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Ilustração da teoria da deriva continental. Deriva Continental Por Sociedade Brasileira de Geologia (SBG) Um blog para terráqueos e terráqueas interessados no que aconteceu nos 4,5 bilhões de anos em que não estiveram por aqui. Feito pela Sociedade Brasileira de Geologia (SBG) em parceria com a Super.

Mesossauro: o réptil que provou a Deriva Continental

O pequeno réptil viveu há 290 milhões de anos. Os seus fósseis são encontrados na Bacia do Paraná, na América do Sul – mas também na costa africana.

Por João Eduardo Campelo Rodrigues, Carlos Roberto dos Anjos Candeiro e Fernanda Maciel Canile Atualizado em 20 abr 2022, 10h35 - Publicado em 15 abr 2022, 15h40

Este é o décimo segundo texto do blog Deriva Continental. Colaboraram na elaboração e edição da matéria: João Eduardo Campelo Rodrigues, Carlos Roberto dos Anjos Candeiro e Fernanda Maciel Canile.

A teoria da Deriva Continental foi proposta pelo meteorologista Alfred Wegener no início do século passado. Dentre as inúmeras evidências observadas por Wegener, destaca-se a presença de fósseis do Período Permiano (entre 290 e 248 milhões de anos atrás), encontrados na América do Sul e África. Dentre esses animais estão os mesossauros, um grupo de pequenos répteis marinhos extintos, com anatomia semelhante aos lagartos atuais.

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Reprodução artística de mesossauros que viveram em ambiente de águas rasas do mar de Irati-Whitehill do Permiano do Gondwana. Luciano Vidal/Divulgação

Os mesossauros viviam em ambientes de águas rasas, como o Mar epicontinental Whitehill-Irati. Ele ficava localizado na porção ocidental do supercontinente Gondwana, há 280 milhões de anos. Este mar foi formado possivelmente no intervalo entre 359 e 251 milhões de anos atrás (períodos Carbonífero e Permiano), quando Gondwana e o Laurásia ainda estão conectados e faziam parte do supercontinente Pangeia.

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Mapa do Gondwana. Em azul a área onde foram depositadas rochas que resultariam na Bacia do Paraná (Brasil) e Bacia do Karoo (África) Lages/Divulgação

A figura acima mostra o supercontinente de Gondwana, há cerca de 250 milhões de anos, com destaque para as áreas onde foram depositadas as bacias do Paraná e do Karoo. As duas bacias, instaladas sobre a mesma placa tectônica do tipo continental, tiveram sedimentação mais ou menos contínua entre o Cambriano (500 milhões de anos atrás) e o Jurássico (130 milhões de anos atrás). Elas foram separadas mais tarde, há 130 milhões de anos, quando a América do Sul se afastou da África como consequência da deriva continental que formou o Oceano Atlântico.

No eixo principal das duas bacias, a espessura máxima do pacote sedimentar é da ordem de cinco quilômetros. A maior parte dos sedimentos é de origem marinha, tendo em vista que o mar invadia o continente acompanhando os afundamentos formados como reflexo da tectônica regional.

Foi no período Permiano que ocorreu uma das maiores extinções em massa do planeta. Ainda não há uma explicação convincente para o fenômeno, sendo associada a diversos eventos que resultaram nesse processo extincional, mas o fato é que uma imensa parte das espécies – principalmente as marinhas – desapareceram, incluindo os mesossauros.

Os restos fósseis desses répteis foram preservados tanto nas rochas sedimentares (argilo-carbonáticas) das bacias do Paraná – no Brasil, Paraguai e Uruguai – como nas rochas sedimentares da bacia de Karoo – na África do Sul e na Namíbia –, mais precisamente nas formações Irati e WhiteHill. A deposição lenta dos sedimentos nessas bacias fez com que a região se tornasse propícia para a preservação de matéria orgânica, o que favoreceu os processos de fossilização.

Esses répteis são os únicos amniotas aquáticos presentes nos registros fósseis nessa região. Esses são indícios fundamentais para inferir a relação entre as rochas das formações Irati (Bacia do Paraná) e Whitehill (Bacia do Karoo). A correlação entre as duas bacias, somada a informações de outros campos das geociências, corroborou para a aceitação da teoria da Deriva Continental. Após muitas décadas de discussão, ela foi confirmada na década de 1960, e foi um dos pilares para o advento da Tectônica de Placas.

Além de auxiliarem a compreender a evolução geológica do Gondwana, os restos de mesossauros podem oferecer explicações sobre o paleoambiente, paleoclima e relações paleoecológicas entre os organismos da época.

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Um fantástico exemplo de registro fóssil bem preservado na Formação Irati foi descrito na região da Serra do Caiapó, no município de Montividiu (estado de Goiás). O mesossauro detalhado no estudo é da espécie Brazilosaurus sanpauloensis. Além do admirável nível de preservação do material, o esqueleto do espécime está quase completo.

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Fóssil do mesossauro Brazilosaururs sanpauloensis, encontrado e descrito por Araújo-Barberena e colaboradores no sítio paleontológico Serra do Caiapó, município de Montividiu-GO Araújo-Barberena et al./Divulgação

O exemplar acima tem o comprimento de aproximadamente 70 cm e demonstra o esqueleto longo e esguio desse réptil. O crânio tem formato triangular, medindo 6,4 cm. Já o pescoço mede 8,5 cm. Uma característica notável são suas costelas mais finas, diferente das duas outras espécies de mesossauros, que têm um esqueleto mais robusto. O fóssil está tão bem preservado que, mesmo quando algumas partes do esqueleto não estão completas, os detalhes são visíveis nos moldes impressos no sedimento.

As principais características dos mesossauros estão relacionadas às suas adaptações para a vida aquática, como o formato da cauda, membros palmados e a posição das narinas, que facilitava a respiração sem emergir. Eles ainda tinham ossos densos e pesados, que são características comuns em vertebrados de águas rasas, pois auxiliam na neutralidade da flutuação.

Ainda que seus atributos limitassem a movimentação em terra, eles apresentavam elementos estruturais nos membros locomotores associados à adaptação para a vida terrestre. A dieta era baseada no consumo de crustáceos e de restos de outros mesossauros mortos. Também já foi sugerido por cientistas que esses animais desenvolveram hábitos canibais em relação aos indivíduos juvenis.

Atualmente são reconhecidas três espécies da família Mesosauridae: Mesosaurus tenuidens (Gervais, 1864); Stereosternum tumidum (Cope, 1886) e Brazilosaurus sanpauloensis (Shikama e Ozaki, 1966), como a de Montividiu. A espécie Mesosaurus brasiliensis foi descrita por MacGregor em 1908 a partir de fósseis provenientes do município de Irati (estado do Paraná) enviados por Israel Charles White. Acontece que, depois, essa espécie foi considerada sinonímia do Mesosaurus tenuidens (Oelofsen e Áraujo,1987), com base em comparações de materiais coletados na África e no Brasil. MacGregor não conhecia a teoria da Deriva Continental e por isso não achou que a espécie encontrada fosse a mesma da África, dada a distância entre os continentes.

Os mesossauros foram alguns dos primeiros amniotas aquáticos a surgirem no registro fóssil. O surgimento do âmnio trouxe uma inovação evolutiva à vida dos tetrápodes no planeta e, com isso, os fósseis de mesossauros contribuem substancialmente nos conhecimentos sobre a história e evolução desses seres vivos. Entender a distribuição e o processo de extinção dos mesossauros, no Permiano vem ajudar a compreender os processos geológicos que atuaram no Supercontinente Gondwana naquele período, além dos impactos dessas mudanças nos organismos biológicos. Daí a importância de estudos e conservação dos geossítios como o de Montividiu (GO). Afinal, estes patrimônios contêm diversos recursos que permitem o entendimento sobre a história natural dos organismos, da Terra e ainda suas relações, gravadas nas rochas.

No entanto, mesmo com sua inegável relevância, os geossítios sofrem perdas significativas, como a exploração dos recursos para mineração e o comércio ilegal de fósseis. A falta de legislação e fiscalização adequada realçam os problemas associados aos sítios geológicos.

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Fontes:

Araújo-Barberena D.C., Lacerda Filho J.V., Timm L.L. 2002. Mesossauro da Serra do Caiapó (Montividiu), GO: Um vertebrado fóssil típico do Paleozóico Superior, importante na história da Deriva Continental. Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil, Brasília: DNPM/CPRM-Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP), 1: 81-85.

Lages L.C. 2004. A Formação Irati (Grupo Passa Dois, Permiano, Bacia do Paraná) no furo de sondagem FP-01-PR (Sapopema, PR). Dissertação (Mestrado em Geociências) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista. Rio Claro, p. 129. 2004.

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