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Ser canibal no paleolítico trazia mais trabalho que benefícios

Pesquisa mostra que, para nossos antepassados, comer humanos não era uma saída para a fome - servia mais como um instrumento de controle social

Por Guilherme Eler 7 abr 2017, 18h46

O consumo de carne humana por nossos ancestrais paleolíticos não tem relação direta com a falta de alimento. Ainda que a fome fizesse o homem primitivo enxergar em seus semelhantes uma saída para suprir sua cota diária de proteínas, esse esforço não compensaria o retorno nutricional. É o que afirma um estudo feito na Universidade de Brighton, na Inglaterra, e publicado na revista científica Science Reports.

Um homem adulto de 66 kg poderia fornecer por volta de 144 mil calorias. Só que apenas cerca de 32 mil delas estão nas partes mais, digamos, tragáveis. Esse total corresponde à energia fornecida pelos músculos esqueléticos – partes que provavelmente seriam privilegiadas em um banquete canibal.

Abater um antílope ou um javali, por exemplo, representaria o mesmo ganho energético, com a vantagem de essas serem iguarias bem mais fáceis de obter. Além disso, outras opções de animais da época poderiam ser alternativa de melhor custo-benefício. Segundo o estudo, a carne de um cavalo, por exemplo, representaria um ganho nutricional na casa das 200 mil calorias. Os mais ousados poderiam se arriscar em caças ainda mais rentáveis, como a de ursos (600 mil calorias) ou mamutes, cuja carne dá conta de alimentar 25 homens por um mês.

As presas humanas, por sua vez, antes de virarem jantar de algum cavernoso por aí, ofereceriam resistência ainda maior – o que implica, por si só, em um enorme gasto de energia. Caso tivesse sucesso na luta corpo a corpo, no melhor estilo vale-tudo, o vencedor tomaria para si suprimentos que durariam uma única semana. Esse esforço, segundo James Cole, arqueólogo responsável pelo estudo, não justificaria o canibalismo. “Você teria que armar uma emboscada para caçar essas presas, que não estariam esperando calmamente você acertá-las com uma lança”, disse em entrevista à National Geographic.

No entanto, a prática existiu. E evidências encontradas nas escavações analisadas pelo estudo permitem precisar que, sim, os hominídeos mais antigos se alimentavam de seus semelhantes há pelo menos meio milhão de anos.

A hipótese mais amplamente aceita, inclusive debatida por estudos anteriores, é de que a prática de comer carne humana seria cultural, integrando rituais comumente realizados entre grupos da época. Cole, no entanto, sugere que o canibalismo do período paleolítico tinha apelo mais social, e menos ritualístico. Como se uma coleção de ossos dentro da caverna pudesse servir de aviso a semelhantes que estivessem atrás de encrenca. “ Poderia ser algo como: ‘Temos nosso território, essas pessoas são invasoras e o estão desrespeitando. Precisamos resolver isso de alguma forma’”, explicou em entrevista ao site Motherboard.

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