Oferta Relâmpago: Super por apenas 9,90
Imagem Blog

Oráculo

Por aquele cara de Delfos Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Ser supremo detentor de toda a sabedoria. Envie sua pergunta pelo inbox do Instagram ou para o e-mail maria.costa@abril.com.br.

Qual é a origem da expressão “pão-duro”?

É comum atribuir a expressão à peça "Pão Duro", de 1941, escrita por Amaral Gurgel. Mas o bisneto dele conta que a história é mais interessante do que isso

Por Bela Lobato
17 fev 2026, 12h00 •
  • Se você procurar no Google, vai encontrar uma porção de sites – inclusive uma página antiga da Super – dizendo que a expressão foi criada pelo dramaturgo carioca Amaral Gurgel em 1941. 

    Segundo a teoria popular, tudo teria começado com sua popular peça “Pão duro”, sobre um mendigo que pedia esmola de pão velho (por isso, “pão duro”) em frente a uma padaria no Rio de Janeiro. Em uma reviravolta, após a sua morte, descobriu-se que ele guardava uma fortuna escondida, e só não gostava de gastar a grana. Pronto, estava feito o novo nome para os avarentos. 

    No entanto, a história não foi bem assim. A Super conversou com o bisneto de Amaral Gurgel, Guilherme Gurgel, que é doutorando em História Política e Bens Culturais na Fundação Getúlio Vargas. Desde o mestrado, ele se dedica a estudar o acervo do seu bisavô.

    “Ele [Amaral Gurgel] morreu oito anos antes de eu nascer. Então, o conhecimento que eu tenho dele veio de relatos familiares e depois da pesquisa acadêmica. Eu cresci escutando que ‘pão duro é uma expressão que o vovô Amaral criou’. Minha família o chama de vovô Amaral”, conta. 

    O vovô Amaral não era conhecido por sua carreira na dramaturgia – ele fez algumas poucas peças e, na verdade, se destacava na roteirização de radionovelas. Após ter chegado no País em 1920, o rádio viveu sua “era de ouro” entre 1930 e 1950. E um componente importante da programação eram as radionovelas: capítulos seriados de ficção que misturavam música, romance e notícias.

    Longe do romantismo do teatro e da literatura intelectualizados, a produção de radionovelas seguia um ritmo quase industrial. “A obra total dele e dos outros autores do rádio é incalculável. Acho que nem eles mesmos sabiam a quantidade de coisas que tinham escrito, porque foram décadas escrevendo três novelas ao mesmo tempo, não tem uma contabilização”, conta Guilherme.

    Continua após a publicidade

    Por isso, além de esmiuçar tudo que encontra no acervo de sua família, Guilherme também precisa coletar pistas sobre os trabalhos de seu bisavô em jornais antigos. É com base em notinhas de jornais do Rio que se sabe, por exemplo, do sucesso de público e crítica que “Pão duro” teve em 1941.

    Imagem, em fundo lilás, de um cartaz de peça de teatro.
    (Reprodução/Wikimedia Commons)

    Para escrever pão duro, supostamente, Amaral Gurgel teria se inspirado em uma história real de um mendigo milionário. Mas, na realidade, Guilherme descobriu que o enredo da peça foi encomendado pelo dono da companhia de teatro, Procópio Ferreira, que, por sua vez, teria ouvido o causo da boca do ator argentino Francisco Moreno. 

    Foi também assim, pesquisando na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, que Guilherme descobriu que a expressão “pão duro” já estava em circulação há muito tempo – muito antes da peça de seu biso. 

    Continua após a publicidade

    “Ela [a expressão] não aparecia com tanta frequência, mas já estava rolando quando a peça foi feita”, conta Guilherme. “Eu não consegui encontrar nenhuma evidência de que esse primeiro e mítico pão duro teria existido, mas parece que essa expressão meio que caiu no gosto popular ali pelos anos 1930.”

    Ele diz isso porque, em várias manchetes desta época, “pão duro” era usado como se fosse o nome de um rótulo, um estereótipo de uma pessoa avarenta. No jornal A Noite, do Rio de Janeiro, por exemplo, em 15 de julho de 1939, a pequena manchete “Pão duro de Saias” contava a história semelhante à da peça de Amaral Gurgel, mas envolvendo uma mulher em Moscou. Em 17 de março do mesmo ano, outra história do mesmo tipo no mesmo jornal: “Um Pão Duro no Pará”.

    Imagem, em fundo lilás, com recorte de duas notícias de jornal.
    (Jornal da Noite/Montagem sobre reprodução)

    A manchete “Ricos Esfarrapados” consta no Jornal do Brasil de 5 de maio de 1929 e é o registro mais antigo que Guilherme encontrou da expressão, 12 anos antes da peça de seu bisavô. 

    Continua após a publicidade

    O texto narra a história de três ricaços que se passavam por pobres, inclusive um de nome Pão Duro, que mendigava no Largo da Sé, em São Paulo, apesar de ser “proprietário de alguns prédios que lhe rendiam alguns contos de réis por mês”. Talvez esse fosse o pão duro “original”, mas é difícil afirmar. 

     No século 20, esse tipo de generalização era corrente nos jornais para simplificar a descrição de pessoas e reforçar valores morais. Era comum, por exemplo, que as manchetes usassem “pivete” para meninos pobres, “vadios” para desempregados e “maria-tomba-homem” para mulheres brigonas e tidas como masculinas. Assim, a redação ficava fácil: nas primeiras palavras o caso já estava apresentado, categorizado e julgado.

    Hoje, grande parte das menções digitais à Amaral Gurgel se referem à essa história toda envolvendo o termo. Para Guilherme, o bisavô teve um papel, sim, na popularização da expressão “pão duro”, mas não na criação.

    Em suas pesquisas, ela ainda não conseguiu descobrir quando foi que esse boato começou: em um depoimento do avô de 1976, revisitando toda a carreira, a expressão sequer é mencionada.

    Continua após a publicidade

    O pesquisador, entretanto, conta que não ficou frustrado ao descobrir que não era descendente do criador de uma das expressões mais populares do Brasil. 

    “O que eu acho mais interessante é justamente ele não ter inventado e terem dito que inventou, porque o meu mestrado ele não foi [no campo da] História, ele foi na Memória Social”, conta. “Então, eu me interesso muito mais por isso, por essa criação de imaginários. Como é que essa expressão meio que surge de um estereótipo vazio e se encarna no autor?”

    “É uma memória coletiva de algo que não aconteceu daquela forma. Isso para mim é mais interessante do que se essa ideia simplesmente tivesse saído da cabeça dele.”

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
    Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 9,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.