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Oráculo

Por aquele cara de Delfos
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Por que nossa visão é restrita às cores entre o vermelho e o violeta?

Em resumo, porque esses são os comprimentos de onda eletromagnética que alcançam a superfície da Terra após a luz do Sol passar pelo filtro da atmosfera.

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 12 set 2019, 20h47 - Publicado em 9 set 2019, 11h48

A resposta curta, para os apressados: a atmosfera da Terra é particularmente transparente às ondas eletromagnéticas cujos comprimentos se localizam entre as faixas infravermelha e ultravioleta do espectro. Ou seja, nós enxergamos o tipo de luz solar que chega à superfície da Terra – simplesmente porque esse é o tipo de luz que está lá para ser enxergada. A seleção natural não é capaz de estimular o nascimento de animais que enxerguem raios X se essa capacidade não for benéfica para a sobrevivência deles.

Mas este Oráculo dará um relato completo, pois está inspirado nesta manhã.

Era uma vez o Ediacarano, um pedacinho distante da história da Terra, que começou há 630 milhões de anos. Os primeiros animais – ou, para ser mais exato, os primeiros borrões gelatinosos multicelulares que lembram vagamente animais – datam dessa época.

O Ediacarano foi um prelúdio pacífico ao que entendemos por comportamento animal: caçar, buscar abrigo, ficar de tocaia, dar o bote e todo o resto que é exibido nos documentários do Discovery Channel não eram praticados (nem necessários) por lá. Quase não havia vida macroscópica na superfície, e os oceanos pululavam com os ancestrais das águas-vivas, esponjas e carambolas-do-mar.

Essas gosminhas simpáticas se alimentavam majoritariamente por absorção passiva de nutrientes e dependiam mais do sabor das ondas que da vontade própria para se deslocar. O Ediacarano era um mundo em suspensão – algo como a sensação úmida de boiar em uma piscina vazia à noite, ignorar o peso do próprio corpo e ouvir o gotejar da água.

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Essa paz foi perturbada com a chegada do Cambriano. Um desses animais pode ter descoberto uma maneira nova de se nutrir: deglutir outro animal. Não existiam dentes, é claro, tampouco existiam bocas da maneira como entendemos hoje. O importante é que passou a existir o conceito de predação. E ele desencadeou uma corrida armamentista silenciosa – que acabou com a vibe contemplativa.

A seleção natural passou a favorecer a evolução de órgãos especializados na interação com o ambiente. Cascos e conchas, por exemplo, são uma resposta a ameaças do mundo exterior. Mas também havia a necessidade de ir além do alcance do corpo físico. De saber que algo está prestes a acontecer e ser capaz de evitá-lo.

Havia algumas possibilidades. O mundo está mergulhado em uma porção de coisas. Está mergulhado em radiação eletromagnética emitida pelo Sol – a luz. Está mergulhado em ondas mecânicas que se propagam pelo ar e pela água – o som. Está mergulhado em moléculas orgânicas voláteis com aneis aromáticos – os cheiros.

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A radiação é refletida quando bate em um ser vivo, o que revela a posição desse ser vivo. Esse ser vivo se move, e ao se mover, faz as moléculas de água e ar em seu entorno vibrarem – isto é, faz barulho. Esse ser vivo exala moléculas orgânicas voláteis – isto é, cheiros. Visão, audição, olfato. A sensibilidade às pistas que os outros seres vivos deixam por aí permitia caçá-los e também escapar dos caçadores.  

A evolução dos olhos foi, como toda evolução que se preze, gradual: os primeiros órgãos fotossensíveis diziam apenas se estava claro ou escuro. As lentes biológicas demoraram muito para alcançar a resolução 4K com que você vê o mundo. Mas uma coisa não mudou de lá até aqui: nós só detectamos o tipo de luz cuja detecção é benéfica de alguma forma para nossa sobrevivência.

O que nos leva de volta à explicação lá do comecinho. Vale adicionar que a radiação no comprimento de rádio, bem mais longa, também tem uma penetração razoável na atmosfera da Terra. Mas ondas mais compridas têm energias baixas e não interagem com a matéria o suficiente para ter algum valor para a seleção natural.

É claro que outros animais são capazes de enxergar ultravioleta, e as cobras tem sensores infravermelhos para pegar o calor exalado por suas presas. A capacidade de “enxergar” esses comprimentos nasce de pressões evolutivas específicas à adaptação de cada espécie. Se a janela do ser humano é mais limitada que a de um pássaro, é porque para o estilo de vida do pássaro, por qualquer motivo, o ultravioleta é mais valioso. O triste é que nós nunca seremos capaz de saber de que cor são o infravermelho ou o ultravioleta.

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Mas o bacana, mesmo, é a reflexão: a divisão entre plantas e animais é essencialmente uma divisão entre seres vivos que evoluíram recursos para viver em um lugar só e seres vivos que evoluíram recursos para viver em movimentos. Todas as diferenças entre eles – sistema nervoso centralizado, sentidos, cascos etc. derivam dessa distinção básica.

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