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Morte de George Floyd completa um ano. Veja o que mudou – e o que não mudou

Os números de mortes por policiais não diminuíram nos Estados Unidos. O país tenta equilibrar uma reforma no policiamento com o aumento de homicídios em 2020

Por Maria Clara Rossini 25 Maio 2021, 19h12

Em 25 de maio de 2020, uma jovem caminhava pelas ruas de Minneapolis quando sacou o celular para registrar uma cena assustadora: um policial com o joelho em cima do pescoço de um homem negro, que repete “eu não consigo respirar” enquanto é imobilizado no chão por 9 minutos. O vídeo se espalhou rapidamente nas redes sociais e levou a uma onda de manifestações e protestos no país.

A morte de George Floyd completa um ano hoje. A polícia foi chamada até uma mercearia para verificar a acusação de que o ex-segurança de 46 anos teria usado uma nota falsa de US$ 20. A abordagem policial resultou na cena filmada. De lá para cá, o policial que sufocou Floyd foi condenado por homicídio doloso. Os outros três oficiais envolvidos na abordagem ainda aguardam julgamento. 

O caso de George Floyd deu início aos protestos que fazem parte do movimento Vidas Negras Importam. Mas o gatilho poderia ter sido o caso de Breonna Taylor, jovem negra morta pela polícia em março de 2020, ou o de Trayvon Martin, adolescente negro morto em fevereiro de 2012. Essas vítimas também foram símbolos das manifestações que ocuparam as ruas dos Estados Unidos durante o mês de junho de 2020.

Para além de pedidos por justiça e condenação dos policiais envolvidos nos crimes, a principal demanda do movimento é a redução da violência policial. Apesar da popularização e do reconhecimento do movimento, o número de mortes causadas por policiais não diminuiu nos Estados Unidos. E, em 2021, muitas cidades estão investindo em um aumento do seu efetivo policial.

Medidas tomadas nos Estados Unidos

Após os protestos de 2020, a câmara municipal de Los Angeles votou pelo corte de US$ 150 milhões no orçamento da polícia da cidade, o que equivale a uma redução de 8%. Parte do valor seria direcionado a iniciativas de apoio a comunidades negras e latinas, como programas de contratação e empregos de verão para jovens. A câmara também se comprometeu a estudar alternativas ao policiamento tradicional.

A decisão não se manteve por muito tempo. Na semana passada, a câmara votou pelo aumento do orçamento da polícia, para permitir a contratação de mais 250 oficiais. A decisão ocorreu após Los Angeles registrar um aumento no número de armas e homicídios. Em 2020, 350 pessoas foram mortas na cidade, o maior número em mais de uma década. 

A criminalidade não aumentou apenas em Los Angeles. Nova York registrou 45% mais homicídios em 2020 do que em 2019. O debate político para a eleição do prefeito da cidade está dominado pela pauta da segurança pública. 

Duas causas principais têm sido citadas para explicar o aumento da criminalidade no país. O primeiro ponto é que os Estados Unidos registraram recorde de venda de armas em 2020. Segundo a consultora Small Arms Analytics, 23 milhões de armas foram vendidas no ano passado, em comparação com 14 milhões em 2019. 

A outra causa é a própria pandemia. Ela não só pode ter deixado as pessoas mais inseguras emocionalmente – estimulando a aquisição de armas – como também colocou milhares de cidadãos em situação de vulnerabilidade econômica. Assim como no Brasil, a pandemia de Covid-19 resultou no fechamento de estabelecimentos e ondas de demissões nos Estados Unidos. 

Em entrevista ao New York Times, o chefe do departamento de polícia de Los Angeles Michel Moore concorda que há “moradias e educação abaixo do padrão, famílias destruídas, abuso de substâncias e sistemas que são racistas e problemáticos há gerações”, mas defende que “a solução não é eliminar o policiamento”. 

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Para Marqueece Harris-Dawson, membro da câmara municipal de Los Angeles, o aumento da criminalidade só aumenta a demanda por uma reforma na polícia. De toda forma, a situação coloca os investimentos em policiamento em uma corda bamba, já que os números relativos à violência policial não parecem que irão cair tão cedo.  

  • Violência policial em números

    A violência policial não diminuiu no último ano. Desde a morte de George Floyd, outras 1.078 pessoas foram mortas por policiais nos Estados Unidos – uma média de três por dia. Durante todo o ano de 2020, ocorreram 1.126 mortes por policiais. O número mantém o mesmo patamar de 2019 (1.096) e 2018 (1.144). Em 2021, até o momento, foram 414 mortes.

    Os dados são do projeto Mapping Police Violence, que reúne informações sobre as mortes por policiais nos Estados Unidos. Os números estão divididos por raça, sexo, porte de arma, entre outras características das pessoas mortas. A base de dados foi atualizada no último domingo (23).

    A população negra representa 13% do total de cidadãos americanos, mas corresponde a 27% dos mortos por policiais em 2020. Das 1.126 mortes ocorridas no ano passado, 80 vítimas estavam desarmadas. Dessas, 27 eram pessoas negras, número que inclui George Floyd.

    A situação é ainda mais drástica no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, houve 6.357 mortes por intervenções policiais em 2019, sendo que 80% das vítimas eram negras ou pardas. O Fórum de Segurança Pública ainda não publicou os dados para o segundo semestre de 2020 ou primeiro semestre de 2021, que são os períodos posteriores à morte de George Floyd e manifestações do movimento Vidas Negras Importam.

    O que mudou

    Os números não significam que as manifestações não tiveram efeito. Trata-se de uma das maiores mobilizações populares contra o racismo desde a morte de Martin Luther King. 

    Além de contribuírem para a visibilidade do movimento antirracista para milhões de pessoas, os protestos também fizeram com que diversas empresas se posicionassem e mudassem políticas internas visando a inclusão de pessoas negras. Um caso emblemático nos Estados Unidos foi a substituição do nome do xarope e mistura para panqueca “Aunt Jemima”, que fazia referência a estereótipos racistas.

    Desde a morte de George Floyd, 168 monumentos, nomes de ruas e homenagens a figuras dos Estados Confederados (que foram contrários à abolição da escravidão) foram removidos nos Estados Unidos. O Pentágono baniu o uso da bandeira confederada, que costuma ser utilizada por supremacistas brancos, nas instalações militares do país.

    Um projeto de lei contra a violência policial está tramitando no senado americano. A lei proíbe algumas técnicas de imobilização – como a que matou Floyd – e cria um registro de condutas policiais inapropriadas. O projeto, chamado George Floyd Justice in Policing Act,  já foi aprovado no congresso.

    No dia em que a morte de Floyd completa um ano, manifestantes voltaram às ruas dos Estados Unidos para relembrar o caso. O presidente Joe Biden recebeu membros da família de George Floyd na Casa Branca. 

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