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Negacionistas das mudanças climáticas têm novo alvo: modelos de Covid-19

Nos Estados Unidos e no Brasil, grupos anti-ciência que já atacavam modelos climáticos agora estão distorcendo dados para desqualificar pesquisas sobre a pandemia.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 23 abr 2020, 16h01 - Publicado em 15 abr 2020, 18h10

Em meio a pandemia de coronavírus, grupos negacionistas das mudanças climáticas vêm encontrando um novo alvo para desmerecer a ciência: as pesquisas sobre a progressão da doença. Nos Estados Unidos, na Europa e também no Brasil, políticos e ativistas anti-ciência estão distorcendo dados e criando narrativas falsas para tentar desqualificar os modelos do coronavírus – e, por tabela, os modelos climáticos também.

Nos Estados Unidos, um grupo de políticos conservadores chegou a solicitar uma audiência pública na Câmara dos Deputados para discutir os modelos de previsão usados pelo governo do país. Eles argumentam que os modelos estavam exagerando o número de mortes possíveis no país em relação ao observado. 

Acontece que os negacionistas não colocam na conta as intervenções humanas feitas exatamente para evitar os piores cenários – a principal delas é o isolamento social. Antes dos Estados Unidos entrarem em quarentena, os modelos mais usados previam mais de 100 mil mortes no país; agora, esse número já caiu para 60 mil, devido às medidas para mitigar a disseminação da doença. Até o dia 15 de abril, os EUA já somavam mais de 24 mil mortes. Ou seja, os modelos existem justamente para oferecer dados para as autoridades sobre o que poderia ser o cenário caso nada fosse feito.

“Os modelos são tão bons quanto as suposições que inserimos neles, e à medida que obtemos mais dado e os adicionamos, o modelo pode mudar”, explicou, em coletiva de imprensa, Anthony Fauci, imunologista que lidera a resposta do país à pandemia no governo Donald Trump. 

  • Em terras americanas, há ligações entre grupos negacionistas climáticos com os críticos aos cientistas que modelam a pandemia, como relatou o portal E&E News, especializado em cobrir clima. O líder da CO2 Coalition, Patrick Moore, chegou a dizer em seu Twitter que “os modelos computacionais para o coronavírus são tão precisos quanto os modelos que falharam tão miseravelmente em prever o aquecimento global”. A CO2 Coalition é uma organização sem fins lucrativos que advoga, sem base científica, que maiores emissões de gases de efeito estufa não causam o aquecimento do planeta – pelo contrário, elas seriam benéficas para a Terra, segundo a ONG.

    Além de distorcer as informações sobre os modelos do coronavírus, Moore também erra feio sobre os modelos climáticos. Como já mostramos na SUPER, revisões recentes de modelos sobre aquecimento global das últimas décadas mostram que eles vêm acertando bem mais do que errando. Tentar desqualificar os modelos sobe Covid-19 com base na taxa de acertos dos modelos climáticos, então, não é uma boa ideia.

    O portal Desmog, especializado em desmentir fake news sobre as mudanças climáticas, também compilou uma série de ligações entre organizações negacionistas do clima com campanhas de desinformação sobre o coronavírus, que vão desde teorias da conspiração, notícias falsas sobre tratamentos e medidas de prevenção, desqualificação de trabalhos científicos e minimização do problema. No começo da pandemia, por exemplo, o American Council on Science and Health (ACSH), outro grupo negacionista das mudanças climáticas, chegou a dizer que o vírus seria menos danoso do que a gripe e que não iria longe. 

    Por aqui, grupos parecidos também apostam na mesma estratégia. Uma ala de negacionistas vem atacando pesquisas feitas por cientistas sobre a pandemia e advogando pelo fim das medidas de isolamento social. Esse grupo encontra força em alguns políticos e autoridades do país. O nome mais forte dessa ala é do deputado federal e ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS), segundo levantamento feito pela agência de checagem AosFatos. O deputado vem distorcendo dados em seu Twitter para afirmar, erroneamente, que medidas de isolamento social não são efetivas no combate a doença e que elas estariam aumentando o número de casos no país – apesar de as evidências mostrarem o contrário.

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