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Bzzzzz Por Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (ABELHA) A Terra é dos insetos, você só vive aqui porque eles deixam. Um blog para despertar a curiosidade de mamíferos que matam mosquitos e correm de abelhas.

Insetos podem engordar ou emagrecer?

Sim. A descoberta foi feita em 1960, quando uma bióloga descobriu uma mosca obesa.

Por Paula Raile Riccardi 22 dez 2021, 13h07

Texto de Paula Raile Riccardi, pesquisadora em biodiversidade e evolução de insetos e criadora do perfil de divulgação científica @insetopraque nas redes sociais.

Sim. Nos anos 1960, a bióloga Winifred Doane estava trabalhando na Nigéria quando viu uma mosca particularmente roliça. Descobriu que o inseto tinha uma deficiência (um bug, rs) em uma proteína que atende pelo código WTDC1 e participa de uma reação em cadeia bioquímica associada ao acúmulo de gordura. Ou seja: era, efetivamente, uma mosca obesa.

Doane foi uma pioneira no estudo do acúmulo de lipídios em insetos. Nesses artrópodes, os pneuzinhos consistem em um tecido chamado corpo gorduroso – que, além de servir como reserva energética, exerce várias funções centrais no metabolismo, análogas às realizadas por nosso fígado.

Enquanto alguns insetos se alimentam durante todo o ciclo de vida, outros mudam a dieta ou até param de comer completamente na fase adulta, causando alterações do peso corporal.

Há insetos conhecidos como efeméridas ou siriruias que comem e armazenam calorias apenas na fase de ninfa. Durante o processo de metamorfose para a vida adulta, suas peças bucais tornam-se vestigiais e elas deixam de se alimentar, usando as energias exclusivamente acumuladas durante o período não alado. Além das efeméridas, outros grupos de insetos param de se alimentar – como cochonilhas macho e algumas vespas parasitóides. 

Os insetos conseguem jejuar graças ao corpo gorduroso. Durante os estágios imaturos, quando a maioria dos insetos come bastante, é no corpo gorduroso que ocorre a transformação dos principais nutrientes em substâncias de reserva. Essas gordurinhas acumuladas fornecem energia durante os períodos de muda (e troca do exoesqueleto) necessários para o crescimento do organismo, independentemente do tipo de desenvolvimento. 

Nas borboletas e demais insetos holometábolos (como moscas, abelhas e besouros), a muda da lagarta que culmina na forma adulta passa pelo período de pupa—uma mudança radical no corpo do inseto que pode durar de poucos dias a um mês. Durante esse período, a maioria dos insetos holometábolos não se alimenta. Uma curiosidade sobre a muda nos insetos alados (os insetos pterigotos) é que a muda que gera o adulto também representa a última troca do exoesqueleto. Depois disso o inseto não cresce mais.

Nem sempre existe comida abundante na natureza, então a capacidade de ingerir grandes quantidades de alimento faz toda a diferença. Esses elementos determinam a reserva energética e tamanho dos adultos. E muitas vezes tamanho é documento na hora de garantir as gerações futuras. As fêmeas com mais reservas conseguem produzir mais ovos. E em vários sistemas de acasalamento, machos maiores têm vantagem na competição pelo seu par.   

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