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Pensa, louro

Bióloga acha que os papagaios fazem mais do que imitar a voz humana. Eles podem aprender a usar palavras para se comunicar feito gente.

Thereza Venturoli

Você já viu algum animal de estimação que se despede do seu dono à noite desejando-lhe um bom jantar? Ou que sabe contar objetos e dizer a cor de cada um? Pois a bióloga Irene Pepperberg, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, tem um que faz tudo isso. É Alex, um papagaio-do-congo, da espécie Psittacus erithacus, natural da região equatorial da África. “Alex não se limita a repetir palavras, mas as usa para identificar, quantificar e qualificar coisas”, conta Irene. “E aplicar palavras com sentido é sinal de inteligência”, entusiasma-se a pesquisadora. Para ela, os papagaios têm dotes intelectuais semelhantes aos de golfinhos e chimpanzés. Tudo graças a certas áreas do cérebro bem desenvolvidas.

Para o ornitólogo Jacques Vielliard, da Universidade Estadual de Campinas, não se deve comparar a inteligência animal com a humana. “Os papagaios aprendem a fazer associações e têm seu repertório vocal”, diz ele. “Mas só o homem faz abstrações e usa uma linguagem com símbolos.” O pesquisador, que tem uma das dez maiores coleções do mundo de gravações do canto de aves, conta que muitos papagaios não sabem imitar a voz humana. É que as aves da família dos psitacídeos (que inclui também periquitos, araras, cacatuas e maitacas) emitem sons conforme sua estrutura vocal (veja o quadro ao lado). Assim, algumas espécies, como o Amazona aestiva (papagaio-verdadeiro), imitam bem o timbre humano. Mas outras, como o Amazona amazonica (papagaio-do-mangue), não fazem mais que copiar campainhas e buzinas. “De qualquer modo, os papagaios só repetem os sons humanos se estiverem em cativeiro, isolados dos companheiros”, explica Vielliard. “Na natureza, evidentemente, eles usam repertório vocal próprio para se comunicar.”

Sem cordas vocais

Os sons são emitidos por um saco de ar na garganta.

1. O ar passa pela traquéia e pelos brônquios. No meio do caminho existe o saco aéreo.

2. O saco aéreo é oco. Ao passar pelo lado de fora, o ar faz as paredes dele vibrabrem, como a pele de um tambor.

3. O timbre e o tom da voz do papagaio mudam pela contração dos músculos que revestem o sistema fonador.

O Amazona ochrocephala (papagaio-canteiro) é um dos que melhor imitam a voz humana

Do currupaco ao bate-papo

Veja como o papagaio-do-congo Alex é treinado há vinte anos pela bióloga Irene Pepperberg.

1. O papagaio assiste a dois indivíduos manipulando objetos. Um é o treinador, outro, o modelo para a ave.

2. O treinador faz perguntas ao modelo sobre o objeto: o que é isto? Do que é feito? De que cor é?

3. O modelo é aplaudido e premiado quando acerta e repreendido quando erra.

4. O treinador e o modelo envolvem a ave na conversa, fazendo perguntas a ela.

5. Segundo a pesquisadora, a ave aprende as palavras, seu significado e, ainda, o processo de comunicação.

Cada papagaio com a sua voz

A ave imita os sons do bando na mata.

O papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva), existente em todo o território brasileiro, menos na Amazônia, é um dos melhores faladores. É que, na natureza, ele emite um som que parece a sílaba “áu”, de modulação suave. A estrutura harmônica do canto dessa ave – registrada nas linhas paralelas do gráfico ao lado – é semelhante à do homem.

Já o papagaio-do-mangue (Amazona amazonica) é um péssimo conversador. Na mata, emite um grito muito agudo e rápido, como mostra o sobe-desce das linhas do gráfico ao lado, que analisa a voz do bicho. O berro soa como as sílabas “kú-rik”. Isolado, ele tenta copiar os barulhos mais próximos disso, como o de campainhas e latidos estridentes.