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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 13 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Nova ‘vacina anual’ contra a Covid não é bem o que parece ser

Por Bruno Garattoni Atualizado em 23 jun 2022, 15h35 - Publicado em 20 jun 2022, 15h49

Imunizante da Moderna foi desenvolvido contra a variante Ômicron original, a BA.1, que já está quase extinta; empresa omitiu esse detalhe ao divulgar os resultados; estudos indicam que imunidade contra BA.1 não se aplica às sucessoras – o que coloca a nova vacina em xeque 

Na primeira semana de junho, o laboratório americano Moderna divulgou os resultados dos testes clínicos com a vacina mRNA-1273.214, a primeira desenvolvida contra a variante Ômicron. Segundo a empresa, a vacina “demonstrou uma resposta de anticorpos superior” se comparada à mRNA-1273, o atual imunizante da Moderna (que, como todos os outros, é baseado no primeiro Sars-CoV-2, o de Wuhan). E  isso, disse a Moderna, permitiria antever uma “proteção mais duradoura contra variantes com a mRNA-1273.214, o que faz dela nossa principal candidata a booster no segundo semestre de 2022″.

Toda a imprensa reportou a novidade, recebida com otimismo. Se finalmente existe uma vacina eficaz contra a Ômicron, e ela oferece proteção duradoura, então talvez seja possível tomar apenas uma dose anual para ficar protegido da Covid – que passaria a ser prevenida com um esquema de imunização similar ao aplicado contra a gripe. Infelizmente, o comunicado da Moderna omite um dado crítico, que muda completamente esse cenário – e coloca a nova vacina em xeque. 

Ao divulgar os dados, a empresa disse que sua vacina foi testada contra “a variante Ômicron” – mas não revelou contra qual Ômicron. A palavra “Ômicron” aparece 18 vezes no comunicado da Moderna, mas em nenhuma delas é dito qual subvariante ela usou para fazer e testar a vacina. Essa omissão destoa do resto do comunicado, que é bem detalhado – e chamou a atenção de alguns cientistas e jornalistas. 

Há um possível motivo para a Moderna não ter divulgado a informação: ela estraga a festa, jogando um balde de água fria sobre a efetividade da nova vacina. A Super entrou em contato com a empresa, nos EUA, e ela confirmou que a variante utilizada nos testes foi a BA.1 – a primeira Ômicron, também conhecida como B.1.1.529, que surgiu no fim do ano passado. A vacina da Moderna contém instruções para que o corpo humano fabrique a proteína spike do vírus Ômicron BA.1, e o sistema imunológico crie imunidade a essa variante. 

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Incidência das variantes da Ômicron nos EUA. Repare como a variante B.1.1.529 (em lilás), a Ômicron original, vai perdendo espaço para as outras e desaparece a partir de abril. Centers for Disease Control/Reprodução

O problema é que ela já está praticamente extinta. Na Europa, a BA.1 representa apenas 0,3% dos novos casos de Covid. As variantes mais comuns são a BA.2 (com 53%) e a BA.2+L452X (18,7%), seguidas pela BA.5 (19,6%). Nos Estados Unidos, o cenário é o mesmo, com domínio das variantes mais recentes – e a Ômicron original respondendo por 0,0% dos casos. No Brasil, os dados não são tão precisos, mas aparentemente a tendência é a mesma, com domínio das variantes BA.2, BA.4 e BA.5

Em suma: a Ômicron BA.1 já era. Ela simplesmente não conseguiu competir com as variantes mais recentes e contagiosas. A BA.2 domina, com BA.4 e BA.5 crescendo rapidamente. Você deve estar se perguntando: mas a nova vacina da Moderna, mesmo tendo sido feita com a BA.1, pode oferecer alguma proteção melhorada contra essas Ômicrons mais recentes, certo? Não. Aparentemente, não. 

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Um estudo realizado por cientistas chineses, e publicado sexta-feira na revista científica Nature, demonstrou que as variantes BA.2.12.1, BA.4 e BA.5 apresentam “forte escape” dos anticorpos gerados pela exposição à Ômicron original. Isso confirma parcialmente os resultados de um estudo feito pela empresa alemã BioNTech (que desenvolveu a vacina da Pfizer junto com a empresa americana). Ela testou os anticorpos gerados após infecção pela BA.1 – e constatou que eles não conseguem neutralizar as subvariantes BA.4 e BA.5.  

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Proteína spike da Ômicron original (BA.1), e subvariantes posteriores. A região identificada como RBD, ou receptor binding domain, é a responsável pela conexão do vírus às células humanas. Nature Communications/Reprodução

Quem pegou Ômicron BA.1 desenvolve (algum grau de) imunidade contra essa variante, mas não contra as posteriores. E esse fenômeno também afeta diretamente as vacinas: “Boosters [vacinas de reforço] derivados da BA.1 podem não oferecer ampla proteção contra novas variantes”, afirma o estudo chinês.

Resumindo: a nova vacina da Moderna é baseada numa Ômicron antiga e extinta, e provavelmente não imuniza contra as subvariantes posteriores. E isso coloca em dúvida a própria utilidade dela. 

Porque as vacinas atuais, mesmo com toda a evolução das variantes, continuam protegendo bem contra Covid severa. O que falta agora é algum imunizante que possa evitar também a infecção e transmissão do vírus (o que, como explicamos na reportagem O futuro da Covid, deverá exigir vacinas nasais). 

Se a nova vacina da Moderna não faz isso, então para que ela serve? Qual é o sentido de desenvolver um imunizante contra uma Ômicron que não existe mais – e gerar uma proteção que não se aplica às subvariantes mais recentes e comuns? Qual vantagem real a mRNA-1273.214 oferece? 

Procurada pela Super, a Moderna afirmou que pretende “fornecer mais dados sobre outras subvariantes da Ômicron no futuro”. Até que isso aconteça, permitindo que a eficácia da nova vacina seja julgada contra a BA.2 e posteriores, a pergunta fica em aberto.  

Atualização 23/6: A Moderna divulgou um novo comunicado, sobre os resultados dos testes clínicos da nova vacina contra as subvariantes BA.4 e BA.5. De acordo com a empresa, o imunizante demonstrou eficácia: ele aumentou em 5,4 vezes, em média, o nível de anticorpos contra essas duas subvariantes. Porém, segundo a Moderna, esse desempenho é aproximadamente 3 vezes mais baixo do que o apresentado contra a variante BA.1.

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