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Cientistas encontram o primeiro animal que possui um gene de planta no DNA

Esse trechinho de DNA ajuda o Bemisia tabaci a neutralizar as toxinas dos vegetais que come – e provavelmente chegou nele de carona com um vírus que estava em uma folha mordida.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 2 abr 2021, 17h54 - Publicado em 2 abr 2021, 17h46

O inseto fofo que você vê na foto é uma das piores pragas da agricultura. Ele ataca mais de 600 espécies de plantas e transmite mais de 100 vírus patogênicos a elas. O Bemisia tabaci é duro de matar: come folhas de plantas tóxicas e não fica nem com dor de barriga. Agora, um artigo publicado no periódico Cell explicou o superpoder do inseto de um centímetro: um gene vegetal em seu DNA, que faz com que consiga neutralizar as toxinas das plantas. Trata-se do primeiro caso registrado de transferência de genes entre plantas e animais.

Algumas plantas produzem substâncias tóxicas aos insetos herbívoros – uma estratégia evolutiva para não virar almoço. Para não serem envenenadas pela própria toxina, essas plantas usam o gene BtPMaT1, responsável por produzir uma proteína que transforma o composto em uma molécula inofensiva que pode ser armazenada nas células.

Foi justamente esse gene que os cientistas encontraram no Bemisia tabaci – o único inseto conhecido que incorporou esse inibidor de toxinas. A equipe estima que o BtPMaT1 chegou ao inseto há 35 milhões de anos de carona em um vírus. O tabaci deve ter comido uma folha infectada, e então o patógeno anexou o gene ao DNA do animal quando invadiu suas células. O legal do DNA é que ele é um código de programação universal: qualquer ser vivo lê qualquer gene de qualquer outro. 

“É uma situação extremamente improvável, mas se pensarmos nos bilhões de insetos, vírus e plantas interagindo por milhões de anos, um evento desses poderia acontecer”, diz Ted Turlings, coautor do estudo. “E se o gene adquirido for benéfico aos insetos, ele vai ser favorecido evolutivamente e se espalhar”. 

  • Os pesquisadores começaram analisando o genoma do inseto. Ao encontrar o BtPMaT1, eles conferiram bases de dados internacionais à procura de outros insetos que tivessem o gene, mas não encontraram nada. O gene só era visto em um outro grupo de seres vivos: as plantas.

    Tanto plantas quanto animais já “roubaram” genes de diversos microrganismos. O Thinopyrum elongatum, um primo selvagem do trigo, incorporou o gene de um fungo que o ajuda a combater infecções. A própria mitocôndria, presente nas células eucariontes, já foi uma bactéria independente até ser fagocitada por outra maior e incorporada ao seu metabolismo. No entanto, esse tipo de troca nunca havia sido observada entre animais e plantas.

    Além de identificar o gene no Bemisia tabaci, os pesquisadores ainda encontraram uma maneira de tornar o inseto vulnerável à toxina novamente. Para isso, eles criaram pés de tomate geneticamente modificados para produzir uma molécula específica de RNA. Ao ser ingerida, essa molécula entra nas células do inseto e inibe a expressão do BtPMaT1.

    Após ingerirem as folhas desse pé de tomate, quase todos os insetos morreram. Com o gene herdado da planta impedido de atuar, a B. tabaci perde seu superpoder e volta a ser suscetível à toxina. Essa seria uma maneira de eliminar a praga sem afetar os outros insetos importantes para a polinização.

    Ainda são necessárias mais pesquisas antes de colocar uma planta transgênica anti-tabaci no mercado. No entanto, esse é um bom exemplo de como pesquisas sobre evolução podem ter um impacto prático na economia, que vai além da ciência de base. 

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