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Derretimento de gelo na Groenlândia neste século é o maior em 12 mil anos

Sem precedentes nos últimos milênios, o derretimento atual pode levar, no pior dos casos, a um aumento de 10 cm no nível do mar, segundo uma nova pesquisa.

Por Bruno Carbinatto 1 out 2020, 18h40

A Groenlândia é um um enorme território dinamarquês entre a América do Norte e a Europa, com 80% de sua superfície coberta por gelo. Com isso, a região é o segundo maior reservatório de água congelada do mundo, atrás apenas da Antártica. Mas a ilha também é especialmente vulnerável ao aquecimento global, e as décadas recentes vêm mostrando dados cada vez mais preocupantes. Um novo estudo descobriu que o derretimento deste século é o mais veloz já registrado nos últimos 12 mil anos, e, nos piores cenários, poderá elevar o nível dos oceanos em até 10 cm.

A pesquisa, publicada na revista Nature, comparou os dados atuais de derretimento na Groenlândia com uma série histórica desde o início do Holoceno, a era geológica atual em que vivemos, marcada pela expansão e dominação do Homo sapiens no mundo começando há 11,7 mil anos. A ideia era verificar se o aumento atual na perda de gelo poderia ser algo natural, com precedentes na história, ou se de fato é influenciado pela humanidade.

Para termos de comparação, os cientistas usaram a taxa de derretimento registrada entre 2000 e 2018 e extrapolaram até 2100, chegando à conclusão de que o número anual é de 6.100 gigatoneladas perdidas a cada século. Essa taxa só é comparável com um período histórico entre 10.000 e 7.000 anos atrás, quando a placa de gelo chegou a perder 6.000 gigatoneladas em um século especialmente quente por conta do Máximo Termal do Holoceno, um fenômeno climático que elevou as temperaturas na Terra porque o Hemisfério Norte estava recebendo mais energia do Sol. Ou seja: o derretimento atual é o mais rápido já registrado no Holoceno, superando até quando o clima teve uma anomalia histórica.

  • Mas não para aí: 6.100 gigatoneladas/ano é a estimativa feita extrapolando o derretimento que tivemos até agora até o final do século. É muito provável que, até lá, o processo se acelere, por conta das temperaturas subindo. Por isso, estimativas mais otimistas feitas pela equipe – que levam em conta que a humanidade vai diminuir a emissão de gases de efeito estufa como diz o Acordo de Paris – falam em 8.800 gigatoneladas até 2100.

    No pior dos cenários, se nenhuma meta climática for cumprida e as emissões continuarem a subir, a Groenlândia pode perder 35.900 gigatoneladas até o fim do século, quase seis vezes mais do que se perdeu no pior século do Holoceno até agora. Se isso acontecer, podemos esperar um aumento de 10 cm no nível do mar, o que seria desastroso.

    De fato, é o pior cenário possível – mas o problema é que muitas das observações feitas recentemente batem com o esperado nesse pior cenário. Por exemplo: 2019 teve a maior perda de gelo em um único ano já registrada na região, e um estudo recente alertou que, se o aumento da temperatura continuar a piorar drasticamente, a Groenlândia poderia perder todo seu gelo em um período de apenas mil anos.

    O novo estudo mostra que, de fato, a Terra sempre está em mudança quando se trata de variação de temperatura e suas consequências – mas a velocidade em que observamos isso é muito maior atualmente, e por conta da interferência da humanidade.

    A pesquisa, no entanto, tem limitações. Para estimar a perda de gelo da Groenlândia tanto no passado como no futuro, os cientistas usaram dados da região sudoeste da ilha – mas o derretimento nem sempre é o mesmo em todo o território. Nas últimas décadas, as taxas do sudoeste têm sido parecidas com as taxas de toda a Groenlândia, mas não dá para afirmar que sempre foi assim ou que continuará sendo, já que há outros fatores que influenciam o processo em níveis mais locais, como as correntes oceânicas.

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