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Por que o Biotônico Fontoura dá fome?

Spoiler: não dá. Entenda de onde surgiu esse mito – que tem a ver com Monteiro Lobato.

Por Rafael Battaglia
13 abr 2022, 18h44

Não há nada em sua composição responsável por dar fome. Ele é um suplemento mineral com substâncias que fornecem ferro e fósforo, indicado para quem tem alguns tipos de anemia. 

Mas essa fama tem um porquê. O Biotônico foi criado em 1910 por Cândido Fontoura Silveira, de Bragança Paulista (SP), e era vendido como fortificante. “Para a mulher, a beleza. Para o homem, o vigor.” É o que dizia uma de suas primeiras campanhas publicitárias.

Cândido era amigo de Monteiro Lobato e chamou o escritor para ser editor do Almanaque Fontoura, um livreto com calendários, anedotas, conselhos práticos e manuais (como a indicação das melhores épocas de plantio de diferentes cultivos). Naquela época, era comum que almanaques do tipo fossem distribuídos em farmácias.

Em 1924, Cândido passou a oferecer de brinde um livreto do Jeca Tatu, personagem de Lobato, para quem comprasse o Biotônico. Na história, Jeca estava doente, magro e sem energia. Ao se consultar com um médico, foi diagnosticado com amarelão (ancilostomose, doença causada por parasitas intestinais). O médico, então, receitou um remédio e, de reforço, Biotônico “para abrir o apetite”. 

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Foi uma baita jogada de marketing: a edição teve uma tiragem de milhões de exemplares e consolidou no imaginário popular a ideia que o suplemento dava fome.

Zero álcool

Até pouco tempo atrás, o Biotônico Fontoura levava 9,5% de álcool em sua composição. É mais que uma cerveja pilsen do churrasco do fim de semana (4,7%), por exemplo. Isso também pode ter contribuído para a fama do fortificante: o álcool aumenta a atividade dos neurônios responsáveis por avisar o corpo que está na hora de comer mais. 

Seja como for, isso acabou em 2001, quando a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu que tônicos e fortificantes levassem álcool em sua composição para evitar a exposição de crianças à substância.

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“Existem estudos que mostram que crianças que consomem tônicos com teor de etanol acima de 4,5% por um período prolongado têm tendência maior a ser dependente do álcool quando adulto”, afirmou à Folha na época o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal (CRF-DF), Antônio Barbosa da Silva. O Biotônico Fontoura e outros 20 produtos do tipo foram obrigados a mudar a sua fórmula.

Agradecimento: Jacqueline Cabral, farmacêutica.

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