pierrehumbert, co-autor do estudo.

Para analisar o impacto de cada método, cientistas recorreram a dados sobre três diferentes métodos de se produzir carne do modelo convencional e quatro tipos de carne sintética. A partir desses dados, eles estimaram a influência que cada forma de produção teria na temperatura do planeta nos próximos 1.000 anos. Suprir a demanda de carne no laboratório, como vimos, se mostrou mau negócio ambientalmente falando.

A chave para que a técnica de fato sirva para aliviar o peso atual que a pecuária tem ao planeta está, portanto, no uso de fontes de energia renováveis. Afinal, de nada adianta salvar a atmosfera do metano das vacas se não fizemos uma forcinha para diminuir a fumaça que sai de nossas chaminés, fábricas ou do escapamento dos carros.

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