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Transferência de mentes: papo-cabeça

Experimentos com macacos e até pessoas mostram a viabilidade de fazer a mente operar a distância, como os avatares do filme

Texto: Reinaldo José Lopes

Se a capacidade de manipular com perfeição e a distância outro corpo – biológico ou tecnológico – um dia virar realidade, como mostrado no universo futurista de Avatar, o mérito será, em grande parte, de um cientista brasileiro. Estamos falando de Miguel Nicolelis, que trabalha na Universidade Duke, nos EUA, e também coordena o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, no Rio Grande do Norte. Nicolelis e outros pesquisadores andam mostrando que o nosso cérebro é capaz de transformar objetos do mundo exterior em extensões virtuais de si mesmo, manipulando-os como se fossem parte do nosso próprio corpo.

Para entender esse aparente milagre, é preciso lembrar que o cérebro contém uma espécie de “mapa” das regiões do corpo que ele controla voluntariamente. Em geral, quando uma pessoa fica paraplégica ou tem um braço amputado, por exemplo, a “fiação” que chegava até o membro é cortada, mas o mapa cerebral correspondente à região do corpo e aos movimentos dela não some. O plano de Nicolelis é ligar, via eletrodos e rádio, o mapa cerebral desconectado a membros robóticos. Apenas com a “força do pensamento” – ou seja, os impulsos elétricos voluntários do cérebro da pessoa -, seria possível fazê-la mexer o traje robótico e voltar a andar, por exemplo.

Corpo expandido

Acontece que, ao tentar entender como a coisa funcionaria, em testes com macacos, o grupo descobriu que a mesma representação virtual funcionaria no caso de gente com o corpo intacto. Na prática, seria como se a pessoa tivesse um terceiro membro – ou até um segundo corpo, no caso do traje robótico completo. Não é inconcebível que a coisa funcionasse do mesmo jeito se o aparato tecnológico fosse substituído por um “de carne” – um artefato biológico feito para “carregar” a pessoa, como os avatares.

É claro que ninguém sabe muito bem como otimizar a transferência de informação do cérebro do “piloto” para o do avatar de maneira que ele realmente funcione como uma extensão completa da personalidade e do comportamento do dono. Será que haveria a necessidade de um “upload” de longa duração para o cérebro do avatar? Afinal, nossas memórias e nossa personalidade, sem falar nas nossas habilidades físicas, dependem de um longo processo de construção de sinapses (conexões nervosas), altamente dinâmico, entre bilhões de neurônios. Sem construir essa rede antes, não dá para garantir que o controle do avatar biológico seja lá dos mais precisos. Os desafios são gigantes, mas é cedo para dizer que são insuperáveis. Ainda mais quando, segundo o diretor James Cameron, teremos mais 150 anos para vencê-los.