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Floresta de Ruhengeri: A África que você nunca viu

Neblina perene e plantas descomunais, envoltas em sufocante manta de musgo, dão ao Monte Ruhengeri o ar de um outro planeta

Nada ali recorda as típicas florestas, savanas ou desertos do continente negro. Milhares de metros acima do nível do mar, a floresta do Ruhengeri é um habitat único no mundo, onde o calor tropical conflita com frígidas geleiras — mais de trinta. Sob eterna neblina vêem-se ervas altas que parecem árvores, como as lobélias, cujas folhas, aveludadas e azuis, depois de mortas servem de cobertor contra o frio. A floresta é tão densa e retém tanta água que a umidade torna-se opressiva. “A água escorre de todas as folhas e nos encharca até os ossos”, relata a jornalista francesa Christine Huot, um dos raros visitantes recentes a enfrentar as dificuldades e chegar às Montanhas da Lua, como a região foi batizada pelo sábio grego Ptolomeu, no século II.

Com 5 119 metros de altitude, o Ruhengeri é o terceiro ponto mais alto da África. Ao contrário dos dois outros grandes picos, o Kili-manjaro, na Tanzânia, com 5 898 metros, e o Monte Quênia, com 5 202 metros, ele não tem origem vulcânica; representa o ápice de um emaranhado geológico no qual se misturam seis cordilheiras e nada menos que 24 picos atingem 4 500 metros acima do nível do mar. Supõe-se que esse maciço rochoso tenha emergido, milhões de anos atrás, depois de uma grande fratura na crosta terrestre, sob a região nordeste da África, apurou Christine. “O resultado foi a ascensão para a superfície de massas de granito e gneisse (tipo de rocha cristalina)”.

Entre os picos, em vales apertados, cobertos por uma das mais fechadas florestas do globo, as chuvas e as geleiras criaram 22 grandes lagos. O périplo de oito dias a pé que levou Christine ao alto das Montanhas da Lua teve início no território do Zaire. “A trilha que partia de Mutsora, a última aldeia, estava bloqueada por diversos caminhões, parados devido ao mau tempo, e mesmo o jipe derrapava continuamente. Nosso avanço era lento e penoso. Sob o brilho inclemente do sol, a trilha cruza plantações de banana, mandioca e café e grupos de mulheres passam carregando lenha às costas. A uma altitude de 1 700 metros, penetramos na parte mais fechada da floresta.”

A selva do Ruhengeri se apresenta, então, com toda a sua exuberância. As árvores erguem-se, às vezes, até 25 metros de altura, como um prédio de oito andares. Embaixo, o solo é escorregadio, repleto de raízes, e um sobe-e-desce contínuo. Os tombos são ainda mais freqüentes porque a atenção do caminhante é distraída pela beleza da floresta: um verde intenso pontilhado por lampejos de outras cores. Por exemplo, as grandes pencas de flores rosadas do bálsamo, um arbusto típico da região tropical úmida africana. Mas o que mais impressiona o visitante é o porte descomunal dos vegetais: enquanto as lobélias européias são plantas de jardim, as africanas têm mais de 3 metros de altura.

O cúmulo do exagero, porém, é a conhecida raiz-de-são-joão, que não passa dos 50 centímetros no resto do mundo e no Ruhengeri tem 15 metros de altura. Não se sabe por quê. O clima somente não é capaz de explicar desproporções dessa ordem. “Os botânicos acreditam que as plantas do Ruhengeri foram isoladas do mundo por uma era glacial, há 10 000 anos, e com o tempo tomaram formas extravagantes”, conta Christine. Mas as causas do crescimento são desconhecidas. Talvez a resposta esteja na brusca mudança de temperatura no Ruhengeri, onde faz mais de 30°C de dia e menos de 10°C à noite. Outra influência possível é a da própria luz solar, excepcionalmente forte, nas grandes altitudes. São algumas das hipóteses que se começam a testar.

Mas, certamente, não será simples compreender os caminhos que a natureza escolheu para desenvolver a vida vegetal nestas condições únicas: o topo de altas cordilheiras no tórrido e úmido leste africano. E põe umida de nisso, conforme relata vivamente a jornalista, ao falar de um trecho particularmente árduo da jornada. “A 2 138 metros de altitude, atravessamos um rio e paramos para passar a noite. O sistema eletrônico de uma das máquinas fotográficas, já havia pifado, a essa altura, devido à umidade. E, para aumentar o desconforto, nossas provisões foram assaltadas por camundongos durante a noite.” Não foi, portanto, com a melhor disposição que, no dia seguinte, a equipe enfrentou a trilha, bem mais íngreme, prossegue Christine.

“A floresta impenetrável, devido aos milhares de raízes que pavimentam o solo, parecia, definitivamente, ter se transformado numa imensa esponja, empapada de água. Ficava cada vez mais difícil erguer da lama os sapatos encharcados. Kangourou, nosso guia, mostrou-nos a trilha aberta por um bando de gorilas, mas não pudemos vê-los, por serem extremamente ariscos. Assim, chegamos a um mundo de arbustos de troncos retorcidos, as chamadas urzes. Nessa área magnífica, um formidável tapete de musgos verdes, laranja e amarelos forram inteiramente o chão, em alguns pontos com camadas de mais de 1 metro de espessura, nas quais nos sentimos afundar suavemente.”

A 3 600 metros, o meio ambiente já não é o mesmo. Desaparecem as árvores e os enormes véus de líquens que pendem de seus ramos. Surgem orquídeas cor-de-rosa e magníficos buquês de sempre-vivas brancas, criando uma atmosfera mágica sob as espessas nuvens. É a partir desse patamar que crescem as lobélias, assim como os tanacetos. Singulares, os tenacetos pertencem à família do dente-de-leão, uma planta de jardim, e enquanto jovens lembram grandes couves-flores que cresceram rápido demais, cujas folhas, grandes e espessas, forradas de pêlos prateados, fornecem proteção perfeita contra o frio e o calor. Mais tarde, porém, emerge em meio às folhas um talo ereto, tão grande que lembra um tronco de árvore. Dele, despontam aglomerados de flores, de um tom amarelo-esverdeado.

As lobélias, por sua vez, apresentam-se em grande variedade de espécies, a maioria da família que os botânicos classificam pelo nome deckenii. Têm um pedúnculo, ou haste, de mais de 3 metros de altura e uma aparência espetacular, pois chegam a vergar com o peso das flores que ostentam. À noite, estas flores se fecham, num mecanismo cuja função é conservar o calor do néctar. Com isso, enlouquecem os pássaros, alguns dos quais bicam o pedúnculo do topo até a base e espalham o pólen das flores azuis, ocultas sob as folhas. Em vez de fazerem mal, portanto, as aves asseguram a reprodução das plantas.

Mas estas são as últimas representantes da grande floresta. A uma altitude de 4 200 metros, ao pé do pico Wasuwameso, erguendo-se 200 metros acima dos expedicionários, começa a zona dos lagos e das geleiras. Do cume do Wasuwameso, junto ao Lago Margarida, vêem-se as primeiras massas geladas, e o frio, à noite, torna-se cortante. Lobélias e tanacetos resistem com galhardia, espalhados pelo solo íngreme. Mas a paisagem é estéril, de uma beleza selvagem, fora do comum. A 4 280 metros, avista-se o Lago Verde, bem escuro, e logo a seguir o Lago Cinzento. Dessa altitude, contemplam-se diversas geleiras e cumes, como que brincando de esconde-esconde entre as nuvens, e a vegetação, afinal, desaparece. Restam, somente, rochas nuas e gelo.

Boxes da reportagem

Praga Africana

A maria-sem-vergonha, quem diria, é importada. Natural da África, essa plantinha, que apresenta pequenas flores coloridas, pode ser encontrada em quase todo o território brasileiro. Segundo o biólogo José Rubens Pirani, do Instituto de Bio-ciências da USP, ninguém sabe exatamente como ela foi introduzida por aqui, mas é bem provável que tenha sido trazida pelos botânicos contratados para implantar parques e jardins na época do Brasil colonial. Hoje, a Impatiens sultanii, seu nome científico, é considerada uma espécie subespontânea, pois nasce sem a necessidade de intervenção humana. “Seus frutos explodem com o impacto de uma minúscula gota de chuva, espalhando as sementes. Essa estratégia de dispersão das sementes fez a espécie se alastrar com muita facilidade, transformado-a numa verdadeira praga”, explica. “Mas, mesmo assim, ela não deixa de ser bonitinha.”