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Reality shows: olhando pelo buraco da fechadura

Essa história começou nos anos 1980 – e faz sucesso na TV até hoje.

Por Leandro Sarmatz
30 nov 2001, 22h00 • Atualizado em 3 abr 2018, 14h13
  • E se o mundo for uma espécie de programa de televisão? E se todos nós formos apenas talentos reunidos pelo Grande Descobridor de Talentos Lá de Cima? “O Grande Show da Vida!”, escreveu, em 1970, o romancista americano Philip Roth. Foi profético. Antecipou a moda dos programas de reality show, em que gente comum é exposta a banhos de celebridade em gincanas exibicionistas cujos cenários são ilhas desertas, casas lacradas e paragens agrestes.

    Os reality shows atravessaram continentes despertando controvérsia. Na França, o programa Loft Story dividiu os espectadores. Apresentado no primeiro semestre pelo canal M6, Loft Story mostrava o cotidiano de um grupo de voluntários confinados num apartamento de Paris. Enquanto a francesada se deliciava com a “vida real” registrada pelas câmeras, os jornais eram palco de acirrados debates sobre a espetacularização do real.

    E como tudo começou? Ainda em 1997, os suecos se vidravam em Expedition Robinson, no qual um punhado de gente era despejada numa ilha e tinha que se arranjar de alguma maneira. Era uma espécie de laboratório da democracia, segundo os planos de um dos seus idealizadores, o músico Bob Geldof, o mesmo que concebeu o Live Aid, mega-concerto de rock beneficente, em 1985.

    Pouco depois, na Holanda, apareceria um programa que criaria um padrão para os reality shows: Big Brother, referência ao romance 1984, do inglês George Orwell. O monitoramento era total na casa alugada para abrigar a mistura de cárcere com cenário de novela. O público aprovou. Em seguida, começaram a pipocar em todos os quadrantes do globo atrações que colocavam gente como a gente sob os holofotes.

    Nos Estados Unidos, por exemplo, o programa Survivor elevou às alturas o índice de audiência da CBS durante 13 semanas de 2000. E, no Brasil, as coisas não seriam diferentes. No mesmo ano, No Limite, da TV Globo, a versão verde-amarela do reality show, mesmerizou a platéia em sua primeira edição ambientada no Nordeste. Outra invenção marota veio do arqui-rival SBT: a Casa dos Artistas, que escancarava o cotidiano de alguns famosos “encarcerados” numa mansão em São Paulo.

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    Bizarrices não faltam. Temptation Island, rebento sensual dos reality shows produzido pela Fox, colocou de 2001 a 2003 quatro casais numa ilha – junto com mais duas dezenas de modelos. Os ganhadores eram aqueles que resistiam ao assédio dos modelos. A versão brasileira do programa, Ilha da Sedução, foi ao ar no SBT de 2002 a 2003.

    A lógica perversa disso tudo é que nós, espectadores, passamos a enxergar os casais – e todos os outros participantes dos reality shows – como atores. O estranho é que, justo nos dias de hoje, quando a vida assume aspectos de ficção, com a artificialização de tudo, a ficção mais delirante acaba expondo a realidade nua e crua.

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