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Qual deve ser a eficácia de uma vacina contra a Covid-19?

Entenda como se calcula a eficácia mínima que um imunizante deve ter – e o que isso tem a ver com a porcentagem da população que precisa ser vacinada.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 11 nov 2020, 15h22 - Publicado em 11 nov 2020, 15h16

Nesta semana, a farmacêutica americana Pfizer, em conjunto com a alemã BioNTech, anunciou que sua vacina para a Covid-19 possui 90% de eficácia contra o coronavírus. A afirmação foi feita em uma nota à imprensa, com base em uma amostra de 94 voluntários. Os resultados ainda não foram publicados. As farmacêuticas esperam concluir o estudo antes de submetê-lo à revisão de outros cientistas.

Dois dias após o anúncio, foi a vez da Rússia. Uma análise preliminar, feita com 20 voluntários, indicou eficácia de 92%. O imunizante russo está sendo desenvolvido pelo Instituto Gamaleya – que, assim como a Pfizer, ainda não publicou estudos científicos sobre sua eficácia.

No final das contas, tudo o que temos são afirmações dos desenvolvedores das vacinas. Na prática, esse nível de eficácia significa que nove a cada dez pessoas que tomam a vacina ficam protegidas contra o coronavírus. Enquanto isso, há um único azarado do grupo que permanece vulnerável à infecção.

Para a comunidade científica, uma eficácia de 90% para a vacina de um vírus respiratório é um valor bem alto. A vacina para a H1N1, por exemplo, tem eficácia entre 60% e 70%. Já outras pessoas ficaram desconfiadas: afinal, ela não deveria proteger todo mundo contra o vírus?

Matemática da imunidade

Nenhuma vacina é 100% eficaz. E nem precisa ser. Para doenças infecciosas, o importante é levar em conta a taxa de reprodução inicial do vírus, também chamada de R0. Ela indica a quantidade de pessoas para as quais um único indivíduo infectado transmite o vírus. No caso do novo coronavírus, esse número é 2 – ou seja, cada pessoa doente passa o vírus para duas outras pessoas, e assim por diante.

A taxa de reprodução também varia ao longo do tempo, dependendo do lugar e das medidas adotadas. Mas, para a vacina, é necessário ter uma média inicial. Você confere mais sobre esse valor e o impacto dele na pandemia nesta reportagem.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define que uma vacina para a Covid-19 deve ter pelo menos 50% de eficácia. Essa porcentagem mínima também é adotada pela Anvisa e FDA (órgão regulatório dos Estados Unidos) antes de aprovar uma vacina candidata. Para chegar nesse valor, o cálculo é feito com base no Teorema do Limiar. Ele indica o mínimo de pessoas que devem estar imunizadas para frear a pandemia. Confira a equação abaixo.

Reprodução/Superinteressante

No caso do coronavírus, que tem R0 igual a 2, essa porcentagem é 50%. Isso significa que, se metade da população estiver imunizada, o indivíduo infectado não conseguirá mais transmitir o vírus para duas pessoas, pois uma delas está protegida. Ele só passa o vírus para mais uma, e aí a epidemia para de crescer. Para que haja diminuição dos casos e mortes, cada infectado deve passar o vírus a menos de uma pessoa, em média.

Dessa forma, para uma vacina com 50% de eficácia, cobertura vacinal deve ser de 100%. Todo mundo precisa se vacinar. Se a eficácia fosse de 40%, seria necessário vacinar 125% da população para frear o vírus, o que é impossível na prática. Por isso, 50% de eficácia é o mínimo aceitável.

Reprodução/Superinteressante

Agora, vamos colocar os valores da Pfizer e Sputnik V na equação. Com uma vacina 90% eficaz, seria necessário imunizar no mínimo 56% da população para estabilizar a epidemia, e uma porcentagem ainda maior para suprimi-la. Quanto mais eficaz, mais fácil controlar a epidemia. Se a eficácia fosse próxima de 100%, seria necessário vacinar metade da população.

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Mesmo assim, vacinar mais da metade da população brasileira (ou do mundo) não é uma tarefa fácil. Independente de qual seja a eficácia, a epidemia só será controlada caso o máximo de pessoas possível tome a vacina. Lembra daquele azarado que tomou a vacina e, mesmo assim, continuou suscetível à doença? A proteção dele depende unicamente da imunidade das pessoas ao seu redor. Por isso é importante que haja uma campanha de vacinação em massa para proteger todas as pessoas da infecção.

Não há como obter uma vacina totalmente eficaz porque nem todo mundo pode tomar vacinas. “Existem as pessoas com algumas comorbidades, como pessoas que têm o vírus HIV, que já tem o sistema imune debilitado e não podem tomar algumas vacinas” diz Luiz Almeida, microbiologista do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e membro do Instituto Questão de Ciência. “Os humanos respondem de maneira diferente. Os 100% de eficácia não ocorrem do mundo real, mas 90% já é um bom sinal”.

Eficácia de outras vacinas

O surgimento da vacinação foi um dos maiores avanços da história da saúde pública. Dezenas de doenças estão controladas graças a um esforço coletivo de vacinação ao redor do mundo. O Brasil pode se orgulhar por ter um dos maiores programas de vacinação do planeta, o Programa Nacional de Imunização (PNI).

Por aqui, as vacinas foram as responsáveis por erradicar a poliomielite (que pode causar paralisia infantil), rubéola, difteria e sarampo. Três doses da gotinha contra a pólio garantem 99% de proteção. Duas doses da vacina tríplice viral (que protege contra caxumba, rubéola e sarampo) passa dos 97% de eficácia. Infelizmente, devido à diminuição da cobertura vacinal nos últimos anos, o vírus do sarampo voltou a circular no Brasil.

O vírus do sarampo é particularmente perigoso porque sua taxa de reprodução é muito alta: sem vacina, cada pessoa infecta em média 14 outros indivíduos. Usando aquela equação que apresentamos antes, a mínima eficácia necessária para uma vacina do sarampo é de 92%. Mesmo com uma vacina tão eficaz, ainda seria necessário imunizar toda a população para conter o vírus. 

Por isso a cobertura vacinal é tão importante. Qualquer deslize pode significar a volta da doença. O Brasil recebeu da OMS o certificado de erradicação do sarampo em 2016, graças à vacinação em massa da população. No entanto, muitos pais deixaram de vacinar os filhos nos anos seguintes, mesmo que a vacina seja oferecida de graça nos postos de saúde. 

Em parte, isso ocorreu porque o sarampo deixou de representar uma grande ameaça, o que fez muitas pessoas relaxarem com o calendário vacinal. Em 2018, o Brasil perdeu o certificado de erradicação após registrar novos surtos.

Como calcular a eficácia de uma vacina

A eficácia da vacina contra o coronavírus só poderá ser comprovada depois que os dados de fase 3 forem aprovados e publicados por revistas científicas. Nessa etapa, milhares de voluntários são divididos em dois grupos: metade recebe o imunizante para a Covid-19, enquanto outra metade recebe um placebo (geralmente uma vacina para outra doença). Os cientistas devem comparar a porcentagem de pessoas que adquiriu a doença em cada um desses grupos para ver se a vacina de fato evitou a infecção.

No caso da Pfizer, 44 mil pessoas participam da terceira fase de testes. Desses, 94 foram diagnosticados com Covid-19. Os resultados divulgados indicam que 90% dos infectados estavam no grupo que recebeu o placebo, enquanto apenas 10% estava no grupo que recebeu a vacina. O anúncio foi feito na segunda-feira.

Antes de publicar o estudo final sobre a eficácia, a Pfizer ainda espera que outras 70 pessoas fiquem doentes para obter resultados mais concretos. Já que não há como prever quando essas pessoas vão pegar o vírus, não sabemos quando os dados serão publicados.

Nesta quarta-feira, o Instituto Gamaleya, da Rússia, anunciou resultados similares. Segundo eles, com base em uma amostra de 20 pessoas que ficaram doentes, 92% pertence ao grupo que recebeu o placebo, enquanto 8% recebeu a vacina. Também não sabemos quando os resultados finais serão publicados.

Após serem submetidos, outros cientistas irão revisar esses dados, e só então temos uma estimativa razoável do quão eficaz é uma vacina. “Mas ainda precisamos ver como ela será no mundo real, que é a fase 4, quando começa a vacinação em massa na população. É possível que a eficácia da vacina mude porque vão ter mais pessoas recebendo a vacina”, diz o pesquisador.

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