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O rei dos disparos

Gerald Bull quis usar canhões para lançar satélites e acabou em uma rede de espionagem

Álvaro Oppermann

Linz, Áustria, 1988. No hotel em que estava hospedado, o cientista canadense Gerald Bull esperava impaciente a chegada de um emissário. Era mais um encontro secreto em sua vida. Em pauta, uma perigosa transação internacional de armas. Nesse meio, Bull era tido como um gênio. O emissário chegou com um leve atraso. Vestia um terno escuro e cumprimentou Bull com um frio aperto de mão. Sua voz baixa e sua figura eram o exato oposto à do loquaz e corpulento Bull. Em poucos minutos, um novo aperto de mão selou o acordo. Bull acabara de ser contratado para desenvolver armas para Saddam Hussein, então ditador no Iraque.

A fama de Gerald Bull nos meios militares começou em 1951, quando, recém-saído da universidade, foi trabalhar em Quebec para o centro de pesquisas bélicas do Canadá, o Carde. Em pouco tempo, sua arrogância despertou o ódio dos colegas. O que mais incomodava é que Bull quase sempre tinha razão. O Carde estava pesquisando lançamento de mísseis. “Por que não utilizar canhões para disparar os mísseis?”, disse Bull. Dentro do cano do canhão, eles ficariam protegidos do impacto do disparo por uma concha de madeira. Poucos segundos depois do lançamento, o contato com a atmosfera desintegraria a concha e o míssil seguiria livre o seu curso, em altíssima velocidade.

A idéia foi aprovada e mudou a vida do jovem nerd. Bull virou chefe do seu departamento e, meses depois, casou-se com uma socialite de Quebec. Isso tudo antes de completar 30 anos. Só que o Canadá desistiu dessa linha de projetos militares e, desempregado, Bull foi trabalhar para os Estados Unidos. Em 1961, deu uma recauchutada no projeto e convenceu o Pentágono a adotar canhões para lançar foguetes. O projeto custava 10 milhões de dólares, uma ninharia comparada aos padrões da indústria aeroespacial. Muita gente, no entanto, não gostava de Bull e convenceu os norte-americanos de que o projeto não valia a pena.

Bull resolveu trabalhar por conta própria. No início dos anos 70, a agência de inteligência americana (CIA) interessou-se pelo doutor Bull, um sujeito brilhante, independente e… com muitas contas a pagar. Era caro manter uma socialite. Bull topou a proposta que a CIA lhe fez: desenvolver armas para a África do Sul. O tiro, porém, saiu pela culatra. Havia na época um embargo econômico internacional contra os sul-africanos por causa do regime racista do apartheid, e o negócio havia sido feito por baixo dos panos. Em 1980, Bull foi condenado por tráfico de armas e passou seis meses na cadeia. Quando foi solto, estava quebrado. Sua mulher o deixou e ele teve de procurar trabalho na Europa.

Foi então que propôs aos iraquianos ressuscitar a idéia dos canhões. Desta vez, para o lançamento de satélites ao espaço. Depois do encontro em Linz, o supercanhão começou a ser construído para o Iraque. Uma parte na Inglaterra, as outras na Espanha, Holanda e Suíça. Seus inimigos, contudo, continuavam atentos. Bull começou a notar que alguém entrava em seu apartamento durante sua ausência. Seus papéis eram revistados. Ficou paranóico. Um amigo seu, negociante de armas, finalmente o alertou: o Mossad, serviço secreto israelense, queria matá-lo. Não se sabe se o alerta era verdadeiro, mas em 22 de março de 1990 Bull foi encontrado morto em seu apartamento em Bruxelas, na Bélgica, com cinco tiros. Até hoje o caso não foi resolvido. O supercanhão também morreu com Bull. Suas peças foram confiscadas pelos governos dos países em que estavam sendo fabricadas. Trabalhar para Saddam custou caro a Gerald Bull.