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Planta australiana injeta veneno parecido com o de aranhas e escorpiões

O contato com uma gympie-gympie pode causar dor que dura por semanas, e uma nova pesquisa finalmente explicou o que está por trás disso.

Por Bruno Carbinatto 21 set 2020, 20h24

A Austrália é conhecida internacionalmente por sua fauna especialmente mortal – o país possuí espécies de cobras, aranhas, escorpiões, polvos e águas-vivas que figuram entre os mais venenosos do mundo, além de animais que podem te destroçar no meio, como crocodilos gigantes e tubarões-brancos. Como se não bastasse tudo isso, há também um outro ser vivo perigoso para seres humanos: uma planta capaz de inocular um veneno poderoso que causa dor forte por semanas, com um mecanismo de ação parecido com de aranhas e escorpiões, segundo uma nova pesquisa.

A planta em questão é a Dendrocnide moroides, conhecida popularmente como gympie-gympie ou gympie-ferrão. Ela é encontrada na região leste da Austrália e tem fama de perigosa desde a época em que apenas os aborígenes habitavam a região. Isso porque ela é coberta por tricomas – estruturas que lembram pelos finos e pontiagudos em suas folhas – recobertos por uma potente toxina que é injetada caso um desavisado entre em contato direto com a planta. Nas regiões em que elas são encontradas, o governo australiano costuma colocar placas para alertar turistas a não encostar em nada.

Apesar de não ser mortal, o envenenamento causado pela planta gera uma dor intensa. Inicialmente, a sensação lembra a de uma queimadura na região afetada, o que pode durar por horas. Nos dias seguintes, uma sensação latejante pode permanecer, e há casos em que o paciente entra num estado conhecido como “alodinia” por semanas – nessa fase, a dor não é persistente a todo momento, mas volta a aparecer caso a região receba algum estímulo, como contato com um objeto ou mesmo com a água do chuveiro, por exemplo. 

Outras espécies do gênero Dendrocnide também são capazes de causar esse envenenamento, embora com menor gravidade. É o caso da Dendrocnide excelsa, uma árvore conhecida como “gympie-gigante”, já que pode atingir 40 metros de altura. Várias outras plantas também causam queimaduras e dor quando tocadas – algumas existem até no Brasil –, mas nenhuma chega no nível de desconforto das gympies.

University of Queensland / AFP/Divulgação

O veneno dessas plantas, porém, têm sido pouco estudado nos últimos anos. A toxina responsável pela sensação de dor permaneceu desconhecida por muito tempo. Outras plantas que causam desconforto e urticárias ao serem tocadas possuem moléculas como histamina, acetilcolina e ácido metanoico, mas nenhuma dessas causa uma dor tão severa quanto a folha australiana. Isso levou cientistas a acreditarem que o causador da dor seria um agente exclusivo dessas plantas.

Pesquisas anteriores analisaram o veneno produzido por essas plantas e chegaram à conclusão de que a dor intensa poderia ser causada por uma substância chamada moroidina, um peptídeo encontrado apenas nas gympies. Mas estudos mais recentes que isolaram e injetaram a moroidina em humanos mostraram que ela não causa a sensação de dor, reinaugurando o mistério do mecanismo de ação dessa toxina tão peculiar.

  • Agora, porém, uma nova equipe de pesquisadores da Universidade de Queensland parece ter descoberto o segredo para o potencial destrutivo do veneno. Os cientistas isolaram cada um dos componentes e injetaram em camundongos, verificando a resposta causada por cada um. Eles descobriram um grupo de proteínas até então desconhecido, maiores que a moroidina, que causou a sensação de dor nas cobaias. Essas moléculas foram apelidadas de gympietides – combinação de “gympie, o nome da planta, e “peptides”, “peptídeos” em inglês.

    A grande descoberta foi observar que a estrutura tridimensional dessas moléculas é muito parecida com a de neurotoxinas encontradas no veneno de animais como aranhas, escorpiões e moluscos do gênero Conus, que são altamente perigosos. Todos esses venenos parecem interagir com o mesmo receptor em nosso corpo: os canais iônicos das células nervosas, causando assim a sensação de dor. Isso é surpreendente, segundo a equipe, porque nenhuma outra espécie de planta com toxinas tem um mecanismo tão complexo como as gympies, e também porque a evolução levou ao surgimento de uma peçonha parecida molecularmente em seres vivos totalmente diferentes.

    Segundo a equipe, estudar o mecanismo de ação doveneno da planta pode gerar novos conhecimentos sobre a sensação de dor em geral, e abrir caminhos para o desenvolvimento de analgésicos e outros tratamentos contra dores crônicas. Os cientistas acreditam que os gympietides danificam os canais de sódio das células por muito tempo, impedindo que eles cumpram sua função de transportar íons de forma adequada até se regenerarem, o que causa a sensação de dor duradoura.

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