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A ciência de um retrato falado

Para reproduzir o rosto de alguém que fugiu da Justiça ou desapareceu da família, Sidney Barbosa não conta só com talento - ele teve de virar um cientista.

Por João Vito Cinquepalmi 23 mar 2010, 22h00 | Atualizado em 9 out 2017, 19h17
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Artistas costumam confiar na imaginação e na criatividade. Não é o caso de Sidney Barbosa. Ele é o principal perito de arte forense da Polícia Civil de São Paulo. Recebe todo dia a missão de reproduzir o rosto de alguém que fugiu da Justiça ou desapareceu da família. Para isso, Sidney viu que não dava pra contar só com talento. Teve de virar um cientista.

O retrato falado é uma arte ou uma ciência?
Hoje tem muito de ciência. Fazemos tudo em computadores, mais ou menos 35 rostos por mês. Os peritos em arte forense precisam dominar programas de manipulação de imagem. E estudar anatomia e antropologia para conseguir um retrato fiel. Não temos mais desenhos de artistas, cheios de expressões pessoais. O retrato falado deixou de ser uma obra de arte.

Por que isso aconteceu?
Quando fazemos um retrato, usamos um arquivo com 10 mil caracteres – ou seja, 10 mil imagens diferentes de nariz, boca, olhos, orelhas São fotos coletadas de voluntários ou presos. Com base na descrição feita por testemunhas, misturamos essas partes para criar o rosto da pessoa procurada. E aí é fundamental levar em consideração as origens étnicas da pessoa e as da sociedade brasileira, pra não criar aberrações, misturar características que não se encaixam anatomicamente. É por isso que pesquiso muito e entro em contato frequentemente com especialistas da USP para me especializar.

Então a ciência é essencial para o trabalho?
Sim. Quando procuramos alguém desaparecido há anos, precisamos projetar o rosto dessa pessoa no tempo. Ou seja, envelhecê-la. Se não soubermos nada de anatomia, como poderemos imaginar o desenvolvimento do crânio de uma criança, por exemplo? No Brasil, temos outra peculiaridade: o uso de drogas. Aqui, crianças somem por causa do crack, que retira todo o líquido da área do corpo onde é usada. Gera problemas na gengiva, resseca a pele no entorno da boca. Tudo isso tem de aparecer no retrato.

E como conseguir uma boa descrição de uma testemunha que viveu um trauma?
É mais fácil do que parece. Quando entra em estado de choque, o corpo de qualquer pessoa cria defesas. O sangue se concentra em determinados locais do corpo, por determinação do sistema nervoso. O cérebro é um desses locais. Isso ajuda a pessoa a se concentrar no que está causando o trauma. Se pedimos para uma pessoa descrever o pai, a mãe ou o irmão, muitas vezes ela tem dificuldades para citar características específicas. Já com um ladrão é mais fácil. A testemunha consegue remontar a cena na cabeça rapidamente e descrever o rosto do criminoso.

Como você começou nessa carreira?
Desenho desde criança. Aos 15 anos tive câncer, amputei uma perna e passei a ir diariamente a um hospital em São Paulo. O prédio da Polícia Civil ficava no caminho. Eu via os retratos falados deles e pensava que poderia fazer melhor. Um dia decidi entrar e pedir para fazer alguns. Eles deixaram – e eu voltava sempre. Começou a dar resultado: os investigadores conseguiam encontrar os sujeitos que apareciam nos meus retratos falados. E lá estou há 20 anos.

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