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Mulher Cientista

Por Maria Clara Rossini
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Tábita Hünemeier busca a história da América e da evolução humana no DNA

A #MulherCientista dessa semana já desvendou adaptações evolutivas na população mexicana, a rota de expansão dos primeiros nativos no Brasil e as ondas migratórias dos primeiros humanos na América.

Por Maria Clara Rossini
Atualizado em 3 ago 2022, 11h11 - Publicado em 21 mar 2021, 12h37

A maioria dos pesquisadores procura se especializar em temas específicos dentro de uma área de estudo. Não é tão fácil encontrar alguém que entenda tanto de assuntos tão variados quanto história, genética, antropologia e evolução quanto a bióloga Tábita Hünemeier. Muito do que já foi publicado sobre a imigração humana para a América do Sul tem o dedo dela.

A pesquisadora é especialista em genética de populações – mais especificamente, de populações indígenas. Hoje ela faz parte do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, e fez graduação, mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Durante a maior parte da carreira, Hünemeier trabalhou ao lado do pesquisador Francisco Salzano, pioneiro em genética humana no Brasil.

Graças às conexões de Salzano, ela começou a colaborar com um grupo de geneticistas mexicanos – uma parceria que posteriormente deu origem a um dos trabalhos mais importantes já realizados sobre evolução humana. A equipe detectou uma mutação no gene ABCA1 em povos do México que leva a um acúmulo 30% maior de colesterol nas células. O resultado é um maior índice de doenças como obesidade e diabetes na população mexicana atual.

O gene, que é prejudicial hoje, na verdade era vantajoso para os povos ancestrais do México. Há 8 mil anos, eles domesticaram o teosinto, a espécie ancestral do milho. Com isso, eles abriram mão da diversidade de alimentos obtidos com a caça e coleta e passaram a se alimentar de basicamente um único vegetal.

De início, a mudança levou à desnutrição: embora a monocultura fornecesse uma fonte previsível de alimento, ela não oferecia um leque nutricional muito amplo. Nesse contexto de escassez, quem conseguisse armazenar mais colesterol com menos alimento saía no lucro. Trata-se de uma das primeiras evidências concretas de coevolução entre um processo cultural – domesticação do milho – e variabilidade genética em humanos.

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Essa parceria com pesquisadores do México levou a projetos ainda mais amplos, como o Candela, um consórcio internacional que estuda a diversidade e evolução de populações da América Latina. Hünemeier já fez viagens para os confins da Amazônia para coletar informações sobre as características físicas e sequenciar o genoma de populações indígenas do Brasil. As coletas feitas pelo consórcio já deram origem a diversos artigos publicados ao longo da última década.

Outro trabalho de Hünemeier verificou a evolução da população Xavante, hoje presente no centro-oeste do Brasil. Eles se diferenciaram significativamente da sua população irmã, os Kayapós, em apenas 1,5 mil anos. As mudanças são bastante perceptíveis não só nos genes como nas feições. O motivo foi que um grupo de indivíduos parou de se relacionar com os outros, mostrando evidências de evolução biológica desencadeada por fatores culturais.

Tudo isso foi alavancado com o avanço da genômica – ou seja, do estudo do DNA humano completo. Se antes os geneticistas olhavam para um gene de cada vez (como o ABCA1 nos mexicanos), hoje é possível sequenciar o genoma inteiro por um preço acessível e de maneira rápida. A partir daí, Tábita começa não só a avaliar características específicas, mas toda a história migratória da América.

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Foi com a genômica que a pesquisadora mapeou a expansão dos indígenas pelo território onde hoje fica o Brasil. Ela também participou da pesquisa que identificou a presença dos genes FADs, ligados ao metabolismo de gordura, em todos os nativos americanos, dos inuítes do Canadá à Terra do Fogo. Isso significa que esses genes surgiram quando os primeiros humanos estavam atravessando a Beríngia para chegar na América.

Todos os humanos que povoaram o continente americano chegaram pelo Estreito de Bering – mas não ao mesmo tempo. Um outro estudo de Hünemeier, dessa vez feito com DNA antigo, mostra que houve mais de uma migração para a América. É provável que o povo de Lagoa Santa, onde foi encontrado o crânio mais antigo do Brasil, seja de uma primeira leva migratória. Já os ancestrais dos indígenas brasileiros atuais devem ser fruto de uma segunda leva, que chegou milhares de anos depois.

O conteúdo deste texto é apenas uma pincelada nas pesquisas de Hünemeier. A geneticista ainda estuda seleção natural em populações que vivem na Amazônia, avaliando como o ambiente desafiador da floresta exerceu pressões evolutivas sobre seus habitantes. Devido a pandemia, ela também passou a focar mais na respostas de populações indígenas a doenças, como tuberculose e covid-19.

Atualmente, Hünemeier lidera o maior projeto de sequenciamento genômico da história do Brasil. Nos próximos anos, o projeto DNA do Brasil planeja sequenciar o genoma completo de 100 mil brasileiros – o que vai contribuir ainda mais para pesquisas sobre a saúde e história da população do país.

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