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Como o FBI usa árvores genealógicas para prender criminosos

Um assassinato que o FBI investigava havia 30 anos foi resolvido em duas horas. O segredo: montar a árvore genealógica do criminoso usando o DNA de primos que ele nem conhecia. Entenda como a busca por parentes está revolucionando a resolução de crimes.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 21 mar 2022, 11h50 - Publicado em 18 fev 2022, 07h43

Sacramento, capital da Califórnia. Entre 1976 e 1979, os moradores dessa cidade se sentiam dentro de um filme de terror. Agindo sozinho, um criminoso invadia casas (geralmente, de mulheres) durante a noite. Violentava e roubava as moradoras. Quando havia um casal, para garantir que o marido não reagiria, ele deixava o homem de bruços na cama e amarrava uma pilha de pratos às suas costas. Então ameaçava: a qualquer barulho de louça, mataria os dois. Na imprensa, o bandido ficou conhecido como o Estuprador da Área Leste.

Logo no início dos anos 1980, o sul do estado viveu outro pesadelo: um facínora apelidado de Perseguidor Noturno matou pelo menos nove pessoas em um período de dois anos. Assim como o Estuprador da Área Leste, ele estudava as casas antes de invadi-las e quase não deixava pistas.

Ilustração de quadro de investigação com provas e suspeitos.
A polícia só identificou o Golden State Killer em 2018 – após mais de 40 anos de investigação. Doug Firmino/Superinteressante

Hoje sabemos que os dois eram a mesma pessoa:  Joseph DeAngelo, que aí acabaria ganhando um outro apelido, Golden State Killer (o Assassino da Califórnia – “Estado Dourado” é a alcunha da região). Seu último crime foi cometido em 1986. Coincidentemente, o ano em que o primeiro caso policial foi resolvido usando amostras de DNA, no Reino Unido. E esse poderia ser o caminho: DeAngelo usava luvas para não deixar digitais na cena do crime, porém não tomava tanto cuidado com seu esperma, que foi bem preservado em laboratório.

Mas a polícia só identificou o assassino em 2018, após mais de 40 anos de investigação.  Ele era ex-policial e sabia como acobertar pistas. Seu DNA não batia com nenhum dos perfis armazenados na base de dados genéticos de criminosos dos Estados Unidos. O FBI, então, recorreu à genealogista Barbara Rae-Venter.

Ela já usava genética e genealogia para encontrar os pais biológicos de pessoas adotadas, mas resolver crimes era algo novo. Rae-Venter usou a mesma metodologia com a qual estava acostumada: fez o upload dos dados genéticos do Golden State Killer em uma plataforma aberta chamada GEDmatch, que compara trechos de DNA de diferentes pessoas.

Esse tipo de plataforma existe por causa dos testes de ancestralidade. É o serviço prestado por empresas como a AncestryDNA, a 23andMe, e a brasileira meuDNA. Pessoas comuns mandam amostras de saliva com seu material genético, e então essas companhias comparam o DNA delas com a de outros clientes que fizeram a mesma coisa. E voilà: você pode descobrir que a maior parte dos seus genes veio do sul da África; e eventualmente se há um neto bastardo do seu bisavô vivendo no Canadá.   

Cada empresa tem seu banco de dados privado. Já o GEDmatch é uma espécie de “metasserviço”: clientes que fizeram seus testes pela 23andMe, por exemplo, podem baixar seus dados (em Excel) e fazer o upload lá. Outra pessoa, que testou pela AncestryDNA, faz a mesma coisa. O GEDmatch cruza esses dados e, eventualmente, ambas podem descobrir que são primas em terceiro grau (ou seja: que têm um tataravô em comum).

O que ninguém espera, porém, é que o familiar desconhecido seja um criminoso. Rae-Venter fez o upload do DNA do Golden State Killer no GEDmatch para ver se encontrava parentes do assassino. E achou mesmo: algumas pessoas ali tinham semelhança genética o bastante para serem primos de terceiro ou quarto grau do sujeito.

Depois, reconstruiu 25 árvores genealógicas desses parentes usando dados públicos (obituários, registros de casamento, certidões de nascimento etc.), até achar o nome do ancestral comum mais próximo entre todos eles.

Só alguns dos descendentes desse ancestral comum tinham criado seus filhos na Califórnia, o que a levou a uma lista de nove suspeitos. Um dos alelos conhecidos no DNA do Golden State Killer indicava que ele tinha olhos azuis. E só um dos suspeitos mostrava esse fenótipo: um californiano chamado Joseph DeAngelo.

  Pela sequência de crimes hediondos – juntando as atrocidades em regiões diferentes, a soma chegava a 13 assassinatos e 50 estupros conhecidos –, a prisão de DeAngelo foi o primeiro caso de grande repercussão nos Estados Unidos resolvido por meio da genealogia investigativa. Dali em diante, mais de 300 casos já foram solucionados dessa forma nos EUA – algo que só foi possível graças ao crescimento dos testes de ancestralidade.

Decodificando o DNA

“Teste de DNA” é um conceito genérico. Você pode fazer um para descobrir quem é o seu pai ou para pesquisar fatores ligados a uma doença autoimune. Dependendo da finalidade, as técnicas necessárias podem ser tão diferentes quanto um iPhone e um orelhão.

Vale uma revisão do que é o DNA. As células do seu corpo guardam um manual de instruções que ensina a fazer você: a quantidade de dedos em cada mão, a cor do cabelo, quais enzimas digerem o seu almoço. Esse manual vem escrito inteirinho com apenas quatro letras: A, C, T e G. Você leria algo como AATGTGCC… repetido 6 bilhões de vezes. O seu livro de receitas é do tamanho de mil bíblias.      

Essas letras, na verdade, são as bases nitrogenadas adenina, citosina, timina e guanina. E elas estão organizadas em longas fitas de DNA compactadas no núcleo das células. Essas fitas se dividem em 46 emaranhados: os cromossomos. Você recebe 23 da sua mãe e 23 do seu pai.

Os manuais de instruções de todos os seres humanos são praticamente idênticos. Você compartilha 99,9% do DNA com qualquer outra pessoa. O 0,1% que sobra ainda é bastante: uma bíblia inteira de diferença.

Os STRs (abreviação de Short Tandem Repeats) são trechos específicos em que um conjunto de letras se repete. Mesmo antes de os cientistas mapearem o DNA completo de um ser humano (o que só aconteceu em 2003 com o Projeto Genoma Humano), eles já sabiam onde encontrar alguns desses pedaços. O interessante é que os trechos variam bastante de uma pessoa para outra: baseando-se em um conjunto de ao menos 20 STRs, as chances de dois indivíduos não relacionados terem o mesmo perfil é de uma em um quatrilhão – ou menos.

Dá para comparar duas amostras de DNA olhando para esses 20 STRs, sem precisar sequenciar os bilhões de bases nitrogenadas. É assim que funcionam os testes de paternidade. E esse também é o teste mais usado na resolução de crimes via amostras de DNA. Os investigadores do Golden State Killer compararam os perfis de STR do Estuprador da Área Leste e do Perseguidor Noturno para confirmar que se tratavam da mesma pessoa – só não sabiam quem.

A análise de STR resolve a maioria, mas não todos os casos. Um assassino que deixa seu DNA na cena do crime só será pego caso ele tenha sido preso antes: coleta-se DNA de alguns criminosos para averiguar eventuais reincidências.

Nos EUA, esse trabalho começou em 1990, com a montagem de uma base de dados genéticos hoje chamada Sistema Combinado de Índices de DNA (CODIS, na abreviação em inglês). Hoje, ela possui dados genéticos de 19 milhões de pessoas. (Também temos um banco de dados brasileiro de STRs, mas com apenas 127 mil perfis.)

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Mas se aquele tiver sido o seu primeiro crime, o assassino está livre. Ou melhor: estava – porque as coisas mudaram de alguns anos para cá. O DNA de Joseph DeAngelo não estava no CODIS. Ele foi preso graças a um outro tipo de variante genética: os polimorfismos de nucleotídeos únicos (SNPs). Enquanto os STRs são trechos inteiros repetidos de DNA, os SNPs são letras únicas que variam de uma pessoa para outra.

Você pode ter um “A” na quinta linha da 20ª página do seu manual de instruções, enquanto outra pessoa tem um “G” no mesmo local. Os cientistas já têm uma ideia de onde essas diferenças costumam aparecer entre humanos aleatórios, e aí podem olhar apenas para as eventuais semelhanças nesses pontos do DNA para buscar parentes – ou seja, pessoas que também tenham uma letra A na quinta linha da 20ª página. As empresas que fazem testes de ancestralidade analisam 700 mil SNPs.

O método não diz só quem é seu parente, mas também qual é o provável grau de parentesco. Pensa só: se metade do seu DNA veio de cada um dos seus pais, então metade dos seus SNPs também. Você compartilha em média 50% dos SNPs com seus irmãos, 25% com seus tios e sobrinhos, e 12,5% com seu tio-avô e primos de primeiro grau.

Em outras palavras: por mais que o DNA dos criminosos não estivesse na base de dados do governo, pelo menos parte dele estaria disponível no GEDmatch – via DNA de possíveis parentes que fizeram seus uploads lá.   

Match genético

Mas quais são as chances de um primo distante de um assassino ter feito um teste desses, e ele acabar atrás das grades? Vejamos.

Fiz um teste de ancestralidade em dezembro de 2020 (para escrever esta matéria da Super). Quando entrei na ferramenta de busca de parentes, encontrei uma mulher que compartilha 1,28% dos SNPs comigo. É muito: trata-se de uma provável prima de segundo grau. Para efeito de comparação, o maior “match” do Golden State Killer compartilhava apenas 0,81%. Definitivamente não seria difícil me encontrar.

Os detetives genealógicos normalmente precisam de dois matches representativos para chegar ao suspeito – método chamado “triangulação de DNA”. Quando o investigador encontra bons registros familiares, a busca pelo criminoso pode ser questão de poucas horas.

Foi o que aconteceu no caso de William Talbott II*, que matou um casal em 1987. Os jovens faziam uma viagem de van do Canadá aos EUA quando os corpos foram encontrados na estrada. No veículo, os policiais encontraram luvas de plástico usadas pelo assassino, o que permitiu a extração do DNA. Mas não havia uma amostra do DNA de Talbott nos registros policiais.

A polícia passou 30 anos investigando o caso, e nada de aparecer algum DNA que batesse. Em 2018, tudo mudou de figura. Entraram em contato com Cece Moore, uma referência em genealogia genética. E ela identificou o assassino em duas horas. De um sábado.

O processo foi semelhante ao do Golden State Killer. Primeiro, a amostra foi submetida à análise de SNPs. Depois, subiram os dados no GEDmatch, e aí surgiram duas pessoas com segmentos de DNA interessantes: uma com 3,12% de SNPs em comum e outra com 4,06%. Moore reconstruiu a árvore genealógica de cada um separadamente, fazendo buscas nos bancos de dados de cartórios e analisando certidões de nascimento, casamento e passaportes para ver quem era pai de quem.

E olha só: as duas “testemunhas genéticas” em questão eram parentes do assassino, mas não entre si. O objetivo, então, era encontrar algum casamento que unisse as duas famílias. Um dos descendentes dessa união seria o criminoso. E só havia um: William Talbott II.

Thumb de link para infográfico mostrando como a genealogista Cece Moore descobriu a identidade de William Talbott II.
Clique na imagem para abrir o infográfico. Doug Firmino/Superinteressante

DNA de quem?

Vai ficar cada vez mais fácil encontrar pedaços de você na internet. Uma pesquisa de 2018 estima que, com os dados genéticos de apenas 2% da população, é possível descobrir primos de segundo grau em 99% dos casos (pelo simples fato de que cada ser humano tem muitos parentes). Até 2021, 38 milhões de americanos já haviam feito testes de ancestralidade.

Não há perspectiva para a chegada da genealogia forense no Brasil. Em parte porque os testes de ancestralidade ainda estão começando a se popularizar por aqui. Ricardo di Lazzaro Filho, CEO da Genera, uma das empresas que oferecem o serviço, afirma que cerca de 100 mil brasileiros já fizeram o teste – um número baixo se comparado ao dos EUA, mas que tende a crescer: a própria Genera viu a procura aumentar 15 vezes em 2020 em comparação ao ano anterior.

A questão, de qualquer forma, é polêmica. Em 2019, a GEDmatch foi comprada por uma companhia de genética forense, a Verogen. E isso tira um pouco do caráter “comunitário” da iniciativa: ao fazer seu upload lá, afinal, você pode até ajudar na solução de crimes, mas também ajuda (mais) uma companhia a fazer dinheiro a partir dos seus dados – nesse caso, o mais íntimo desses dados, seu DNA.    

Por outro lado, esse tipo de questão pode se tornar irrelevante nos próximos anos. Talvez um dia seu DNA funcione como sua impressão digital – o Estado mantenha o registro dele em seus bancos de dados e pronto. O que importa é outro ponto: a tecnologia já existe, e já ajuda na solução de crimes. Cabe à sociedade decidir qual é a melhor forma de utilizá-la.

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Fontes: Celso Teixeira Mendes Junior, professor do Departamento de Química da FFCLRP/USP; Ricardo di Lazzaro Filho, geneticista e CEO da Genera; Assessoria da meuDNA.

*Talbott II foi condenado em 2019, mas alegou viés por parte do júri. Em dezembro de 2021, a sentença foi revista e uma nova audiência deve ser marcada. Os advogados não questionaram as evidências genéticas ou método usado na investigação genealógica.

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