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Sob o signo do escorpião

Eles são dos animais mais antigos que existem na terra. Quase tudo neles é diferente: o modo de atacar, as vítimas, de comer, de reproduzir-se. Seu veneno é poderoso, mas poucos dispõe dele em quantidade suficiente para matar um homem.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h28 - Publicado em 30 abr 1988, 22h00

Roberto Muylaert Tinoco

São animais de bem pequeno porte: os menores não passam dos 2 centímetros, e os maiores não chegam aos 20. Mas pelo menos no Norte da África, no Oeste mexicano e no sudeste do Brasil eles representam a morte. São os escorpiões, que carregam nas pinças da cauda um veneno que pode ser fatal. Eles se dividem em 1500 espécies, todos apresentando diferenças entre si. Uma delas é fundamental: alguns tem veneno em quantidade suficiente para afetar animais grandes – o homem-, por exemplo. Esse veneno é uma perigosa neurotoxina que, dependendo da quantidade inoculada no corpo da vítima, pode ser fatal.

Para os acidentados por esses escorpiões, a dor é lancinante. Tremores incontroláveis e um típico andar cambaleante são o prenúncio de uma morte que só vai chegar depois de muito sofrimento. O corpo se cobre de suores frios, a face se torna arroxeada e acontecem, então, as derradeiras convulsões. Mas também não é o caso de exagerar o perigo: das 1.500 espécies de escorpiões apenas vinte produzem o veneno em quantidade suficiente para provocar a morte de um homem adulto. Ainda assim, o desenvolvimento do processo dependerá sempre das condições de saúde da vitima e da capacidade do organismo de resistir às toxinas. Isso faz com que esses raros escorpiões sejam especialmente perigosos para as crianças.

Ao contrário das serpentes, que são classificadas em cinco grupos, a partir do tipo de veneno que produzem, os escorpiões perigosos produzem sempre o mesmo tipo, sejam eles do Norte da África, do México ou do Brasil. Convencionou-se chamá-lo neurotóxico porque ele age especialmente sobre o sistema nervoso e a morte é causada por asfixia: os comandos do corpo que controlam a respiração ficam bloqueados. Graças a essa característica, um único soro pode socorrer a vitima da picada de qualquer escorpião e existem mesmo acordos entre os países produtores para que o soro apresente sempre características semelhantes e eficientes em qualquer caso.

A espantosa virulência da picada é apenas uma das muitas particularidades adquiridas por esse animal que vem evoluindo há 400 milhões de anos. Sabe-se que os antepassados dos escorpiões eram maiores. Nesses milhões de anos de evolução, a espécie na verdade mudou pouco externamente e continua capaz de praticar muitas excentricidades. Os atuais escorpiões ainda são animais predominantemente de zonas secas; vivem nos desertos, escondem-se sob as pedras e pedaços de madeira. Mas há os que vivem nas florestas, outros que freqüentam a beira-mar.

É impossível saber desde quando os primitivos escorpiões passaram a contar com glândulas de veneno bem desenvolvidas, associadas ao aguilhão da cauda. Quase nada se sabe da anatomia interna dos pré históricos. Os restos fossilizados daqueles animais mostram apenas os contornos gigantescos de corpos que mediam quase 1 metro de comprimento. O mais antigo de todos foi encontrado na ilha de Gotland, território sueco bem no meio do mar Báltico, mas dele só foram recuperados alguns poucos fragmentos. Paradoxalmente, hoje não há escorpiões na Escandinávia em geral, e na Suécia em particular.

O maior escorpião que existe atualmente é o Pandinus imperator que vive na África Equatorial. Sua couraça negra e luzidia mede quase 20 centímetros e brilha à noite, como uma lembrança inquietante dos seus antepassados gigantes. O que mais impressiona no imperator é a corpulência. Seus palpos -as garras dianteiras- parecem as duas tenazes de um lagostim. A força de seus músculos é surpreendente. Aprisioná-lo entre as pontes de uma pinça é uma experiência inesquecível: as garras do animal dão a impressão de estar “mastigando” o aço.

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Tamanho, força, agilidade, veneno. São as armas do imperator. Tudo Isso é descarregado sobre a vítima, tão logo ela seja encontrada. O gigante se alimenta de ratos, baratas, lagartixas. Embora não seja capaz de causar dano sequer a uma criança o veneno está dimensionado para paralisar apenas essas pequenas vítimas que constituem sua refeição , o imperator provoca verdadeiro pânico entre os nativos da região. Quando é localizado numa aldeia, é impiedosamente morto a pauladas e sempre queimado, pois os nativos acreditam que, depois de morto, seu corpo irá se fragmentar em dezenas de novos escorpiões, menores, que logo crescerão para invadir a aldeia.

Parece uma tolice. No entanto, na raiz de qualquer lenda há sempre um fato real, embora mal interpretado. Nesta também. As fêmeas dos escorpiões — todos os escorpiões, não apenas o imperator não botam ovos. Os filhotes vão sendo paridos já com a aparência de pequenos escorpiões que vão se juntando às dezenas sobre o dorso da mãe. Nesse período, que dura até duas semanas, eles permanecem imóveis e vão utilizando as reservas de alimento feitas enquanto estavam no ovo. Se uma fêmea do imperator carregando os filhotes for descoberta pelos nativos, ela realmente espalhará boa quantidade de pequenos escorpiões, ao ser morta a pauladas dando a nítida impressão de que se transformou neles, magicamente. A lenda, portanto, tem sua explicação lógica.

Outro erro de interpretação do comportamento dos escorpiões fez surgir a lenda de que, em situações extremas, quando não têm como escapar ao fogo, eles se suicidam. Nos povoados mexicanos as crianças costumam brincar com o perigosíssimo Centruroides noxius, um pequeno escorpião amarelo, colocando-o no meio de um círculo de fogo. Elas se divertem vendo o desespero do animal, os golpes a esmo que ele desfere em todas as direções, vibrando o aguilhão tanto sobre o solo quanto sobre o próprio dorso. Quando o animal finalmente morre, por efeito do calor escorpiões não resistem às altas temperaturas—, a gurizada jura que assistiu a um suicídio.

Bobagem. Mesmo que quisesse, o escorpião não conseguiria suicidar-se. Seu aguilhão não tem força suficiente para poder perfurar sua carapaça, e mesmo que conseguisse isso, seria inútil: o escorpião é naturalmente imune a seu próprio veneno. Mas outra lenda que corre sobre eles – a dos casais em dança noturna- não é lenda, é pura realidade. É claro que não se trata exatamente de um baile, nem eles estão se divertindo: é uma estratégia de seus mecanismos de reprodução, dos mais engenhosos que a natureza já produziu.

Os machos não possuem pênis. Assim, o encontro sexual de macho e fêmea ocorre de forma pouco convencional. A manobra começa com o macho entrelaçando suas garras nas da fêmea e arrastando-a para o que se pode considerar um longo passeio. O trajeto, cheio de vai-e-vem, se estende por algumas dezenas de metros. De repente, o macho se detém e dispara pela parte inferior do abdômem dois minúsculos bastonetes que se grudam no terreno, em posição vertical. Em seguida, o macho puxa a companheira, fazendo-a deslizar de barriga sobre eles. Nesse momento acontece a fecundação, pois o ápice de cada bastonete é um pequeno reservatório de sêmen, que entra em contato com a abertura genital da fêmea. Então. se o macho insistir em ficar por ali, apreciando o resultado de sua virilidade, vai se dar muito mal: a fêmea poderá matá-lo e transformá-lo em comida.

Comida, por sinal, é outro capítulo muito especial na vida dos escorpiões. Exclusivamente carnívoros, alimentam-se de insetos e pequenos invertebrados, podendo, algumas espécies, atacar um rato ou outro pequeno vertebrado. São capazes de passar longos períodos sem nenhuma alimentação, certamente devido ao fato de que sua habilidade para capturar presas é limitada. Eles esperam pacientemente, até perceber a proximidade de alguma vítima. Mas, se esta consegue escapar ao primeiro bote, não será perseguida.

Quando capturada, a vitima será firmemente segura pelas pinças dianteiras; se for grande, capaz de escapar, será então ferroada e paralisada pelo veneno. Mas comer é que são elas. Escorpiões não dispõem de mandíbulas convencionais como os outros bichos. O processo varia muito de espécie a espécie, mas de modo geral as partes mais macias da presa são trituradas por um par de quelíceras, liquefeitas e empurradas para dentro do estômago. O corpo da vitima, aos poucos, vai sendo reduzido à massa dos materiais que o escorpião não consegue digerir e então é simplesmente jogado fora.

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Tudo isso configura um processo extremamente demorado. Em compensação, depois de uma refeição dessas o escorpião pode passar um longo período sem precisar outra vez de comida. Sua sobrevivência em face de toda essa frugalidade, não parece nem remotamente ameaçada. Os cientistas fixam o surgimento dos mais longínquos antepassados do homem em algum ponto há 1 milhão de anos; sendo assim. escorpiões são pelo menos quatrocentas vezes mais antigos, e eles já passaram por sucessivas catástrofes planetárias — períodos glaciais, vulcanismos intensos. inundações de continentes inteiros. Passaram por tudo airosamente, e ai estão. belos e fagueiros, dando nome a uma constelação da Via Láctea, e até reverenciados em alguns ramos do misticismo, como, por exemplo, a Astrologia. Não é a toa que cientistas chegam a acreditar que, na hipótese de uma catástrofe nuclear, suficientemente devastadora para inviabilizar as formas de vida mais sofisticadas, os escorpiões seriam uns dos raros sobreviventes. Continuariam a vagar sobre a terra calcinada (para eles um verdadeiro paraíso) num estranho paradoxo: encarados pelo homem como símbolo da morte, seriam então os únicos representantes da vida no planeta.

Os brasileiros mortíferos

Todos os escorpiões são peçonhentos, isto é, produzem veneno e são capazes de inoculá-lo na vítima. No Brasil, duas espécies devem ser temidas, porque tem veneno em quantidade suficiente para matar um homem. Um é o serrulatus, assim chamado por causa da pequena serra que tem na cauda. Ele é amarelo. Seu rival é o bahiensis, com nome derivado do local onde foi descoberto, a Bahia. É marrom-escuro. Ambos pertencem ao gênero Tytius, mas o amarelo é capaz de injetar o dobro da peçonha durante uma picada.

O soro contra picadas de escorpião é produzido pelo Instituto Butantã, em São Paulo, e serve para as duas espécies. A produção do soro começa pela extração da peçonha por meio de um pequeno choque elétrico, que não traumatiza o escorpião. Assim, ele pode fornecer peçonha de três em três semanas. Gota a gota, a peçonha de centenas de escorpiões é acumulada na concavidade de um vidro de relógio e levada a um dessecador a vácuo. Só depois de seca irá produzir o soro, mediante a hiperimunização de cavalos.

Os cavalos recebem doses progressivamente maiores de peçonha. ate que seu soro sanguíneo apresente certo potencial de imunidade. Então o sangue é colhido e o soro é separado, para chegar ao produto final, embalado em ampolas de 5 mililitros. As glândulas de peçonha dos escorpiões mortos também são aproveitadas. Seis mil glândulas (cada escorpião tem duas) fornecem 2,5 gramas de peçonha seca, quantidade que serve para a primeira hiperimunização de um cavalo. Cada cavalo permite, em média, a fabricação de 250 ampolas de soro.

Em cada acidente grave com escorpiões são utilizados quatro ampolas injetadas na veia. A dor da picada pode ser controlada com a imersão do membro atingido em água quente, por ação local de novocaína ou ainda por aplicação endovenosa de gluconato de cálcio a 10%. Antes do atendimento médico e da utilização do soro, a região da picada deve ser resfriada com aplicações de compressas geladas. Isso evitará que a peçonha se espalhe com rapidez pelo corpo.

O bahiensis pode ser encontrado desde a Bahia e Mato Grosso até o Rio Grande do Sul. O serralatus se limita aos Estados de Minas Gerais, Espirito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.

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No Saara, atrás de Escorpiões

O autor deste artigo viajou mais de mil quilômetros, pelo deserto do Saara, a serviço da Universidade de Tenerife (ilhas Canárias). Sua tarefa principal era capturar animais venenosos para a Universidade. Ele aprendeu a montar em camelos e integrou-se a uma expedição militar que patrulhava a região. Eis um breve relato dessa aventura.

Em todos os dialetos falados na região ocidental do Saara só há um nome para escorpião: ElAkram, isto é, O Escorpião. Para mim, O Escorpião só podia ser um animal, 0 Androctonus australis É a espécie mais venenosa do mundo, capaz de matar um homem em menos de quatro horas e um cachorro em pouco mais de cinco minutos. A distribuição geográfica do australis é extremamente irregular. Ainda que no mapa do Saara ele recubra de maneira uniforme o extremo Noroeste do continente africano, quando se está lá, no deserto, as coisas ficam bem diferentes. Em pleno território do australis existem milhares de quilômetros quadrados totalmente desprovidos de animais ou plantas. A única possibiIidade de se achar um reduto de seres vivos, ali, é quando se encontra… um cadáver. A carcaça ressecada de um camelo morto abriga e alimenta muitos insetos; atrás deles vêm seus perseguidores, os escorpiões.

Nosso encontro com o australis foi numa espécie de cemitério de camelos, um local onde foram possivelmente sacrificados-havia meses- os animais doentes ou velhos demais, antes da partida de uma tribo nômade. Numa área de poucas dezenas de metros quadrados, entre pedras, objetos abandonados e cadáveres em decomposição, foram capturados quase cem escorpiões. Oito eram da espécie Androctonus australis. Depois de apanhados com pinças e acomodados separadamente em recipientes de plástico. eles não me pareciam mais tão dignos do temor que causam aos homens do deserto. Aqueles animais me fascinavam por outra razão: era impossível deixar de imaginá-los em suas fantásticas peregrinações noturnas pelo deserto; dezenas de milhas rastreando, apenas com o sentido do olfato, o cadáver distante de um camelo.

Para saber mais:

A estratégia das aranhas

(SUPER número 12, ano 2)

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Mundo deserto

(SUPER número 3, ano 4)

Uma dose de veneno, por favor

(SUPER número 10, ano 6)

A hora do pulo do sapo

(SUPER número 3, ano 7)

Máquinas de criar bactéria

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(SUPER número 4, ano 8)

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