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O ousado plano da Islândia contra a Covid-19: testar (quase) todo mundo

Quase 10% da população do pequeno país já foi testada, e a letalidade é de apenas 0,5%. Mas a estratégia só funciona por lá por uma combinação de fatores específicos.

Por Bruno Carbinatto 13 abr 2020, 19h31

Com pouco mais de 364 mil habitantes, a Islândia está adotando uma estratégia bastante singular no combate à pandemia: testar grande parte da sua população para Covid-19 – incluindo pessoas sem sintoma nenhum da doença. A iniciativa surge em meio a críticas da oposição sobre a resistência do governo em adotar medidas de isolamento social, mas também vem apresentando bons resultados e oferecendo uma enorme base de dados úteis para entendermos como a Covid-19 se comporta. 

Com mais de 35 mil testes feitos até o dia 12 de abril – o que equivale a quase 10% de toda sua população –, a Islândia é o país com maior número de testes em relação a sua população de todo o mundo. São 86 mil testes por milhão de habitantes, contra 11 mil da Alemanha e quase 10 mil da Coreia do Sul, outros dois países que vem aplicando testes em massa. (A Islândia fica atrás apenas das Ilhas Faroé, um território semi-dependente da Dinamarca, que tem só 43 mil habitantes). Os testes devem continuar sendo feitos até o fim da pandemia, aumentando ainda mais esse número. Há até esperança de se conseguir testar toda a população do país – apesar de ser uma ideia bem distante e pouco realista, como admitem os próprios adeptos dessa linha.

Dois fatores explicam porque a estratégia faz sentido para o país: primeiramente, sua população é extremamente pequena em comparação a outros países europeus, o que facilita a testagem em massa. O outro ponto que explica o fenômeno é o fato de a Islândia ser a sede da deCODE genetics, uma consagrada empresa biofarmacêutica que, há décadas, é referência mundial em estudos populacionais de genética para procurar por doenças. Basicamente, o que a deCODE faz é coletar dados genéticos de grandes populações (2/3 dos islandeses integram sua base de dados atuais) e analisar esses genomas para entender como doenças hereditárias se apresentam e se comportam naquela população. Agora, a empresa está disponibilizando suas tecnologias para testes de Covid-19 na população islandesa.

Os testes no país são divididos em dois grupos. Aqueles que apresentam sintomas são testados no Hospital Universitário Nacional da Islândia, na capital Reykjavík. Entram nessa primeira parte também pessoas que tiveram contatos próximos com indivíduos comprovadamente infectados, estando sintomáticas ou não. Até aí, o cenário não difere muito de outros países, é verdade.

A grande diferença está no segundo grupo. A deCODE genetics está testando voluntários que não apresentam sintomas e que não relataram ter nenhum contato conhecido com um doente. O objetivo é procurar pessoas assintomáticas que tenham sido vítimas da chamada “transmissão comunitária” – quando não dá mais para saber quem infectou quem. Acontece quando um estranho passa o vírus para outra pessoa em um ônibus, por exemplo. 

Até o dia 12 de abril, o Hospital Universitário do país já havia testado 14.673 pacientes, dos quais 1.561 estavam com o vírus, segundo dados do governo. A deCODE genetics, por sua vez, testou 20.774 islandeses. O número de confirmados, obviamente, foi menor, já que a amostragem é aleatória: só 150 destas pessoas portavam o vírus. Mas esses 150 sequer consideravam a possibilidade de estarem infectadas, e poderiam não tomar as medidas necessárias para evitar passar a doença adiante caso não fossem testados.

Além disso, somando as duas amostragens, quase 50% dos infectados dos casos confirmados eram assintomáticos ou apresentam sintomas leves, parecidos com os de um resfriado comum, disse Kári Stefánsson, CEO da deCODE genetics, à CNN (lembrando que o primeiro grupo, aqueles testados no Hospital Universitário, também contava com pacientes assintomáticos, mas que sabiam que tinham tido contato com um doente).

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  • A partir daí, o governo da Islândia conseguiu escolher um caminho um pouco diferente para combater a pandemia. Algumas medidas de isolamento social foram tomadas: aglomerações com mais de 20 pessoas estão proibidas, e estabelecimentos comerciais e de alimentação só podem receber uma fração de pessoas por vez. Mas eles continuam abertos, assim como parte das escolas, empresas e outros estabelecimentos que vêm fechando mundo afora. Em geral, o governo escolheu não apostar em um isolamento muito extremo.

    Por outro lado, os testes em massa estão conseguindo identificar quem está infectado, e assim essas pessoas são colocadas em quarentena total, bem como todos que tiveram contato próximo com elas – e isso inclui assintomáticos. Só 54% das pessoas testadas positivas estavam em auto isolamento antes do resultado sair – as outras 46% estavam andando por aí sem saber que estavam com Covid-19 e que poderiam infectar outras pessoas. Com isso, o país está conseguindo frear o avanço da doença.

    A experiência do país só fortalece uma característica da pandemia que fica cada vez mais evidente com o tempo: pessoas assintomáticas têm um papel bastante relevante na transmissão da doença, diferentemente do que se pensava nos primeiros meses da crise.

    A estratégia do país resultou em números relativamente positivos: os novos casos confirmados por dia estão diminuindo, enquanto os recuperados aumentam. A taxa de letalidade do país também está bem baixa: dos mais de 1700 casos confirmados, só houve 8 óbitos. A detecção precoce ajuda a explicar isso, bem como o isolamento rápido dos infectados para evitar passar a doença para pessoas do grupo e risco.

    Obviamente, a estratégia do governo islandês não é consenso nem dentro do próprio país. Alguns argumentam que o isolamento social deveria ser mais radical por lá, assim como está sendo na maior parte da Europa, para que a disseminação da doença termine por vez. É o que prega a oposição parlamentar, por exemplo.

    Além disso, é bem importante lembrar dos fatores singulares que fazem a Islândia conseguir testar tanta gente assim: uma população menor que a de São Vicente, no litoral paulista, e uma empresa que há décadas faz um trabalho parecido. Dificilmente outros países consegueriam fazer testes nessa mesma escala. De qualquer forma, o exemplo do país nórdico ilustra bem que testes são uma maneira muito efetiva de combater a doença. Alemanha, Cingapura, Hong Kong e Coreia do Sul também estão fazendo testes em massa (novamente, bem abaixo da média islandesa, mas ainda assim com números relevantes) e tem tido resultados bem melhores do que países que limitam seus testes.

    Ou seja, talvez não dê pra todo mundo ser uma Islândia. Mas aumentar o número de testes, pelo que as evidências mostram até agora, é sempre positivo.

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