Clique e assine a partir de 8,90/mês

Por que os velhos são mais sábios

A sabedoria humana atinge o seu ápice justamente quando outras aptidões do cérebro começam a diminuir. Entenda essa aparente contradição

Por Carlos Nasser - Atualizado em 28 set 2018, 19h36 - Publicado em 28 fev 2006, 22h00

“Dai-me coragem para mudar o que posso, serenidade para aceitar o que não posso mudar e sabedoria para perceber a diferença.” A conhecida prece mostra com bastante simplicidade o quanto a capacidade de fazer bons julgamentos é valorizada. Mas seria a sabedoria uma dádiva ou algo que se desenvolve com o tempo?

Para o neuropsicólogo russo-americano Elkhonon Goldberg, não há nada de místico. Segundo ele, a sabedoria é uma forma de processamento mental muito avançada, que atinge seu auge apenas na velhice – justamente a época em que a capacidade do nosso cérebro começa a diminuir. Esses dois processos aparentemente contraditórios são o tema central do livro The Wisdom Paradox (“O Paradoxo da Sabedoria”, sem tradução para o português), publicado e, 2005. “A velhice é sempre vista como uma época de declínio, mas ela pode trazer novas habilidades muito poderosas”, diz Goldberg.

Mas o que é a sabedoria, afinal de contas? Os dicionários dizem que é a qualidade de ter experiência, conhecimento e capacidade de fazer bons julgamentos. Goldberg prefere uma descrição mais prática. “É a capacidade de ‘saber’ a solução de um problema complicado ou inesperado de maneira praticamente instantânea e sem esforço mental. É também a capacidade de conseguir antecipar eventos que costumam pegar as pessoas desprevenidas.” Mais do que simplesmente saber reconhecer uma situação de crise, por exemplo, o mecanismo da sabedoria permite enxergar formas de resolvê-la. Mesmo que a pessoa nunca tenha atravessado uma situação igual.

A chave para esse processo, segundo Goldberg, é a nossa capacidade de identificar padrões. Ao ver uma cadeira, por exemplo, somos capazes de identificar que aquilo é uma cadeira sem precisar ter visto todos os tipos e modelos de cadeiras que existem no mundo. Isso é possível porque criamos um modelo mental da cadeira genérica, com todas as suas características comuns, que é ativado quando vemos algum objeto que se encaixa na descrição. Isso funciona também com situações e na resolução de problemas. “Se não fosse por essa capacidade, cada objeto e cada situação que encontrássemos durante a vida seria tratado como uma coisa totalmente nova, e seríamos incapazes de usar nossas experiências anteriores”, diz o neuropsicólogo. A habilidade de reconhecer semelhanças entre problemas aparentemente novos e outros já resolvidos é o que Goldberg define como competência.

Quanto maior o número de experiências e padrões acumulados por uma pessoa competente, maior a sua experiência em um determinado campo. É por isso que um médico com vários anos de trabalho acumulados consegue resolver problemas melhor do que um recém-formado – apesar de o treinamento de ambos ser muito semelhante. Todos nós, em maior ou menor grau, possuímos competência e conseguimos acumular experiência, diz Goldberg. “Já a sabedoria é vista como a versão mais avançada dessas habilidades e exige uma forte mente analítica e uma biblioteca de padrões bastante abrangente.”

À medida que as relações entre os diversos padrões vão sendo processadas pelo cérebro, elas vão formando redes de neurônios que Goldberg chama de “atratoras”. São “circuitos” de memórias relacionadas que contam com diversas maneiras de ser ativados. Quando você vê o rosto de uma pessoa, ativa a rede atratora que relaciona várias outras coisas que você sabe sobre ela. A sabedoria, então, seria consequência de uma grande quantidade de redes atratoras no cérebro da pessoa. E tanto elas quanto os padrões levam tempo para serem acumulados em quantidade suficiente para resolver problemas de maneira rápida e eficiente. “Por causa disso, o envelhecimento acaba sendo o preço da sabedoria”, resume Goldberg.

Arquivo vivo

A relação entre sabedoria e envelhecimento não tem a ver somente com o acúmulo de experiências, segundo o autor. Um outro fator importante são as mudanças que ocorrem na forma como o cérebro lida com informações. O lado direito (esquerdo no caso dos canhotos), responsável pelo processamento de informações novas, costuma sentir os efeitos do envelhecimento antes do lado esquerdo, onde se concentra boa parte da nossa memória de longo prazo.

Na prática, a experiência e a sabedoria acabam conseguindo compensar parcialmente essa perda, diz o neuropsicólogo. “Quando somos jovens, a maior parte do nosso poder de processamento é empregada em tentar entender o mundo e as situações com as quais nos confrontamos”, explica ele. “Esse poder diminui com a idade. Em contrapartida, a maioria dos problemas que surgem pode ser resolvida com base na comparação com os padrões que foram acumulados. Isso demanda muito menos trabalho do nosso cérebro do que tentar entender uma situação completamente nova.”

A forma como a memória começa a falhar com a idade também tem um papel importante. Padrões, como as características em comum das cadeiras ou de problemas conhecidos, são muito mais resistentes ao tempo do que dados isolados – por exemplo, a informação de que Pequim é a capital da China. Por fim, o início do declínio mental costuma coincidir com a aposentadoria, época em que os desafios do dia a dia diminuem consideravelmente.

A história traz importantes exemplos de como essas capacidades analíticas conseguem sobreviver ao tempo e, inclusive, ao início de demências. O ex-presidente americano Ronald Reagan começou a apresentar os primeiros sinais do mal de Alzheimer enquanto ainda estava na Casa Branca. Winston Churchill, primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, teve diversos lapsos mentais e alguns derrames durante seus dois mandatos. Joseph Stalin, que comandou a ex-União Soviética por décadas até sua morte, em 1953, passou a ter diversas dificuldades de linguagem em seus últimos anos. Também há indícios de que o ditador nazista Adolph Hitler tenha começado a apresentar sinais de demências menores. O ponto comum entre essas personagens, diz Goldberg, é que, apesar desses problemas, todos eles ainda foram capazes de liderar seus países até praticamente a morte. “Sim, eles tinham muitos e muitos assessores para compensar as dificuldades. Mas em nenhum momento eles foram marionetes. Sempre estiveram no comando”, diz o neuropsicólogo.

Eram todos eles sábios? “Provavelmente não. Mas todos acumularam padrões e experiências e mostraram competência, que serviu para levar adiante seus bons e maus propósitos”, diz Goldberg. “Todos eles são exemplos de como o mecanismo de reconhecimento de padrões é poderoso e consegue compensar até certo ponto diversos outros problemas cognitivos.”

Somando tudo isso, fica fácil perceber que, na prática, a sabedoria trata-se mais de uma troca do que de uma supercapacidade. E é dessa forma que ela precisa ser encarada, diz Goldberg. Em outras palavras, não como o ápice do nosso processamento mental, mas como um mecanismo biológico para compensar a queda de capacidades como a concentração e a aquisição de novos conhecimentos. “Ela tem um efeito bastante considerável, mas é finito e apenas diminuiu o ritmo do nosso declínio mental, que é inevitável”, afirma Goldberg.

Experiência acumulada

Apesar de inevitável, o declínio mental é gradual em pessoas que não têm doenças degenerativas, com o mal de Alzheimer. Isso significa que é possível aproveitar bem as vantagens que a sabedoria traz. “Há diversas tarefas mentais nos quais os idosos têm resultados tão bons quanto os de pessoas mais jovens”, diz a neuropsicóloga Jacqueline Abrisqueta-Gomez, do Hospital São Paulo. Basta não considerar o tempo gasto, que nos idosos tende a ser maior. “Grandes empresas multinacionais costumam entregar o comando para profissionais na faixa dos 50 anos, que estão num ponto de equilíbrio entre velocidade de processamento e experiência acumulada”, diz a médica.

Continua após a publicidade

Há também aqueles que atingiram o ponto alto de suas capacidades exatamente na velhice. Entre os exemplos, Goldberg cita o escritor alemão Goethe. Ele escreveu o primeiro volume de Fausto, sua obra-prima, aos 59 anos, e a segunda aos 83. “Goethe escreveu muitos livros durante sua vida, mas foi justamente a obra produzida na velhice que se tornou sinônimo de seu nome através dos séculos.” Outro exemplo citado é o do arquiteto espanhol Antoni Gaudí, que morreu num acidente aos 74 anos, no auge de sua capacidade criativa.

No fundo, talvez seja a experiência e a sabedoria que nos permitam viver 60, 70, 80 ou mais anos. “Somos uma das poucas espécies cuja vida vai além do período reprodutivo”, diz Goldberg. Qual seria a importância de um indivíduo que, do ponto de vista biológico, não tem mais nada para contribuir para a perpetuação da sua espécie? “Uma possibilidade é que os mais velhos contribuam de uma maneira crítica para a sobrevivência da espécie por outros meios – particularmente na transmissão do seu conhecimento acumulado para as gerações mais novas por meios culturais, como a linguagem”, acredita o pesquisador.

Assim como nem todos os idosos apresentam demências graves, nem todos atingirão a sabedoria. Embora o potencial de certas pessoas seja maior que o de outras, é preciso desenvolvê-lo. “Expor-se constantemente a novos desafios mentais é um ingrediente muito importante”, diz Goldberg. Sem o acúmulo de experiências que alimentam a biblioteca de padrões, mesmo a mais analítica das mentes não conseguiria chegar à sabedoria. A sabedoria, escreveu o filósofo grego Sócrates, começa com a vontade de saber.

Auge e declínio

O que acontece com o cérebro na fase de envelhecimento

Apesar de a velhice ser um pré-requisito para a sabedoria, isso não quer dizer que ela seja uma época de ouro para a mente. O cérebro humano segue algumas fases de desenvolvimento bem distintas, e o envelhecimento não é a mais gentil delas. A primeira fase é a do desenvolvimento, que em geral dura até os 30 anos de idade. Depois se segue uma fase de maturidade e estabilidade, em que a prioridade passa a ser o uso do que foi aprendido.

A partir dos 40 anos, começamos a perder neurônios. A capacidade de adquirir novos conhecimentos diminui e a velocidade de processamento do cérebro também vai caindo. A visão e a audição podem começar a falhar, o que dificulta a concentração. Taxas elevadas de colesterol, mesmo abaixo do que as necessárias para causar um derrame ou um ataque cardíaco, são capazes de provocar microderrames, que podem lesar áreas do cérebro. Por último, há o risco de se desenvolver o mal de Alzheimer, que afeta a memória e acelera os efeitos do envelhecimento.

Podemos não ser mais tão mentalmente capazes na velhice, mas as necessidades também tendem a diminuir. “O início do declínio mental costuma ser acompanhado pela aposentadoria, quando passamos a ser menos exigidos mentalmente”, diz o neurologista Ivan Okamoto, do Hospital Albert Einsten, em São Paulo. Mas isso não deve ser desculpa para pararmos de usar nosso cérebro: quanto mais o exercitamos, mais resistente ele se torna aos efeitos do envelhecimento.

Malhação mental

Manter a mente ativa é a melhor forma de retardar o aparecimento de problemas típicos da idade. Eis algumas dicas para você exercitar seu cérebro

• Procure novas formas de fazer as coisas. Alguns exemplos simples e eficientes são criar novas rotas para o caminho de casa para o trabalho ou imaginar novas formas de arrumar os móveis.

• Não caia na rotina. Nosso piloto-automático mental é realmente muito útil e eficiente no dia a dia, mas nossa mente acaba se acomodando se tudo for feito apenas por hábito.

• Procure outras atividades mentais, como aprender alguma coisa nova. E, de preferência, escolha algo bastante diferente dos conhecimentos que você usa no seu trabalho.

• Exercícios físicos também são importantes para diminuir os riscos de derrames e microderrames.

• Dedicar-se a alguma forma de arte também é um ótimo exercício mental.

• A partir dos 50 anos, é uma boa ideia fazer check-ups periódicos das suas capacidades cognitivas. “Quanto mais cedo os indícios de problemas forem identificados, mais fácil será conter o seu avanço”, diz a neuropsicóloga Jacqueline Abrisqueta-Gomez, do Hospital São Paulo.

• Encare o ato de pensar como uma atividade genuína e com valor em si mesma, diz Goldberg. “Faça dela uma parte do seu estilo de vida.”

O que faz a diferença

Outros animais também aprendem a identificar padrões, mas a capacidade é limitada

A capacidade de identificar padrões está presente em todos os animais com aptidão para aprender. “Em Nova York, os porteiros costumam ter biscoitos para cachorro guardados nos seus locais de trabalho”, conta o neuropsicólogo Elkhonon Goldberg. “Por conta disso, meu cachorro, assim como muitos outros, desenvolveu uma surpreendente capacidade de identificar porteiros.” Mas em outras espécies que não os humanos, essa habilidade costuma ser limitada. O motivo, segundo acredita Goldberg, é a falta de linguagens elaboradas, principalmente escritas. “Sem isso, o aprendizado que o animal tem sobre o mundo começa sempre do zero. Humanos, em contrapartida, conseguem armazenar conhecimentos de várias formas e transmiti-los através das gerações.”

Continua após a publicidade
Publicidade