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Nasa aprova missão a Europa, lua de Júpiter que pode abrigar vida

Após décadas de impasses, sonda para explorar o satélite e seu promissor oceano é aprovada — e cientistas, agora, podem trabalhar na construção do projeto.

Amantes da exploração espacial costumam vibrar sempre que escutam alguma novidade sobre Europa. Há várias décadas especialistas têm estudado a ideia de enviar uma sonda para estudar a emblemática lua de Júpiter, que abriga um oceano de água salgada fluindo logo abaixo da grossa crosta de gelo superficial. Está no topo da lista dos locais do Sistema Solar com chance de conter vida alienígena. Mas, até então, o projeto esteve emperrado.

É que, além de sempre ter sido bastante caro despachar naves até Júpiter, as condições ao redor do gigante gasoso não são nada amigáveis. Seu fortíssimo campo magnético prende partículas carregadas que fritam os sistemas das sondas, reduzindo a vida útil para coisa de alguns meses, ou mesmo para um punhado de semanas. Agora, contudo, parece que os empecilhos finalmente foram superados — e a aventura em Europa deve deslanchar.

Isso por que o projeto acaba de passar por um marco importante na burocracia da Nasa que separa uma proposta de missão espacial de uma missão para valer. Ele avançou a etapa chamada oficialmente de Ponto de Decisão Chave C. É um sinal verde da agência de que a missão foi aprovada e que agora os especialistas envolvidos estão liberados para iniciar a fase de implementação. Ou seja: podem finalizar o design da sonda e construí-la de fato.

Batizada de Europa Clipper, a missão deve ser lançada em 2025 com o objetivo de conduzir uma investigação detalhada da lua e de seu misterioso oceano, com profundidade estimada em 170 quilômetros. Como é que tanta água se mantém em estado líquido mesmo em um mundo tão afastado do Sol? Graças ao efeito Júpiter. A gravidade avassaladora do gigante é tão intensa a ponto de interferir na geologia de Europa e manter seu interior aquecido.

De tão quentinho lá dentro, é possível até que o estica e puxa gravitacional crie vulcões submarinos no leito do exótico oceano. São as chamadas fontes hidrotermais: na Terra, elas fervilham de vida mesmo nas profundezas escuras do mar. Para fugir do inferno radioativo que é a magnetosfera de Júpiter, a Europa Clipper vai se inspirar em Juno, a brava missão que explora o gigante gasoso desde 2016. O segredo é não ir com tanta sede ao pote.

Em outras palavras, isso significa que a estratégia de ambas as sondas é não orbitar seus objetos de estudo, Júpiter e Europa, tão de perto. Elas se resguardam em órbitas bastante ovais, em que na maioria do tempo permanecem a uma distância segura dos cinturões que fritam equipamentos eletrônicos. Mas, de vez em quando, elas mergulham sem medo em sobrevoos rasantes no planeta e – em breve, na lua. E aí, é exploração espacial na veia.

A Europa Clipper vai carregar consigo nove instrumentos para investigar diversos aspectos daquele mundo fascinante. Além de obter imagens da superfície em altíssima resolução, as ferramentas vão modelar o campo magnético e, sim, terão um vislumbre do oceano subterrâneo. Um radar vai penetrar o gelo que pode ter dezenas de quilômetros de espessura e chegar com suas ondas de rádio até a água.

Não é o único meio de sondar o interior aquático da lua: o telescópio Hubble flagrou nos últimos anos plumas de água congelada sendo borrifadas para o espaço. Coletar esse material seria uma oportunidade valiosa. Outros mecanismos também fazem um pouco do líquido chegar à superfície. Na próxima década, finalmente, teremos pistas para desvendar mistérios de Europa — e, quem sabe, confirmar se ela abriga, ou não, algum tipo vida alienígena.