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Miguel Nicolelis

O maior cientista brasileiro de hoje ligou umbraço mecânico diretamente ao cérebro de um animal.Funcionou. E para ele isso é só um passo em direçãoa algo bem maior: uma mente artificial

Rodrigo Rezende

Existe um homem capaz de fazer animais controlarem braços mecânicos com a mente. E ele está próximo de conseguir o mesmo com você. Pois é. Quem acha que controlar membros mecânicos com a mente só é possível para vilão de filme do Homem-Aranha ainda não conhece Miguel Nicolelis, 43 anos, neurocientista brasileiro que criou o Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos. Nicolelis fez com que sinais elétricos captados diretamente do cérebro de um macaco rhesus controlassem um braço mecânico. Nota: o animal estava no laboratório do brasileiro e o braço, no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), a quase mil quilômetros de distância. O método foi bem original. Nicolelis colocou o bicho para jogar um tipo de videogame e registrou a atividade elétrica nas áreas do cérebro responsáveis pelos movimentos de seus braços. Então seguiu o caminho inverso: programou o braço remoto para agir segundo os impulsos elétricos que surgissem na cabeça do macaco. E o primata moveu o braço mecânico pela internet como se fosse o dele, usando apenas o cérebro como joystick. Era a primeira vez que alguém fazia um cérebro incorporar como seu um pedaço qualquer de matéria. Estava feita uma das maiores revoluções da ciência nos últimos tempos. Conheça um pouco mais sobre o palmeirense responsável por ela.

 

 

Quais foram os desafios enfrentados para conseguir fazer um macaco controlar um braço mecânico com a mente?

Muitos. Primeiro tivemos que aprender a registrar a atividade elétrica de 300 a 400 células neurais e desenvolver todo o aparato eletrônico necessário para o controle do braço mecânico. Depois, tivemos de fazer o sistema funcionar de uma maneira quase fisiológica, para que o animal tivesse a impressão de que possui um terceiro braço. Foram anos de trabalho, mas valeu a pena.

 

Qual é a principal aplicação prática do experimento?

Esse tipo de pesquisa pode ajudar na criação de sistemas para a locomoção de paraplégicos. Isso abre a possibilidade de criar uma prótese neural que consiga ler a intenção motora de pacientes que perderam membros. Já começamos a trabalhar nisso.

 

Quais as vantagens de fazer pesquisa nos Estados Unidos?

Aqui você vira uma espécie de microempresário, com total autonomia para contratar seus estudantes e procurar financiamento. Mas depois de sete anos você passa por uma avaliação muito rigorosa para continuar na universidade. O mais importante é que aqui o mérito é a moeda de troca principal. Já no Brasil, as universidades são presas a coisas do passado que não funcionam mais. São vícios que envolvem a estrutura para a contratação de professores, a visão de como os departamentos trabalham e as funções da universidade no país.

 

Ao entrar em seu site (www.nicolelislab.net), ouvimos Garota de Ipanema, vemos a bandeira do Brasil e um link para o site do Palmeiras. Você sempre teve essa relação tão forte com o país?

Ah, sem dúvida. Desde menino. Quando você vem para os Estados Unidos é um trauma, uma mudança radical de vida, cultura, alimentação, relações. Para mim, sempre foi importante lembrar as minhas origens, as dificuldades de ser cientista no Brasil – e de ser brasileiro em geral. Essa identidade com o país é algo que talvez seja mais poderoso que qualquer outra coisa que eu tenho na vida. É por isso que o projeto de Natal (veja no boxe à direita) é tão importante para mim.

 

Qual o seu objetivo com a criação de um centro de neurociências em Natal?

A idéia é criar um modelo novo, em que a ciência vire um agente de transformação social. Nosso objetivo é espalhar campi e centros de excelência com essa mesma visão social pelo Norte e Nordeste do país. E Natal vai ser o representante da América Latina numa rede internacional que integrará os centros de neurociência mundiais. O centro também vai ajudar a reverter o fluxo de cérebros do país para o exterior, ajudando o Brasil a se tornar um importador de cérebros.

 

A ciência ainda vai construir um cérebro artificial?

Sem dúvida. Eu acredito que vai existir uma explicação matemática para tudo o que o cérebro faz. Tudo o que fazemos como seres humanos tem uma explicação derivada da função dos circuitos neurais. Assim como a ciência está chegando nas bases matemáticas do funcionamento do Universo, ela fará a mesma coisa quanto ao funcionamento da mente. Não acredito que um cérebro seja reconstruído artificialmente pelo menos até a minha 25a geração. Ainda mais se for um cérebro palmeirense como o meu!

 

 

Ciência na praia

É numa área de 100 hectares próxima à cidade de Natal (RN) que está para nascer o mais ambicioso projeto de Miguel Nicolelis: o primeiro dos 12 institutos de neurociência que o pesquisador pretende construir para colocar o Brasil no mapa das ciências do cérebro. O objetivo do projeto é semelhante ao do Instituto Max Planck, criado no começo do século 20 na Alemanha: estancar a fuga de cérebros para o exterior e fortalecer a ciência nacional. As obras em Natal começam ainda neste ano e vão custar cerca de US$ 20 milhões.