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Paleontólogos encontram primeiro dinossauro sem dentes da América do Sul

Conheça "Bertha", um terópode que viveu entre 70 e 80 milhões de anos atrás cujos fósseis foram achados em Cruzeiro do Oeste, no Paraná.

Por Carolina Fioratti Atualizado em 18 nov 2021, 16h31 - Publicado em 18 nov 2021, 16h28

O T.Rex talvez seja o primeiro dinossauro que venha à sua mente quando falamos em terópodes. A associação não está errada, mas a subordem de dinossauros não se limita a ele. Na verdade, até mesmo as aves entram nesse balaio, provando que há uma grande diversidade nesse grupo de animais.

A diversidade é tanta que há espaço até para o dino banguela Berthasaura leopoldinae. Seus fósseis, que descrevem uma espécie inédita no Brasil, foram encontrados em um sítio conhecido como Cemitério de Pterossauros, localizado em Cruzeiro do Oeste, no Paraná. O estudo completo foi publicado nesta quinta-feira (18) na revista Scientific Reports.

A denominação é uma homenagem tripla: Berthasaura vem de Bertha Lutz, que foi secretária e pesquisadora do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Leopoldinae se refere tanto a Maria Leopoldina, imperatriz que viveu no onde hoje é o museu (e também um entusiasta da ciência), quanto à Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, que teve como tema o Bicentenário do Museu Nacional no Carnaval de 2018. Este é o primeiro terópode a receber um nome feminino.

Bertha tinha cerca de um metro de comprimento e 80 centímetros de altura. Os pesquisadores não chegaram ao seu peso exato, mas estimam que o valor não passasse de dez quilos. O animal possuía espaços entre seus ossos, o que sugere que ele morreu ainda jovem e levaria mais tempo para se desenvolver. 

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As observações foram possíveis graças à boa preservação dos fósseis. Os cientistas do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado, em Santa Catarina, e do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, puderam avaliar os ossos do crânio, mandíbula, coluna vertebral, cinturas peitoral e pélvica e membros anteriores e posteriores. Todos esses detalhes tornam o novo dino um dos mais completos já encontrados no período Cretáceo (145 a 65 milhões de anos atrás) brasileiro. 

Esqueleto de Berthasaura leopoldinae depois de preparado.
Fósseis encontrados em Cruzeiro do Oeste, no Paraná. Reprodução Museu Nacional - UFRJ/Reprodução

Sem dentes

Mas o que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a ausência de dentes do animal. Na verdade, as marcas encontradas nos fósseis sugerem que ele possuía um bico córneo (de queratina), como as aves modernas. Existem outros dinos banguelas, como o Limusaurus inextricabilis, encontrado na China. A diferença é que o dinossauro oriental parecia ter dentes na infância, que eram perdidos ao atingir a maturidade. Bertha, por sua vez, era jovem e já não tinha arcada dentária. Isso torna o animal o primeiro dinossauro edêntulo (sem dentes) encontrado na América do Sul. 

Os pesquisadores ainda não sabem dizer com certeza se Bertha utilizava seu bico para rasgar carne, como gaviões e urubus, ou apenas para cortar material vegetal. A hipótese que prevalece é que o dinossauro era onívoro, ou seja, consumia ambas as coisas. Isso porque, na época em que os fósseis foram datados (entre 70 e 80 milhões de anos atrás), a região em que viviam constituía um grande deserto, com pouquíssima oferta de alimento. É de se esperar que Bertha se alimentasse daquilo que aparecesse pela frente. 

No futuro, é possível que os fósseis do novo dino sejam expostos no Museu Nacional, que planeja uma reabertura total em 2026.

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