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Micronações Unidas

Chegou a vez dos pequenos. No mundo inteiro, as micronações estão se unindo para defender seus direitos. Chegou a hora do clube dos nanicos.

João Luiz Guimarães

Eles estão espalhados pelos cinco continentes. E, se olharmos o mapa com cuidado – e com o auxílio de uma lupa –, veremos que estão se multiplicando. Nas últimas décadas, aumentou muito o número de países, especialmente o de países-ilhas que se tornaram independentes. Em 1990, 36 microestados fundaram a Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS, na sigla em inglês), para representar o bloco dos pequenos na ONU.

Eles estão muito preocupados com o efeito estufa. É que as emissões de gás carbônico que abafam o planeta e aumentam a temperatura global podem derreter o gelo dos pólos e elevar o nível do mar. Se o nível dos oceanos subir 1 metro, os pequenos países insulares serão, na sua maioria, submersos pelas marés. Morrerão afogados.

Os países da AOSIS já detêm um sexto dos votos na ONU. Eles formam uma nova força geopolítica neste final de século. Uma voz que já não pode ser ignorada.

Segundo o Instituto de Pesquisa e Formação Profissional da Organização das Nações Unidas (ONU), microestado é o Estado independente, com governo, território e população de até 1,5 milhão de habitantes. Existem 46 países com esse perfil. Mas o Anuário Estatístico da ONU prefere definir um micropaís como aquele que tem um território de até 5 000 quilômetros quadrados ou uma população inferior a 200 000 habitantes. Por esse critério, eles seriam 33, dos quais 25 são países-ilhas, a maioria no Oceano Pacífico.

“Além disso, também há as micronações”, diz o pesquisador Fabrice O’Driscoll, da ONU. “São aqueles países não reconhecidos, sem legalidade política. Mais uma tentativa do que um país de verdade” (veja a página 79). Há mais de cem micronações querendo ser independentes.

Para todos os gostos

Variedade não falta. Há micropaíses de todo tipo: ricos, pobres, feios e paradisíacos.

País praça

Localizado dentro de Roma, na Itália, o Vaticano ocupa uma área de apenas 0,44 km2 – um grande quarteirão e a Praça de São Pedro. Tem 808 habitantes e duas línguas: italiano e latim. É a capital da Igreja Católica e o menor Estado soberano do mundo desde 1929, quando foi reconhecido pela Itália. O chefe de Estado, vitalício, é o próprio papa. A renda provém de donativos, turismo e aplicações financeiras. Tem museus fabulosos e uma das igrejas mais belas do mundo, a Capela Sistina, adornada com afrescos de Michelangelo.

País ponte

Barein é um arquipélago de 35 ilhas secas no Golfo Pérsico, das quais só três são habitáveis. Tem 678 km2 e 600 000 habitantes, apertados em dez cidades. Uma ponte de 20 km liga a maior ilha com a Arábia Saudita. Foi o primeiro país da região a descobrir petróleo, mas suas reservas acabam no ano 2000. Para sobreviver, investe na indústria eletrônica e na construção de navios. É governado com mão de ferro pelo emir Issa Bin Sulman Al-Khalifa, desde 1961.

País cabeça

Santa Lúcia, no Caribe, é uma pequena ilha vulcânica, muito privilegiada, com 616 km2 e 140 000 habitantes. Além de uma impressionante beleza tropical, essa ex-colônia britânica é um país de gente inteligente. Já conquistou dois Prêmios Nobel: Arthur Lewis (Economia) e Derek Walcott (Literatura). Recanto estável e democrático, Santa Lúcia vive do turismo e da exportação de frutas.

País Babel

Em Vanuatu, arquipélago no sul do Pacífico, com 12 189 km2 e 82 ilhas montanhosas, cobertas por florestas e vulcões, falam-se 105 dialetos tribais. Os 200 000 vanuatenses vivem da agricultura de subsistência, da produção de frutas tropicais e da criação de porcos. A capital, Porto Vila, na ilha de Efate, tem um moderno setor financeiro que se converteu em um paraíso bancário, atraindo milhões de dólares de capitais asiáticos. No interior, há muitas tribos isoladas. Os ipekel, da ilha de Tanna, por exemplo, cultuam o marido da rainha britânica Elisabeth, o príncipe Philip, duque de Edimburgo, como deus. Sorridentes, aguardam o seu retorno (foto).

País pescaria

Palau é um arquipélago a leste das Filipinas, com 508 km2 e 200 ilhas, mas apenas oito estão ocupadas por 16 000 habitantes. Ficou independente dos Estados Unidos em 1994. É um paraíso. O único produto de exportação é o coco. E a maior renda nacional é a venda de licenças para pesca. A costa é escarpada e o mar translúcido, com recifes de coral e abundante fauna marinha. Ideal para passar as férias.

País praia

São Tomé e Príncipe, na costa oeste da África, parece uma viagem no tempo, de volta à colonização portuguesa. Suas duas ilhas, São Tomé e Príncipe, têm 964 km2 e 130 000 habitantes. É a menor nação africana. Paupérrimo, o país vive do cultivo do cacau, mas tem potencial de pesca e turismo. Importa comida de Portugal. Sem ajuda externa, não sobreviveria. A capital, São Tomé, estacionou no tempo dos fortes portugueses. É um lugar bom, mesmo, para banhos de mar.

País cidade

Cingapura é um rico país-ilha e uma sofisticadíssima cidade-Estado, na ponta sul da Malásia. Seus 2,9 milhões de habitantes, de origem chinesa, vivem apertados em 633 km2, território nove vezes menor do que o de Brasília. Mas eles têm uma das maiores rendas per capita do mundo: U$ 20 000. É um grande centro bancário e tecnológico – o maior produtor mundial de discos rígidos de computador. Politicamente, é um regime fechadíssimo, com forte censura, leis severas e penas medievais, como chibatadas para quem pixar paredes.

Para saber mais

Na Internet:

The Micronations Page (http://www.execpc.com/~talossa/patsilor.html)

Em Busca de Liliput: Uma Visão Geral e Curiosa dos Menores Países do Mundo. Luis Gintner. Litteris Editora, 304 páginas. (gintner@geocities.com)

As nações fantasmas

Muita gente gostaria de ter seu próprio país. Uma declaração de independência também chama muita atenção.

Cem micronações buscam a independência no mundo. Mas muitas não podem ser levadas a sério. Querem é publicidade. O principado Hutt River, da Austrália, por exemplo, foi fundado em 1970 por um fazendeiro revoltado contra o imposto de renda. Em junho deste ano, o grupo ecologista Greenpeace decretou a independência da ilhota Rockall, a 400 quilômetros da Escócia, para alertar o mundo sobre a degradação provocada pela exploração do petróleo no Mar do Norte.

O rochedo virou Waveland e já ganhou passaporte e moeda – o rock – próprios.

Velhos hippies gostam de dar as costas ao mundo e decretar independência. Em 1967, um inglês fundou a Sealand sobre uma plataforma de baterias antiaéreas da Marinha, abandonada no Mar do Norte. Tem heliporto, quatro quartos, freqüência própria de rádio, selos, moeda – e apenas dois habitantes. Na Áustria, o anarquista Edwin Lipburger montou uma bolha oval, de 3 metros de diâmetro, dependurada no ar, em um tripé, no Parque Pratter, em Viena. Alega que não está em território austríaco, mas na república Kugel Mugel. Já foi preso várias vezes.