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Mudanças climáticas acentuam a desigualdade econômica, diz estudo

O efeito parece ser menos dramático nas nações mais ricas – algumas até mesmo se beneficiam das temperaturas altas.

Por Ingrid Luisa - Atualizado em 23 abr 2019, 20h37 - Publicado em 23 abr 2019, 20h00

Compreender as causas da desigualdade é o primeiro passo para tentar alcançar um desenvolvimento econômico mais igualitário. Certas causas, porém, podem ser inusitadas. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Stanford, as mudanças climáticas, por exemplo, mantêm forte relação com o problema.

Não é de hoje que cientistas previram que temperaturas mais altas, consequência direta do aquecimento global, terão um impacto maior sobre as pessoas mais pobres e vulneráveis ​​do mundo. O novo estudo indica que isso não é futuro: na verdade, já aconteceu ao longo das últimas décadas.

Publicado no periódico Proceedings of National Academy of Science, o trabalho afirma que, embora a desigualdade entre os países tenha diminuído ao longo dos últimos 50 anos, há uma probabilidade de 90% de que o aquecimento global tenha desacelerado essa queda. Enquanto isso, o efeito tem sido menos dramático nas nações mais ricas – com algumas até mesmo se beneficiando de temperaturas mais altas.

De acordo com os pesquisadores, o principal motivador é a relação oscilante entre a temperatura e o crescimento econômico: o aquecimento global está aumentando o crescimento em países frios e diminuindo o crescimento em países quentes. Por uma uma ironia do destino, a maioria das nações pobres do mundo estão mais quentes.

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“Não estamos argumentando que o aquecimento global criou a desigualdade”, diz Noah S. Diffenbaugh, o autor do estudo.”Mas o aquecimento global é um obstáculo claro ao combate [à desigualdade]“.

De acordo com a pesquisa, “muitos países pobres, além de não compartilharem dos benefícios diretos do uso de combustíveis fósseis, ainda foram especialmente prejudicados pelo aquecimento resultante do consumo de energia dos países ricos”. Ou seja: o aquecimento global causado pelo uso de combustíveis fósseis atrapalhou países que não tiram tanto proveito das vantagens associadas ao seu uso.

Números trazidos pelo estudo apontam que o PIB per capita de Bangladesh foi 12% menor em 2010 devido ao aquecimento global do que teria sido nas duas décadas anteriores. E esse efeito pode ser ainda mais dramático em outros lugares, particularmente em países da África Subsaariana, incluindo Sudão, Burkina Faso e Níger – nesses países, as mudanças climáticas levaram a uma queda de 20% do PIB per capita se comparado a um mundo sem os efeitos das mudanças climáticas.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores fizeram simulações de modelos climáticos, normalmente usadas para prever as condições, ao contrário: aproveitando dados empíricos de estudos já publicados, eles estimaram como seria a economia global de hoje se o mundo não estivesse esquentando ao longo das últimas cinco décadas.

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Dentre os dados usados para basear o modelo está um estudo de 2015, publicado na revista Nature, que projetou uma diminuição de 75% da renda média nos países mais pobres até 2100 em comparação com um mundo sem aquecimento.

Um relatório histórico divulgado em 2018 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão de ciência climática da ONU, mostrou que se as temperaturas globais subirem mais de 1,5 °C até o final do século, os países pobres enfrentarão desafios críticos. Isso inclui a destruição de comunidades inteiras e milhões de mortes prematuras.

É importante destacar que órgãos responsáveis por políticas climáticas já tentaram resolver essa disparidade. As primeiras tentativas incluíram diferentes expectativas de redução de emissões com base no nível de desenvolvimento de cada país. Ou seja, para que as mudanças tenham efeito, os países mais pobres precisam reduzir menos, enquanto os mais ricos precisam chamar a responsabilidade mais para si.

Acontece que, de certa forma, essa abordagem ajudou a alimentar a narrativa de que os EUA, por exemplo, estão pagando demais pela redução das mudanças climáticas, enquanto os países mais pobres estão fazendo menos. Quando, na verdade, os países mais pobres só estão reduzindo menos porque são muito menos responsáveis pelo problema.

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O resultado disso é uma versão mais leve das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”. Nações muito poluidoras, como os americanos, estão mais relutantes em assumir metas maiores em acordos internacionais, deixando o pato para as nações mais pobres. Nada novo.

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