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Vale das Maravilhas: Bíblia de pedras

No Vale das Maravilhas, no sudeste da França, 30 000 símbolos e desenhos recém-decifrados contam uma história que, a despeito da distância, parece ser uma singela versão da mitologia grega.

Gisela Heymann

De um lado, o pico e os lagos do Diabo, o desfiladeiro do Tremor, o lago Negro, o vale do Inferno. Como paisagem, um caos de rochas quase sempre pontiagudas, pouquíssima vegetação, descidas íngremes. O ambiente é agressivo e algo misterioso. De outro lado, os lagos Gêmeos, o lago de Santa Maria, um conjunto de rochas arredondadas, dispostas harmoniosamente, e campos que na primavera se cobrem de pequenas flores coloridas. O clima é pacífico e acolhedor. Esta foi a constatação da epigrafista — cientista que estuda as inscrições e escritas antigas e sua interpretação — Emilia Masson, chefe de missão do CNRS (Centre National pour la Recherche Scientifique) em Paris, na sua única visita à região do Monte Bego, a montanha que define com precisão o limite entre essas duas paisagens antagônicas, em agosto de 1991.

Há centenas de anos, quando os nomes dos rios, lagos e desfiladeiros foram inventados pelos camponeses que habitavam a região, a impressão causada certamente não era diferente. Inúmeras lendas atestavam a morte de aventureiros desavisados que ousavam explorar o Vale das Maravilhas, região povoada por maus espíritos, apontados como responsáveis por secas, enchentes, pestes e tudo mais que se abatesse sobre a população deste atual departamento do sudeste da França, chamado Alpes Marítimos por sua proximidade das montanhas alpinas da Suíça e do Mar Mediterrâneo, a 80 quilômetros da cidade de Nice. Até 1947, o território fazia parte da Itália. Na remota Idade do Bronze, entre 1800 e 1500 a. C., quando a escrita ainda não existia e o homem vivia mais bem integrado à natureza, as paisagens das Maravilhas e de Fontanalba tampouco passaram despercebidas. Elas serviram de livro e de ilustração para o registro de um texto até pouco tempo incompreensível.

As chamadas culturas de Rhône e da Polada, que se supõe tenham ocupado a região nesta época, deixaram inscritos, ao longo dos dois vales, nada menos que 30 000 sinais e desenhos de tamanhos e formas variados, herméticos aos olhos leigos e ameaçadores aos espíritos amedrontados. A tais inscrições, outras 70 000 perfeitamentes inteligíveis foram acrescentadas ao longo dos milênios por individuos da Idade Média, viajantes do século XVI e mesmo por camponeses de um passado recente. O sítio, conhecido pelos arqueólogos como a região do Monte Bego ou como Montanha Sagrada da Idade do Bronze, é um dos maiores do mundo e o que, atualmente, mais chama atenção da comunidade científica européia.Isto porque a professora Emilia Masson, uma simpática iugoslava de sorriso contagiante, discurso apaixonado e um tanto mística — como ela mesma gosta de se definir —, acaba de divulgar sua interpretação das inscrições ditas proto-históricas, isto é, da época imediatamente anterior à invenção da escrita como hoje se conhece. Especialista em tribos indo-européias — populações pré-históricas cuja língua deu origem à maior parte das línguas faladas hoje na Europa, nos países colonizados por europeus e alguns países asiáticos — Emilia não esconde sua admiração “A civilização que habitou a região na Idade do Bronze usou os dois vales para publicar seus conhecimentos sobre o mundo dos deuses e sobre o mundo dos mortais. Nenhuma gravura está disposta de forma aleatória e cada uma delas tem sua razão de existir”. Mais do que isso, a especialista reconheceu nos milenares traços franceses a história não menos antiga deixada pelo poeta grego Hesíodo, há sete ou oito séculos antes da era cristã.”Trata-se da mesma mitologia indoeuropéia, tal como é descrita também na Turquia ou na Itália, só que com arte e técnica próprias”. Não é de hoje que a região do Bego atrai os especialistas.

Desde 1967, o geólogo Henry de Lumley, diretor do Instituto de Paleontologia Humana e professor do Museu Nacional de História Natural, conhecido como Museu do Homem, ambos em Paris, elabora o inventário detalhado de todas as gravuras. com a ajuda de uma equipe de pesquisadores tão pacientes quanto dedicados. “Há muitos anos percebemos que se tratava de uma montanha sagrada para aquela civilização”, explica De Lumley. “Os homens talharam as rochas com elementos que simbolizavam suas crenças.”Sessenta por cento dos desenhos são os chamados corniformes — cabeças de touro com chifres que variam de tamanho, de espessura e estilo, conforme a simbologia que representam. Mesmo as formas mais complexas, como os deuses inscritos nas estelas principais, são, freqüentemente, compostas de diversos corniformes. O segundo maior grupo de inscrições são as armas e as ferramentas. Punhais e outras armas brancas estão dispostos por todo o Vale das Maravilhas, embora haja poucos em Fontanalba. “Foi estudando o tamanho e as formas destas ferramentas que pudemos concluir que os desenhos datam do início da Idade do Bronze”, explica o geólogo. “As datações com carbono-14 confirmaram nossas suspeitas.” Figuras geométricas, geralmente retângulos divididos em pequenos quadrados, são o terceiro tema preferido pelos homens do Rhône e da Polada.

Eles podem representar a deusa Terra ou simplesmente a divisão de uma fazenda de gado, dependendo da localização e dos desenhos à volta. Apenas 2 por cento das figuras representam o homem. Na maioria dos casos, um pequeno boneco segura a ponta de um arado com dois ou mais bois. “Só agora estamos acabando de classificar todos os desenhos do Bego”, explica Lumley. “Não podemos esquecer que, além destas 30 000 inscrições, que chamo de representativas, outras cerca de 100 000 também foram catalogadas. Trata-se de conjuntos de pontos martelados na pedra que podem significar a chuva que fecunda a terra. por exemplo. Não deixamos nada de lado.”Graças ao trabalho incansável destes cientistas e ao amável convite para abrir o Colóquio Internacional sobre o Monte Bego, em julho do ano passado, dedicado ao célebre historiador francês Georges Dumézil, Emilia Masson, sua discípula e admiradora incondicional, pôde se debruçar sobre o significado e a coerência das imagens pré-históricas. “Traduziu” assim, pela primeira vez, com uma noção de conjunto, as imagens deste imenso livro ao ar livre. “Esta história é um romance”, anuncia ela. “Guiada por uma forte intuição e por uma péssima forma física, minha primeira e única viagem ao Bego confirmou as suspeitas que formulei ao estudar inúmeras fotografias do local.” ” Emilia, que não se cosentia em condições de seguir o caminho mais curto, mas também o mais íngreme, para observar as três estelas principais de gravaras do Vale das Maravilhas, resolveu contornar uma montanha. A altitude da região varia entre 2 200 e 2 600 metros, o que torna a caminhada bastante cansativa Acontece que desta forma refiz, tanto tempo depois, a rota de uma espécie de procissão dos nossos antepassados”. Ao chegar à rocha mais alta, que fica a 2 470 metros, Emilia deparou com as figuras chamadas “homem com braços em ziguezague” e “deusa acéfala”. A partir dai, deduziu-se a história mitológica dos antigos.

Ela diz que o deus Céu se uniu inúmeras vezes com a deusa Terra e que esta união desordenada deu origem a uma descendência excessivamente prolífica e caótica. Então, para que o ato de procriar deixasse de ser uma ameaça à ordem do universo, um dos filhos do casal primordial decide separar seus progenitores, ferindo o pai com um instrumento cortante. E não apenas isso: com medo da própria prole, este filho resolve devorá-la A complicação é que o último filho vivo joga uma pedra na boca do pai e o força a vomitar todos os descendentes que havia engolido. Estes, afinal, se tornam os deuses da terceira geração, incumbidos de governar o novo mundo, povoado por eles e pelos homens.Na literatura do grego Hesíodo. o casal primordial é formado por Urano e Gaia. Seu filho é Cronos, e o filho deste, que salva os irmãos, Zeus. Os deuses da terceira geração são os deuses do Olimpo. Já nas rochas do Vale das Maravilhas, a contraparte de Urano e Gaia é o casal que está na primeira e mais alta estela Cronos, situado mais abaixo, é representado pela figura do “feiticeiro”. Zeus, o deus do trovão, assim como o primeiro homem, estão inscritos na última rocha, a do “chefe de tribo”, ao pé de um riacho. “As três figuras mais importantes deste vale estão situadas num eixo bem definido em relação ao Monte Bego”, conta a professora. “De tal forma que a última estela fica ao pé do riacho, como que para afirmar que a vida nasce da água.A extrema sensibilidade e acuidade visual da cientista fez com que ela ainda distinguisse, ao alto — numa enorme rocha em forma de punhal — uma imagem de cerca de 25 metros de altura, esculpida não se sabe se pelas mãos do homem ou pela natureza. O rosto é idêntico a uma quarta gravura até há pouco considerada de importância duvidosa. Chamada de “Cristo”, por sua semelhança à imagem de Jesus — e por alguns pontos imitando uma coroa de espinhos em volta da cabeça, comprovadamente esculpidos numa época posterior —, a figura estimulou a imaginação de Emilia. “Quando a vi na rocha, fiquei perplexa, pois é uma réplica da grande imagem do deus supremo que reina no Vale das Maravilhas. Estou certa de que nossos antepassados também a viram.”Na mesma rocha, um punhal de 98 centímetros de altura indica o começo da procissão. “É o maior punhal de todo o sitio”, conta a geóloga Odile Romain, do laboratório de Pré-história do Museu do Homem, que, há sete anos, inventaria as ferramentas gravadas no local. Masson não tem dúvida de que o Vale das Maravilhas era o domínio dos deuses, cuja topografia caótica se presta tão bem à realização de possíveis rituais sagrados. “As tempestades são freqüentes e, como as rochas são ferruginosas, atraem os raios, reforçando o clima de mistério”, sublinha Lumley. Além disso, todas as inscrições do vale são estilizadas, e isso parece indicar que dizem respeito ao reino dos imortais. Já gravuras realistas de Fontanalba seriam tão terrenas quanto sua paisagem. Um detalhe reforça essa análise. E que em Fontanalba, ao longo de uma extensa rocha, chamada de via sacra, há dezenas de inscrições, aparentemente semelhantes às das Maravilhas. Seu conteúdo, porém, desfaz a semelhança, já que elas retratam — em oposição às coisas do espírito — os aspectos da vida prática e da rotina dos homens que ali viviam.

Bois em arados, mangueiras de gado e homens brandindo punhais revelam uma organização não muito distante das nossas atuais fazendas de plantação e criação de bovinos, guardadas as proporções. “E impressionante como essas pessoas souberam ocupar os dois vales e como nada foi deixado ao acaso”, diz a epigrafista. “As gravuras da via sagrada, de fato, seguem uma seqüência lógica que vai dos temas mais simples, como algumas ferramentas, aos mais complexos, onde se vê o homem, a ferramenta, os bois no arado e as fazendas.”Tudo isso terminaria por volta de 1500 a. C. A cultura do Rhône desapareceu em condições desconhecidas e abandonou o santuário do Bego. Restou a região de extrema beleza onde as próprias rochas haviam sido polidas por uma rigorosa era do gelo. Há 18 000 anos, 800 metros de gelo cobriam as rochas. Há 8 000 anos, afinal, a região ficou totalmente desimpedida. A partir de agora, devido ao vandalismo as visitas só serão autorizadas se acompanhadas de guias. Assim, este imenso mosaico ficará preservado da, às vezes, bárbara civilização atual.

Para saber mais:

Nas montanhas dos deuses

(SUPER número 10, ano 3)