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E se… a terra tivesse anéis?

Se o Planeta tivesse anéis, as pedras e poeira em órbita mudariam completamente a vida na Terra.

Rafael Kenski

Em uma noite escura, uma mancha surge no céu e começa a crescer. Ela logo assume o aspecto de uma faixa brilhante e colorida, que se expande para o lado, em direção ao horizonte. Ainda faltam algumas horas para o Sol nascer, mas em um planeta cercado por anéis a alvorada começa mais cedo.

Fora a beleza do nascer e do pôr-do-sol, quase tudo na nossa vida seria mais difícil se a Terra tivesse o jeitão de Saturno. Se já tivemos ou não anéis permanece uma polêmica, tanto quanto ainda é uma dúvida como se formaram os círculos em volta dos outros astros do sistema solar (embora menos visíveis, há anéis em Júpiter, Urano e Netuno). As teorias mais aceitas dizem que eles surgiram junto com os planetas, ou que nasceram de colisões entre suas luas. Qualquer que seja o caso, ficamos livres deles.

Mas ainda há uma outra possibilidade: um meteoro que atingisse a Terra poderia nos dar um sistema de anéis.

O impacto causaria explosões em todo o planeta, aumento brutal da temperatura e uma camada de poeira que cobriria a luz do Sol durante cerca de um ano. Grande parte da vida desapareceria, quase toda a humanidade incluída. Porém, quem sobrevivesse passaria a morar em um lugar completamente diferente. Um incrível anel em volta da Terra jogaria sobre nós uma enorme sombra, que mudaria de lugar à medida que o planeta girasse em torno do Sol. Ela se deslocaria entre os trópicos acompanhando o inverno: estaria sobre o hemisfério sul nos meses de junho, julho e agosto e sobre o norte nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. A largura da sombra também mudaria. Nos solstícios, quando ela atingiria seu maior tamanho, a escuridão talvez cobrisse uma faixa que fosse de São Paulo a Maceió.

O anel refletiria os raios solares e diminuiria a quantidade de calor que o nosso planeta recebe. “Todo o clima da Terra seria afetado”, diz o meteorologista Peter Fawcett, da Universidade do Novo México, Estados Unidos. Ele montou, junto com o físico Mark Boslough, dos Laboratórios Nacionais Sandia, também no Novo México, uma simulação em computador do impacto que um anel teria nas condições meteorológicas.

O círculo opaco imaginado pela dupla é um tanto improvável, mas dá uma boa idéia do que poderia acontecer. No modelo, as áreas na sombra do anel ficam muito mais frias e deixam de ceder calor para as demais regiões. A temperatura média da Terra diminui 8 graus centígrados e só ultrapassa os 20 graus em pouquíssimas localidades, como partes do deserto do Saara. As camadas de gelo que hoje estão sobre os pólos se espalham por todos os continentes. Durante o inverno, por exemplo, a temperatura média no Amazonas passa a ser de 10 graus centígrados e toda a região ao sul do Mato Grosso fica debaixo de neve. Quando é inverno no hemisfério norte, o gelo passa a cobrir quase todo o Saara. O esfriamento reduz a evaporação da água e o mundo se torna mais seco. O volume de chuvas diminui em média 71%. Os ventos também se enfraquecem por causa da menor diferença de temperatura entre a linha do Equador e os pólos.

Não é difícil imaginar que a vida na Terra como a conhecemos passaria por maus momentos. As espécies que sobrevivessem ao asteróide precisariam se adaptar às novas condições, mas em contrapartida teriam muito espaço para crescer. “Nessas condições, a evolução acontece de forma rápida”, afirma o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os animais de hoje talvez dessem origem a espécies mais bem adaptadas em algumas dezenas de milhares de anos, uma piscadela em termos evolutivos. As beneficiadas seriam aquelas já adaptadas a viver no frio, como pingüins, ursos e peixes polares. Insetos e pássaros, pela enorme quantidade de espécies que existe hoje, também poderiam desenvolver truques para migrar entre as áreas ou resistir às variações sazonais. Hibernar para fugir do frio seria uma habilidade invejada. Para nós, caçar e pescar seriam boas fontes de alimento, já que plantar e criar animais seria muito mais difícil.

É provável, no entanto, que a brincadeira não durasse para sempre. “Os anéis tendem a se dissipar pela ação de efeitos como a radiação solar ou colisões entre as partículas. Se não houver um outro mecanismo que os preserve, como a ação de um satélite, eles podem desaparecer em alguns meses”, diz a astrônoma Silvia Maria Giuliatti Winter, da Unesp. O cenário montado pela simulação de Boslough e Fawcett se assemelha às eras glaciais que o nosso planeta já teve, em especial a do Eoceno, há 35,5 milhões de anos. A descoberta reforça a idéia ainda bastante controversa de que, durante esse período, a Terra tenha tido anéis gerados pelo impacto de asteróides e que desapareceram 100 mil anos depois. Se o novo anel tiver o mesmo destino, milênios depois o planeta voltaria a ter características muito parecidas com as de hoje. Já os habitantes teriam mudado para sempre.

Bambolê espacial

Pedras e poeira emórbita mudariam completamente a vida no planeta

1 – Um meteoro que atinja a Terra em ângulo oblíquo pode ricochetear e gerar uma nuvem de vapor capaz de lançar grande volume de detritos em órbita. A chance de que um asteróide de 10 quilômetros de diâmetro atinja o planeta nessas condições é de uma a cada 300 milhões de anos

2 – A Terra fica cercada por objetos que variam de pequenos pedaços de poeira até grandes pedras. Algumas escapam para o espaço, outras caem de volta na Terra. Uma parte do material permanece girando em volta do planeta durante um longo tempo

3 – As pedras giram rapidamente, começam a se chocar e, nesse processo, alinham sua trajetória e sua velocidade. Elas tendem a se estabilizar sobre o Equador, numa altura onde a gravidade da Terra não permite que se juntem e formem outra lua

4 – O resultado é um anel girando sempre na mesma posição, que pode variar de tamanho e de transparência. À medida que o planeta orbita o Sol, a sombra do anel se move em um hemisfério diferente